InícioEmpresas“A fragmentação global vai encarecer as matérias-primas”

“A fragmentação global vai encarecer as matérias-primas”

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

As pequenas e médias empresas europeias estão menos preparadas para enfrentar riscos geopolíticos do que as grandes empresas, num contexto em que tarifas, alterações regulatórias e tensões comerciais assumem um peso crescente. A conclusão é do relatório Supply chains and the rise of geopolitical risks: EU firms in a fragmenting world, publicado em setembro. Jorge Rodrigues, coordenador do Observatório de Risco Geopolítico para Empresas da Porto Business School, explica à PME Magazine que a diferença está sobretudo relacionada com a escala e os recursos disponíveis.

O estudo da Comissão Europeia e do Banco Europeu de Investimento mostra que cerca de 64% das empresas europeias consideram-se preparadas para lidar com riscos geopolíticos, mas a dimensão importa. O valor chega aos 73% entre as grandes empresas, mas desce para menos de 50% entre as pequenas e médias empresas.

“Enquanto as grandes empresas dispõem de departamentos dedicados à gestão de risco e capacidade financeira para diversificar cadeias, as PME focam-se na sobrevivência operacional e carecem de ferramentas para antecipar crises maiores”, explica Jorge Rodrigues.

“As PME concentram-se mais na gestão diária, sem grande capacidade para antecipar o futuro e desenvolver mecanismos de gestão de risco”, acrescenta.

Entre as principais vulnerabilidades, o especialista destaca a dependência de fornecedores únicos, a reduzida capacidade de negociação perante aumentos dos custos logísticos e as dificuldades em responder a novas exigências regulatórias.

“Num cenário de fragmentação global, a maior vulnerabilidade das PME não resulta de negligência estratégica, mas sim da escassez de escala para absorver fricções geopolíticas”, afirma.

Tarifas aduaneiras são o principal obstáculo

O relatório mostra também uma alteração na natureza dos riscos enfrentados pelas empresas. Os problemas relacionados com o acesso a matérias-primas, semicondutores e componentes diminuíram significativamente desde 2023.

Entre 2023 e 2025, a percentagem de empresas que apontavam dificuldades no acesso a matérias-primas caiu de 27% para 8%, enquanto as preocupações relacionadas com semicondutores recuaram de 15% para 3% e as relativas a outros componentes de 22% para 4%.

Em contrapartida, as alterações nas tarifas aduaneiras e os custos associados ao cumprimento de novas regras passaram a estar entre os principais obstáculos ao comércio internacional.

Para Jorge Rodrigues, esta mudança representa a passagem de uma crise essencialmente logística para uma fase de “fragmentação estrutural”.

“Resolvidos os estrangulamentos físicos de abastecimento, a geopolítica transferiu-se para o plano legal e económico, traduzindo-se na proliferação de tarifas retaliatórias e novas exigências de conformidade”, explica.

Para as PME portuguesas, defende que o impacto pode ser particularmente relevante. “Sendo economias muito abertas, mas de pequena dimensão, as PME nacionais enfrentam importantes barreiras burocráticas ao exportar ou importar”, afirma.

“A falta de escala para gerir custos regulatórios complexos e a inflação das matérias-primas, incluindo pelo acréscimo de tarifas aduaneiras, podem sufocar as suas margens de lucro”, diz ainda.

 Neste contexto, o especialista defende uma aproximação a parceiros comerciais “juridicamente mais seguros”, seja “pela relação de confiança”, ou por estarem “geograficamente próximos”.

Empresas estão a trocar stocks por diversificação

A resposta das empresas europeias aos riscos também está a mudar. Em 2023, 31% das empresas aumentavam os seus inventários como forma de proteção contra perturbações nas cadeias de abastecimento. Em 2025, essa percentagem desceu para 17%.

Em contrapartida, as empresas estão a privilegiar soluções mais estruturais para reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento. Em 2025, 19% das empresas estavam a diversificar parceiros comerciais e 11% a substituir fornecedores de fora da União Europeia por fornecedores europeus.

Para Jorge Rodrigues, a diversificação é importante, mas não significa que uma PME tenha de criar uma rede de fornecedores completamente nova.

“A diversificação total é muitas vezes um mito inacessível para as PME devido aos elevados custos de transição, perda de economias de escala e exigência de novos contratos”, afirma.

