Por: Ana Marisa Vieira
A entrada de Portugal no mapa global da cloud, da inteligência artificial e da computação de alto desempenho, com a construção do Sines Data Center, promete transformar profundamente o tecido empresarial português e, em particular, abrir novas oportunidades para as PME.
Com o arranque do projeto e a inauguração do edifício SIN01, as empresas passam a ter acesso, a partir de território nacional, a uma infraestrutura de classe mundial, preparada para IA, com baixa latência, custos energéticos mais competitivos e conformidade com a regulamentação europeia.
Para as pequenas e médias empresas, este salto tecnológico significa poder inovar mais depressa, testar e escalar produtos digitais sem depender de infraestrutura remota e beneficiar de plataformas de cloud e IA ao nível dos grandes grupos internacionais.
Em entrevista à PME Magazine, Robert Dunn, CEO da Start Campus, explica como o Sines Data Center está a criar uma nova cadeia de valor que integra diretamente as PME portuguesas e de que forma esta infraestrutura pode acelerar a modernização, produtividade e internacionalização das empresas de menor dimensão.
Destaques:
-
Portugal entra no mapa global da cloud e IA com o SIN01.
-
Campus poderá gerar até 26,2 mil milhões € para o PIB até 2030.
-
Já apoiou 1700 empregos anuais e mobiliza uma cadeia de valor nacional.
-
Infraestrutura preparada para IA com chips NVIDIA GB300.
PME Magazine (PME Mag.) – O edifício SIN01 marca a entrada de Portugal no mapa global de infraestruturas de cloud, IA e computação de alto desempenho. Que oportunidades concretas estão abertas para as empresas portuguesas em termos de inovação, competitividade e acesso a tecnologia avançada?
Robert Dunn (R. D) – O SIN01 representa o primeiro passo para colocar Portugal na linha da frente da infraestrutura global de IA e cloud. Na prática, significa que as capacidades de computação mais avançadas passam a estar disponíveis a partir de território nacional, sob regulamentação europeia e com acesso de baixa latência para as organizações portuguesas.

Para as empresas, isto traduz-se em três oportunidades muito claras:
Inovação e desenvolvimento de produto – Com plataformas de cloud e IA de nível hyperscale instaladas no SINES DC, empresas de todas as dimensões — grandes grupos, PME e startups — podem experimentar, prototipar e escalar soluções de IA, desde a IA generativa à analítica de dados e automação, sem depender de infraestrutura remota. Isto reduz barreiras técnicas, acelera ciclos de inovação e facilita a criação de novos produtos e serviços.
Competitividade e produtividade – O acesso a serviços de IA e cloud de alto desempenho, operados na União Europeia, permite modernizar processos essenciais em setores como indústria, logística, finanças, retalho, saúde ou administração pública. Com operações mais eficientes e maior capacidade digital, as empresas tornam-se mais produtivas e mais preparadas para competir nos mercados internacionais com ofertas tecnológicas mais avançadas.
Regulação, residência de dados e confiança – A existência de infraestrutura localizada em Portugal, dentro do quadro legal europeu e com padrões rigorosos de proteção de dados, oferece às organizações maior segurança e mais opções para manter dados e workloads no país. Isto é especialmente relevante para setores regulados, onde a residência de dados e a conformidade são requisitos críticos.
PME Mag. – A Start Campus refere que o projeto poderá mobilizar mais de 8,5 mil milhões de euros em investimento. Que tipos de empresas poderão integrar esta cadeia de valor e beneficiar direta ou indiretamente do campus?
R. D. – O valor de 8,5 mil milhões de euros reflete não apenas o investimento direto no SINES Data Campus, mas também toda a cadeia de valor que se desenvolve em torno desta infraestrutura. O projeto cria um ecossistema alargado que atravessa vários setores e integra empresas de todas as dimensões, desde multinacionais a PME e startups portuguesas.
