Sexta-feira, Agosto 14, 2026
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“A IA vai transformar a humanidade como o fogo e a roda” – Robert J. Mical

Por: Mafalda Marques e Ana Vieira


Robert J. Mical, a trabalhar atualmente na Google, é uma das mentes visionárias na indústria dos videojogos mundial.

Aos 14 anos desenvolveu o seu primeiro videojogo, trabalhou na Williams Electronics, ajudou a inventar o computador Amiga e co-inventou o Atari Lynx e o 3DO Interactive Multiplayer. Trabalhou ainda como gestor sénior na Sony, na linha de produtos PlayStation. 

No início de maio deste ano visitou Portugal pela primeira vez e ficou impressionado com o dinamismo do ecossistema empreendedor nacional. Em entrevista à PME Magazine, partilhou reflexões sobre liderança, inovação, inteligência artificial e o futuro das pequenas e médias empresas, deixando conselhos valiosos para empreendedores e líderes empresariais.

 


PME Magazine (PME Mag.) – Qual o motivo da sua vinda a Lisboa? E o que achou do país?  
Robert J. Mical (R. J. M.) – Esta é, na verdade, a minha primeira visita a Portugal e tem sido uma experiência absolutamente fantástica. E o meu primeiro objetivo era investigar oportunidades em startups e fazer algumas apresentações. Mas eu também queria perceber o país.

Fiquei incrivelmente impressionado com o ecossistema entrepreneur vibrante aqui, que é realmente inspirador, como o hub de jogos, uma fantástica base para startups que nós conseguimos visitar. Conheci alguns líderes de negócios com pensamento incrivelmente forte e tivemos algumas discussões interessantes. Descobri a escola 42 Portugal, que eu admiro muito, especialmente os alunos. O conceito desta escola é incrível, difícil de entender e imaginar. Eu quero fazer uma escola como esta sozinho, um dia!

Mas mais do que tudo, eu fiquei assoberbado pela calma e hospitalidade dos portugueses, que tornou esta experiência toda tão acolhedora e divertida. No fundo, parece que há uma energia real e entusiasmo por inovação aqui.

“(…) as pessoas querem trabalhar comigo porque sou divertido e justo e, muitas vezes, as nossas ideias divertidas tornam-se realidade”.


PME Mag. – Como é que a sua experiência em desenvolver tecnologias pioneiras pode inspirar pessoas e empresas a inovar e a diferenciar-se no mercado?
R. J. M. –
Bom, eu acho que teria em conta três pontos. Não tenha medo de sonhar grande e de tomar grandes decisões. Grandes oportunidades levam a produtos únicos. E, a maioria das apostas, a maioria das grandes apostas, não pagam. Mas quando elas pagam, pode ser revolucionário.

Outro ponto seria, deixar o caráter dos empregados tornar-se o caráter da empresa. Não tente forçar uma cultura neles, mas, em vez disso, deixe a sua própria cultura surgir. Apoie iniciativas dirigidas por empregados e providencie plataformas para eles formarem os valores e a identidade da empresa. Uma cultura autêntica numa empresa atrai talento e, possivelmente, até mesmo clientes.

E, por último, eu diria que deve dar sempre uma parte da empresa a todos, com equidade. E eu refiro-me mesmo a todos, do CEO, o Chief Executive Officer ao CBW, o Chief Bottle Washer. Garanta que existe equidade, porque quando todos têm um pouco da empresa, todos estão motivados para que a empresa tenha sucesso. 

 

PME Mag. – Numa empresa, o que é essencial para desenvolver uma cultura de inovação? 
R. J. M. – Para fomentar uma cultura de inovação, eu apontaria alguns elementos essenciais. Primeiro, dê aos empregados a liberdade de inventar, mas dê a possibilidade de falhar quando tentam soluções radicais.

Dentro do seu grupo, incentive sempre a colaboração e a comunicação aberta. Agarre essa rede de pessoas que trabalham sempre juntas e partilhe as suas ideias. Do grupo, espere excelência e recompense sempre a excelência. E eu já disse antes, mas dizer outra vez, dê a todos uma participação pelo que estão a criar, até a pessoa que varre o chão do laboratório deverá fazer parte da organização.