A alternativa passa, na sua perspetiva, por concentrar os esforços nos pontos mais críticos da cadeia de abastecimento. “Em vez de abrir múltiplos canais em simultâneo, as PME portuguesas devem apostar em parcerias ou consórcios setoriais para partilhar os custos de prospeção de novos mercados”, explica.

A estratégia, acrescenta ainda, pode também passar pelo nearshoring, aproximando fornecedores geograficamente, ou pelo friendshoring, privilegiando mercados politicamente alinhados.

“Diversificar não tem de significar fragmentar recursos, mas sim criar um plano de contingência ativável para os fornecedores mais vulneráveis”, defende.

Empresas vêem tensões comerciais como permanentes

O contexto também parece estar a alterar a forma como as empresas encaram as tensões comerciais. Mais de metade das empresas europeias considera que os problemas relacionados com tarifas e acesso a matérias-primas são permanentes e não temporários.

Entre as empresas que negoceiam com os Estados Unidos, 67% consideram que as tarifas serão um obstáculo permanente. No caso das empresas que trabalham com a China, essa percentagem é de 60%.

A perceção de permanência destes riscos surge num contexto em que 74% das empresas europeias apontam o aumento dos custos como um dos principais desafios para os próximos dois anos, enquanto 61% identificam a incerteza económica e geopolítica e 44% referem o acesso a matérias-primas.

Ainda assim, as empresas europeias mantêm expectativas positivas relativamente às exportações: cerca de metade espera aumentar as vendas externas nos próximos dois anos e 36% prevê manter os níveis atuais.

O que podem fazer as PME?

Para as empresas com menos recursos financeiros e humanos, Jorge Rodrigues defende que a preparação deve começar antes de uma crise.

O primeiro passo passa por identificar o que é essencial para o negócio e determinar o nível de risco que a empresa está disposta a assumir. “Se existir essa capacidade, a cenarização (…) ajuda bastante no planeamento estratégico”, explica.

A segunda medida é criar uma estrutura permanente de acompanhamento. “Recolher e tratar informação em permanência, elaborar uma matriz de risco” são, para o especialista, passos fundamentais para identificar recursos e momentos críticos e preparar respostas.

Em vez de procurar vários fornecedores para todos os componentes, a empresa pode, por exemplo, identificar um fornecedor alternativo para os elementos mais críticos e começar a estabelecer uma relação com esse parceiro antes de existir uma rutura.

“Será importante criar algum tipo de ‘reservas’, com vista a antecipar os piores momentos, mesmo que isso represente um aumento de custos”, acrescenta.

A terceira medida passa pela cooperação. Jorge Rodrigues defende que as PME podem trabalhar com outras empresas do mesmo setor ou associações empresariais para partilhar custos logísticos, capacidade de armazenamento e monitorização de riscos regulatórios.

Três setores particularmente expostos em Portugal

Jorge Rodrigues identifica três áreas particularmente expostas à evolução do contexto geopolítico: indústrias exportadoras tradicionais, metalomecânica e componentes automóveis e PME tecnológicas.

No têxtil e no calçado, o especialista defende que o risco está relacionado com margens reduzidas e exposição a barreiras alfandegárias e custos de transporte.

Já a metalomecânica e os componentes automóveis estão fortemente integrados em cadeias de valor europeias. “Se o motor industrial da Europa (como a Alemanha) abrandar devido a tensões com a China ou EUA, as nossas empresas sentem o impacto imediato”, afirma.

Nas PME tecnológicas, por outro lado, a exposição é menos relacionada com o transporte de mercadorias. “Embora não dependam de mercadorias físicas, estão cada vez mais expostas a ciberataques de origem geopolítica e à necessidade de cumprir normas rigorosas de soberania digital da UE”, explica.

Para os próximos anos, o especialista aponta assim para um cenário marcado pelo aumento dos conflitos híbridos, guerras comerciais e tarifas aduaneiras, com possíveis efeitos sobre matérias-primas, energia e margens empresariais.

“Como Portugal é uma economia pequena e muito aberta”, conclui, “a fragmentação global vai encarecer as matérias-primas e perturbar os custos de energia, aumentando a distância das redes e criando uma enorme pressão sobre as margens de lucro.”

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