Na fase de construção e instalação do campus, a engenharia e a construção têm um papel determinante, envolvendo grandes grupos do setor, empreiteiros regionais e empresas especializadas em engenharia civil, mecânica, elétrica e estrutural. A partir daqui, a cadeia expande-se para fornecedores de tecnologia e indústria, incluindo fabricantes de equipamentos elétricos, sistemas de energia de reserva, soluções de arrefecimento, módulos pré-fabricados, racks, cablagem e sistemas de segurança e proteção contra incêndios.
Ao mesmo tempo, o projeto mobiliza intensamente o setor da energia e das utilities, desde produtores de energias renováveis a operadores de rede, empresas de armazenamento, gestão da procura e soluções de otimização elétrica. A escala do campus gera novas necessidades de inovação e integração energética.
No domínio digital, o SINES Data Campus interliga-se com um vasto ecossistema de conectividade e tecnologia, que inclui operadores de telecomunicações, fornecedores de fibra submarina e terrestre, internet exchanges, plataformas de cloud e IA, empresas de cibersegurança, desenvolvimento de software, serviços geridos e integradores de sistemas. Estes atores beneficiam diretamente do campus e, simultaneamente, reforçam a sua atratividade internacional.
A este núcleo tecnológico junta-se uma extensa rede de PME e prestadores de serviços locais, essenciais ao funcionamento diário do campus: logística, transportes, catering, gestão de instalações, limpeza, segurança, alojamento, formação e serviços profissionais como jurídicos, financeiros e de consultoria. O impacto económico propaga-se, assim, por múltiplas atividades regionais e nacionais.
Por fim, as instituições de ensino e investigação têm também um papel estratégico. Universidades, politécnicos e centros de I&D colaboram na formação de talento, no desenvolvimento de competências especializadas e em projetos de inovação alinhados com as necessidades do campus.
No conjunto, o SINES Data Campus não é um projeto limitado a um pequeno grupo de grandes empresas. Pelo contrário, mobiliza uma cadeia de valor ampla, diversificada e profundamente interligada, onde PME, empresas de média dimensão e startups portuguesas podem assumir um papel central – tanto a nível nacional como em parcerias internacionais impulsionadas pela projeção global do campus.
PME Mag. – O SINES Data Campus já atraiu players internacionais para Portugal. Que empresas ou setores estão atualmente instalados, ou em processo de instalação, e que tipo de infraestrutura tecnológica estão a desenvolver?
R. D. – O nosso primeiro edifício, o SIN01, está totalmente ocupado. Isto inclui uma grande implementação da Nscale em apoio à Microsoft, que irá ajudar a disponibilizar capacidades de IA de nova geração em toda a União Europeia — incluindo os mais recentes microchips NVIDIA GB300. Em paralelo, estamos em negociações avançadas com outros fornecedores internacionais de cloud, IA e infraestrutura digital.
Em termos de setores, o SINES DC foi concebido para acolher:
• Provedores de cloud hyperscale, que oferecem serviços de cloud de uso geral para empresas, PME e setor público.
• Plataformas de IA e computação de alto desempenho (HPC), focadas em clusters de GPU em larga escala para treinar e executar modelos avançados de IA.
• Plataformas digitais e fornecedores de conteúdos que necessitam de conectividade de baixa latência e elevada largura de banda para mercados europeus e transatlânticos.
Do ponto de vista tecnológico, a infraestrutura que está a ser desenvolvida no SINES DC é, desde a origem, preparada para IA. Isto inclui:
• Racks de alta densidade e soluções avançadas de arrefecimento líquido, capazes de suportar processadores de IA de nova geração.
• Arquitetura elétrica e de energia robusta, adaptada a densidades de potência muito elevadas.
• Integração direta com rotas de conectividade submarina e terrestre, assegurando acesso de baixa latência a redes globais.
A combinação destes elementos é o que torna o SINES DC particularmente atrativo para operadores internacionais que procuram infraestrutura em larga escala, sustentável e preparada para o futuro na Europa.
PME Mag. – A criação de talento e o emprego qualificado são pilares centrais do projeto. Quantos postos de trabalho foram criados até agora com a construção e operação do SIN01, e quais são as projeções para os próximos anos à medida que os restantes edifícios entram em operação?