Cada um destes elementos que mencionei é muito importante e poderíamos ficar aqui horas a falar deles, por isso, convidem-me para mais uma conversa. 


PME Mag. – Com o avanço da Inteligência Artificial (IA), que mudanças devem as empresas antecipar no relacionamento e abordagem aos clientes? 
R. J. M. –
Essa é uma ótima pergunta! Eu acho que a Inteligência Artificial vai-nos ajudar em todas as [dimensões] da vida, tal como a calculadora nos ajudou com a matemática, eu acho que a IA nos vai dar poder. E as pessoas que estão confortáveis a usar a IA, vão ter uma grande vantagem.

Mas eu não acho que a IA vai substituir a nossa humanidade. Em primeiro lugar, a IA, simplesmente, não é humana. Ela sabe soar como um humano, mas qualquer qualidade inefável que nós temos como humanos, como uma vida de experiências construída em cima do cérebro que tem uma capacidade tão incrível para experimentar e criar beleza e compaixão, ela não tem. Nós ainda somos os mestres da tecnologia, e a IA ainda é apenas a tecnologia. Um parente inteligente, é como eu lhe chamo, muito inteligente, de facto, mas ainda é apenas um parente.

Assim, as empresas de amanhã podem esperar que os seus clientes apareçam agora com muito mais factos por causa da IA. Hoje em dia, eu consulto grandes modelos de linguagem grande sobre imensas coisas. Eu não compraria um carro, ou planearia uma remodelação ou decidiria sobre uma decisão médica, sem verificar a opinião primeiro um grande modelo de linguagem. E algumas empresas vão automatizar o serviço do cliente usando estas funcionalidades, mas durante muito tempo nós ainda vamos conseguir ver a diferença entre um robô que fala e um humano, até mesmo no telemóvel. Nós vamos saber quando é uma voz automatizada ou uma pessoa real. E em alguns casos, isso até vai ser ótimo, especialmente quando nós só queremos desligar. Mas muitas das vezes nós acabamos por ficar frustrados, e necessitamos de falar com uma pessoa, porque as nossas necessidades ainda são muito complexas para um sistema automático.

Mas, por outro lado, a mesma situação pode acontecer se do outro lado estiver um humano idiota, num outro país, a atender a sua chamada! Pode acontecer a mesma coisa! O cliente vai-se tornar mais inteligente e mais informado e as empresas vão precisar de ser mais inteligentes e mais preparadas para o cliente informado.

PME Mag. – O que é que aprendeu nos seus projetos mais bem sucedidos e que acha que pode ser aplicável para a liderança de negócios hoje? 
R. J. M. – Sabe, as pessoas querem trabalhar comigo porque sou divertido e justo e, muitas vezes, as nossas ideias divertidas tornam-se realidade. Percebi que as pessoas escolhem trabalhar em projetos em que se sentem valorizadas, respeitadas e em que há um sentido de propósito partilhado e prazer.

Eu preparo as pessoas para o sucesso, mas depois afasto-me quando elas lá chegam. Todos sabem isto de mim, então as melhores querem trabalhar comigo porque nós nos divertimos e o que eu quero mais é que elas tenham sucesso, que é um ótimo lugar para estar. 

 

PME Mag. – Quais são serão as tecnologias que terão maior impacto no crescimento e transformação das empresas nos próximos anos?
R. J. M. – 
Bem, o maior de todos é a IA. A IA vai ter o maior impacto na humanidade de uma forma que nem conseguimos imaginar. E, quando pensamos em IA, pensamos nesses grandes modelos de línguas que podem soar como humanos quando respondem, mas a IA também está presente em modelos pequenos. E são estes modelos de linguagem mais pequenos que se vão tornar omnipresentes nas nossas vidas.

Carros que se tornam mais automaticamente defensivos do que outros carros, ou o processamento automático de e-mails e outras comunicações, ou as luzes que aparecem exatamente da maneira que gosta, ou a música, a temperatura do quarto. Já reparou no efeito perfeito da correção ortográfica? Já alterou algum detalhe estranho de uma fotografia? Estes são todos exemplos destes pequenos modelos de linguagem em uso por todo o mundo.

