Terça-feira, Agosto 18, 2026
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Acordo UE–Mercosul: oportunidade ou risco para as PME portuguesas?

Por: Ana Marisa Vieira


A aprovação provisória, no passado dia 9 de janeiro, do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul volta a colocar o tema da internacionalização no centro do debate económico.

Para as pequenas e médias empresas portuguesas, que continuam fortemente dependentes do mercado europeu, em particular de Espanha, o tratado pode representar uma oportunidade histórica de diversificação, mas também levanta receios quanto à capacidade das PME competirem num mercado de grande escala e elevada pressão concorrencial.

O acordo, que cria uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo, promete reduzir ou eliminar até 90% das tarifas entre os dois blocos. No entanto, a forma como estes benefícios chegam às PME está longe de reunir consenso entre associações empresariais, analistas políticos e representantes do tecido económico nacional.


PME portuguesas continuam dependentes da Europa, mas piscam o olho à América do Sul

A exportação é hoje um pilar central para a competitividade das empresas portuguesas, permitindo reduzir a dependência do consumo interno e ganhar escala. Ainda assim, os dados mostram uma forte concentração geográfica.

De acordo com o 5.º Barómetro PME Magazine, 43% das empresas inquiridas em 2025 afirmam querer começar a exportar, um valor em linha com 2024 (44%) e claramente acima de 2023 (37%). Atualmente, apenas 31% das PME exportam, e dessas, 92% têm a Europa como principal destino.

Dentro do espaço europeu, Espanha destaca-se como o mercado número um, sendo apontada por 60,1% das empresas exportadoras, seguida de França (35,3%), Alemanha (31,4%) e Reino Unido (25,5%). Fora da Europa, surgem os Estados Unidos (25,5%) e Angola (19,6%).

Ainda assim, há um dado que merece atenção: a América do Sul está a ganhar relevância. Em 2025, 16% das PME exportadoras indicam este mercado como destino, mais do dobro dos 7% registados em 2023. Um crescimento que surge num contexto de maior incerteza nas relações comerciais com os Estados Unidos e de expectativa em torno do acordo UE–Mercosul.


CIP: “Uma vantagem competitiva clara para as empresas portuguesas”

Para a CIP – Confederação Empresarial de Portugal, o acordo é inequívoco do ponto de vista estratégico. Rafael Alves Rocha, diretor-geral da CIP, defende que o tratado cria “um quadro previsível de acesso a mercados”, reduz custos de entrada e abre portas a um espaço económico historicamente protegido.

Na sua análise para a PME Magazine, as PME portuguesas estão bem posicionadas para beneficiar, graças à sua experiência exportadora e aos laços culturais com os países do Mercosul.

No curto e médio prazo, destaca oportunidades claras no agroalimentar premium, com especial enfoque no azeite, vinho, frutas e produtos tradicionais diferenciados, protegidos por 36 Indicações Geográficas portuguesas.

No setor industrial, Rafael Alves Rocha aponta potencial na metalomecânica, metalurgia e têxteis de nicho, sobretudo técnicos, sustentáveis e circulares. Contudo, alerta que o tempo será decisivo.

Assim, as empresas que avançarem mais rapidamente poderão conquistar um first mover advantage, consolidando marcas, distribuidores e posições de mercado antes da concorrência.

Para que este potencial se traduza em crescimento efetivo das PME, o diretor-geral da Confederação Empresarial de Portugal defende uma estratégia nacional pragmática, baseada em formação setorial, guias práticos, apoio técnico à conformidade regulamentar, missões empresariais e soluções colaborativas que reduzam custos e riscos de entrada.


LLYC: execução, adaptação e estratégia serão a chave

Uma leitura mais analítica é apresentada por Nuno Magalhães, diretor de Contexto Político da Llorente & Cuenca à nossa publicação. Segundo o especialista e antigo deputado pelo CDS-PP, os setores com maior potencial incluem maquinaria, tecnologia, automóvel, farmacêutico e serviços, áreas onde a União Europeia já possui vantagens comparativas consolidadas.

Ainda assim, sublinha o jurista que o impacto do acordo não será homogéneo. Setores como o vinho e o azeite poderão beneficiar de forma significativa, desde que consigam posicionar-se pela qualidade e não apenas pelo preço. “A assinatura do acordo é apenas o primeiro passo”, alerta.

Para as PME, será essencial acompanhar de perto a execução do tratado, monitorizando o contexto político e regulatório, e investir na adaptação operacional, sobretudo em matérias ambientais, sanitárias e de rastreabilidade.

A proximidade linguística e cultural com países como o Brasil é, segundo Nuno Magalhães, uma vantagem competitiva que Portugal deve saber explorar face a concorrentes do centro e norte da Europa.


CPPME: benefícios concentrados e riscos para os pequenos produtores

A visão mais crítica surge da Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas (CPPME). Duarte Lobo, vice-presidente da direção, considera que o acordo foi desenhado sobretudo para servir os interesses das grandes empresas, deixando as micro e pequenas empresas numa posição mais frágil.

Embora reconheça oportunidades pontuais em nichos de maior valor acrescentado, como alguns segmentos da indústria transformadora, serviços tecnológicos ou bens diferenciados, alerta que, na prática, muitas PME exportam através de intermediários, o que reduz significativamente o impacto direto da redução de tarifas.

No setor agrícola e agroalimentar, os riscos são particularmente elevados, alerta. A concorrência de produtos do Mercosul, produzidos em grande escala e com custos inferiores, pode pressionar os rendimentos dos pequenos produtores, acelerar o abandono da atividade e aumentar a dependência alimentar do país.

Para a CPPME, sem uma forte intervenção pública, através de informação acessível, capacitação técnica, redução dos custos de contexto e políticas de valorização da produção nacional, os benefícios do acordo tenderão a concentrar-se numa minoria.


Brasil: um mercado-chave para mitigar riscos globais

Na análise dos dados do 5º Barómetro PME Magazine, em maio de 2025, João Duque, presidente do ISEG e economista convidado já chamada a atenção para o Brasil.

Para o especialista, o crescimento das exportações para a América do Sul surge num momento particularmente relevante, marcado pela incerteza nas relações comerciais com os Estados Unidos.

“O Mercosul tem um potencial de crescimento elevado”, afirmou João Duque, classificando o Brasil como um mercado estratégico, não só pela dimensão, mas também pela língua comum e pela forte comunidade brasileira em Portugal, que pode funcionar como ponte para a região.

“Tal como os britânicos usaram durante décadas as suas comunidades da Commonwealth, Portugal pode agora fazer o mesmo com o Brasil”, defendia o economista.

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