Sexta-feira, Agosto 7, 2026
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A liderança feminina no digital: porque Portugal precisa de mais mulheres a decidir o futuro da tecnologia

Por: Jessica Fontana, fundadora do Women Leaders Circle

 

Portugal afirma-se como um dos principais hubs tecnológicos da Europa. Atrai talento internacional, acolhe startups de impacto global, investe em inovação e é palco do maior evento tecnológico do mundo. Ainda assim, permanece uma questão estrutural que o país precisa de enfrentar com clareza estratégica: quem está, efetivamente, a decidir o futuro da tecnologia?

Os dados mais recentes do Women in Tech Survey 2025, lançado pelo Web Summit, revelam um cenário de contrastes. Há sinais claros de evolução, mas também indícios preocupantes de retrocesso. E para um país que ambiciona liderar na economia digital, ignorar estes sinais representa um risco real — não apenas social, mas económico e competitivo.


Confiança em alta, acesso ao poder em queda

Em 2025, mais de 81% das mulheres inquiridas afirmam sentir-se confiantes para assumir cargos de liderança, um crescimento significativo face ao ano anterior. A ambição existe. A preparação também.

No entanto, 60% das respondentes acreditam que o equilíbrio de género no setor tecnológico está a piorar, quando em 2024 a maioria ainda percecionava progresso. Este desfasamento revela um problema estrutural: o talento feminino está pronto, mas as portas da decisão continuam parcialmente fechadas.

Em Portugal, onde o setor tecnológico cresce rapidamente e se posiciona como motor económico, esta contradição exige uma resposta estratégica. Não basta atrair mulheres para a tecnologia, é essencial garantir que chegam aos níveis onde se decide, investe e lidera.


A meritocracia seletiva e o regresso de culturas excludentes

O estudo evidencia um padrão persistente: muitas mulheres sentem que precisam de sobre performar para serem levadas a sério, sabendo que os erros não são tolerados da mesma forma que nos seus pares masculinos. Esta pressão constante traduz-se num custo invisível para as organizações, afetando a retenção de talento, inovação e diversidade de pensamento.

Mais de 55% das participantes afirmam que o atual contexto geopolítico tem um impacto negativo na equidade de género no setor tecnológico. Apenas 29% acreditam que os governos estão a agir de forma eficaz. O recuo — muitas vezes silencioso, em políticas de diversidade, equidade e inclusão — tem permitido o ressurgimento de culturas organizacionais menos inclusivas, com impacto direto na progressão de carreira das mulheres.

Portugal não está isolado desta tendência global.


Inteligência artificial: vantagem competitiva ou risco amplificado?

A Inteligência Artificial tornou-se parte integrante do trabalho diário. Mais de 77% das mulheres utilizam IA para aumentar a eficiência, otimizar processos e ganhar tempo, um fator crítico num contexto onde a conciliação entre vida profissional e pessoal continua desigual.

Cerca de três quartos das respondentes acreditam que a IA pode contribuir para maior equidade de género. Ainda assim, permanece uma preocupação legítima: sem diversidade nos processos de desenvolvimento e decisão, a IA pode reforçar vieses existentes em vez de os corrigir.

A tecnologia não é neutra.

Reflete quem a desenha, quem a lidera e quem define as prioridades. Se Portugal pretende afirmar-se como líder na era da IA, precisa de garantir liderança diversa, ética e representativa desde a base.


O dilema estrutural entre carreira e família

Um dos dados mais reveladores do estudo é que 56,5% das mulheres sentem que ainda são forçadas a escolher entre carreira e família, um aumento significativo face a 2024. Este não é um problema individual, mas sistémico.

A ausência de políticas de flexibilidade eficazes, modelos de liderança inclusivos e percursos claros de regresso após pausas de carreira continua a afastar mulheres altamente qualificadas do setor tecnológico. Para um país que enfrenta desafios de produtividade e competitividade, esta perda de talento representa um custo elevado.


Liderança com visão estratégica: o caso da Women Leaders Circle

É neste contexto que iniciativas estruturadas ganham especial relevância. A Women Leaders Circle (WLC), ecossistema global desenvolvido em Portugal, afirmou-se em 2025 como Community Partner Oficial do Web Summit, assumindo um papel ativo na redefinição da liderança feminina em tecnologia, inovação e investimento.

À frente do projeto está Jessica Fontana, fundadora e CEO da Women Leaders Circle, uma líder que representa uma nova geração de decisores conscientes de que diversidade e inovação são motores estratégicos de crescimento. Com experiência em Big Tech e uma carreira construída entre liderança, estratégia digital e ecossistemas globais, Jessica transformou uma experiência individual num movimento internacional com impacto mensurável.

A Women Leaders Circle não se limita à sensibilização. Criou infraestruturas concretas de acesso à liderança, programas de mentoria internacional, academias de desenvolvimento e espaços de conexão estratégica que ligam mulheres a empresas, investidores e centros de decisão. O reconhecimento no Web Summit consolida a WLC como uma plataforma de referência na construção de liderança feminina orientada por propósito, impacto e resultados.

Num momento em que os dados indicam um retrocesso na percepção de progresso da igualdade de género na tecnologia, o trabalho desenvolvido pela Women Leaders Circle demonstra que liderança feminina, quando estruturada de forma estratégica, é uma vantagem competitiva para organizações e países.


Uma escolha estratégica para o futuro de Portugal

A liderança feminina no digital não é uma agenda paralela nem um tema simbólico. É uma questão de competitividade, sustentabilidade e visão de longo prazo.

Empresas com liderança diversa tomam melhores decisões.
Tecnologia criada por equipas diversas serve melhor a sociedade.
Países que investem em igualdade lideram a inovação global.

Portugal tem hoje uma oportunidade clara: afirmar-se não apenas como hub tecnológico, mas como referência europeia em liderança inclusiva e inovação responsável. O futuro da tecnologia está a ser decidido agora. A questão que se impõe é simples, quem está à mesa onde essas decisões são tomadas?

Garantir que mais mulheres fazem parte dessa mesa não é apenas justo. É estrategicamente inteligente.

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