R. D. – O SIN01 já criou um número significativo de empregos nas áreas de construção, engenharia e operações.
Na Start Campus, constituímos uma equipa de cerca de 70 colaboradores a tempo inteiro, maioritariamente em funções altamente qualificadas que abrangem engenharia, operações, sustentabilidade, conectividade, áreas comerciais e funções corporativas.
Através dos nossos parceiros de construção e da cadeia de fornecimento, a construção e a fase de comissionamento do SIN01 mobilizaram milhares de trabalhadores ao longo de todo o ciclo do projeto, desde a conceção e preparação do terreno até à construção, instalação e testes.
Analisando o impacto mais alargado, um estudo independente da Copenhagen Economics estima que, até 2024, o investimento no campus já contribuiu com mais de 300 milhões de euros para o PIB de Portugal e apoiou cerca de 1700 empregos por ano na economia.
À medida que os restantes edifícios do SINES 1.2GW Data Campus entram em operação e o ecossistema envolvente amadurece, espera-se que o impacto cresça de forma significativa. Segundo o mesmo estudo, e sob as condições adequadas de políticas públicas e investimento, o campus e as atividades associadas poderão:
• Contribuir com um total de até 26,2 mil milhões de euros para o PIB de Portugal até 2030 (cerca de 4 mil milhões de euros por ano), e
• Apoiar perto de 50.000 empregos anuais até 2030, incluindo emprego direto, indireto e induzido.
Estes empregos abrangerão desde funções técnicas altamente especializadas — engenharia, TI, operações, I&D — até um vasto conjunto de posições nas áreas da construção, serviços, logística, turismo, educação e serviços profissionais.
PME Mag. – O campus destaca-se pelo uso de energia renovável, conectividade submarina e soluções preparadas para IA. De que forma pode esta combinação funcionar como uma vantagem competitiva para as empresas portuguesas – seja através da redução de custos energéticos, da diminuição da latência operacional ou da adoção de tecnologias de IA?
R. D. – A vantagem competitiva para as empresas portuguesas resulta da combinação única de custo, desempenho e sustentabilidade que o SINES Data Campus oferece diretamente a partir de Portugal.
“(…) o campus foi concebido para suportar computação de alta densidade com menor intensidade energética”.
Por um lado, destaca-se uma clara vantagem energética e de sustentabilidade. Integrado num dos sistemas elétricos mais verdes da Europa e utilizando arrefecimento altamente eficiente com água do mar – sem consumo de água doce – o campus foi concebido para suportar computação de alta densidade com menor intensidade energética. Ao longo do tempo, isto traduz-se em custos de infraestrutura digital mais competitivos e previsíveis, ajudando também as empresas a reduzir a sua pegada carbónica.
Em paralelo, o campus proporciona uma forte vantagem de conectividade e latência. A ligação direta aos principais cabos submarinos e às rotas de fibra europeias garante comunicações de baixa latência tanto para mercados globais como para utilizadores finais em Portugal. Assim, as empresas portuguesas podem desenvolver e alojar serviços digitais num ponto que é simultaneamente local e globalmente interligado, melhorando a experiência dos utilizadores e facilitando o acesso a clientes internacionais.
A terceira dimensão é a vantagem tecnológica na área da IA e da computação avançada. Concebido de raiz para workloads de IA e HPC, o campus permite que as empresas nacionais – através dos operadores instalados – tenham acesso às capacidades de computação mais avançadas do mercado. Isto acelera a adoção de IA em setores como a indústria, os serviços financeiros, a saúde, a logística, o retalho ou a administração pública, garantindo ao mesmo tempo que dados e workloads permanecem dentro da União Europeia.
Na prática, esta combinação significa que uma empresa portuguesa pode conceber, implementar e escalar serviços baseados em IA a partir de Portugal, utilizando infraestrutura de classe mundial, com fortes credenciais de sustentabilidade e alcance global – fatores que reforçam significativamente a sua competitividade numa economia cada vez mais digital.