Agora mesmo, na Índia, eles estão a usar um pequeno modelo de linguagem, com um drone, para olhar para as folhas das árvores, para identificar problemas em árvores individuais. E quando os drones encontram um problema, chamam outros drones, com spay, para resolver o problema. É super eficiente e isto já está acontecer, hoje, no nosso mundo. Estes micro-AIs, vão mudar o nosso mundo! Para citar o meu chefe, Sir Demis Hassabis (CEO da Deepmind), a IA vai ser tão importante para a humanidade quanto a descoberta do fogo, como a descoberta da eletricidade ou como a descoberta da roda. E, é claro, nem vou mencionar os computadores quânticos, que vão mudar tudo outra vez. 

 

PME Mag. – Um conselho para empreendedores e líderes de Pequenas e Médias Empresas (PME)?
R. J. M. – Eu acredito firmemente no poder de um estilo orgânico e ascendente de desenvolvimento de produtos. O feedback do marketing e das vendas é vital para o processo, mas é crucial criar um ambiente onde as novas ideias e produtos possam emergir diretamente das equipas de engenheiros e produtos. Isto empodera as pessoas mais próximas à tecnologia e fornece inovação genuína, ao invés de apenas responder às demandas imediatas do mercado. No fim, é tudo sobre encontrar o equilíbrio certo entre a consciência do mercado e a criatividade interna.

Outro conselho, particularmente crucial para construir equipas dedicadas e resilientes, quer em startups como em Pequenas e Médias Empresas, é ser excecionalmente generoso em partilhar valor com os empregados. Isto não tem de significar equidade direta para todos, desde o primeiro dia, mas dar um forte sentido de parceria através da distribuição de benefícios e bónus ligados ao sucesso da empresa.

Quando os empregados sentem o seu valor no sucesso da empresa, a sua dedicação e seu compromisso aumentam, particularmente quando enfrentamos desafios e quando precisamos desse pequeno esforço extra. Por fim, criar uma cultura que valorize a inovação interna e, geralmente, recompense os empregados pelos seus contributos é fundamental para construir um negócio sustentável e de sucesso. 

PME Mag. – Que características pessoais e profissionais conseguiu ver nos portugueses?
R. J. M. – Bem, eu não consegui sair e conviver assim tanto e não quero generalizar, mas devo dizer que observei muitas pessoas trabalhadoras e felizes.

Conheci algumas pessoas com negócios audaciosos e inovadores, passei por uma excelente organização de incubadoras, vi algumas pessoas deitadas no chão, de olhos fechados, a desfrutar do sol e de uma bebida. Vi pessoas muito entusiasmadas com o seu trabalho e os seus estudos. Aprendi um pouco sobre a história marítima de Portugal. As fortes ligações familiares que os unem e o sentimento de comunidade. Eu conheci muitas pessoas queriam que eu gostasse da minha visita a Portugal e que me encheram de presentes. Fui profundamente tocado pelo calor e generosidade do povo português.


PME Mag. – E os locais? O que mais gostou de fazer em Portugal?
R. J. M. – Tudo que eu experimentei, eu adorei. A comida e a bebida eram maravilhosas, principalmente uns pastéis que recebemos de uma pastelaria maravilhosa, Doces do Marquês, especialmente os pastéis de nata.

Fizemos algumas visitas, incluindo uma visita ao Forte de São Felipe e fomos recebidos com uma “feira de comida”, na casa dos nossos amigos Elio e Giselle. Também passámos grande parte do tempo a explorar sítios mais pequenos da cidade onde encontrámos pessoas locais e, acidentalmente, deixámos uma mulher no mercado do peixe muito infeliz [risos]. Foi uma uma experiência maravilhosa, principalmente as pessoas que conhecemos, alegres e gentis, com exceção para a mulher do mercado do peixe.

 

PME Mag. – Para terminar, se pudesse regressar 30 anos, o que faria de diferente? 
R. J. M. – Eu tenho que dizer que eu tive uma ótima vida. Eu não sei mesmo se eu mudaria alguma coisa. Se eu pudesse voltar 30 anos, sabendo o que eu sei hoje, tinha investido em tecnologia e faria “bazilhões de dinheiro” [risos].

 

 

A entrevista de Robert J. Mical foi feita na língua inglesa e posteriormente traduzida para português.

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