InícioEmpresasAMALIA entra em nova fase com investimento adicional de 1,8 M€

AMALIA entra em nova fase com investimento adicional de 1,8 M€

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

A segunda fase do AMALIA, o modelo de inteligência artificial desenvolvido pelo Governo, foi aprovada em Conselho de Ministros, com um investimento de 1,8 milhões de euros financiado pelo PRR. A nova etapa prevê dotar o sistema de capacidades para trabalhar com texto, voz e imagem e aproximá-lo dos serviços públicos.

A evolução do modelo acontece numa altura em que começam também a surgir aplicações empresariais construídas em torno da tecnologia e do conhecimento desenvolvido para inteligência artificial em português de Portugal. É o caso da Caravela, desenvolvida pela Podsqueeze, que utiliza o AMALIA como uma das componentes da sua infraestrutura de IA.

“Limitações de raciocínio e robustez”

Para João Amaro, cofundador da Podsqueeze, o interesse pelo AMALIA surgiu desde o lançamento do modelo, sobretudo pela possibilidade de trabalhar com um sistema treinado especificamente para português de Portugal. “Gostámos da consistência linguística, mas percebemos rapidamente que, para muitas tarefas profissionais, o modelo ainda tinha limitações de raciocínio e robustez”, explica.

Foi a partir dessa experiência que nasceu a Caravela. Em vez de depender exclusivamente do AMALIA, a solução combina diferentes modelos de inteligência artificial, selecionados de acordo com a tarefa, com ferramentas e fontes de informação nacionais. “O objetivo é dar às empresas inteligência de topo, adaptada a Portugal, com infraestrutura europeia e sem retenção dos dados de inferência”, afirma João Amaro.

Uma das características da Caravela é a integração de ferramentas que permitem consultar informação portuguesa diretamente. Segundo o responsável, a plataforma conta atualmente com “cerca de 40 integrações com serviços, fontes e ferramentas, incluindo legislação e diferentes fontes públicas nacionais”.

Entre os exemplos está o Portal BASE, utilizado para informação sobre contratação pública. Em vez de depender apenas do conhecimento adquirido durante o treino de um modelo, a IA pode consultar a fonte diretamente quando recebe uma questão.

“Se sabemos qual é a fonte certa, preferimos que a IA vá diretamente a essa fonte em vez de esperar que encontre uma página adequada numa pesquisa geral”, explica João Amaro.

A lógica pode também ser aplicada à informação interna das empresas. A Caravela permite combinar fontes públicas nacionais com documentos e dados privados, possibilitando que uma mesma tarefa utilize, por exemplo, informação interna de uma empresa e legislação ou dados públicos consultados em tempo real.

 

AMALIA é um modelo “bastante experimental”

Para o cofundador da Podsqueeze, a nova fase do projeto pode reforçar a criação de um ecossistema nacional de aplicações de inteligência artificial. O AMALIA foi desenvolvido em código aberto, permitindo que empresas, universidades e entidades públicas desenvolvam aplicações a partir do modelo.

“Vejo o AMALIA atual sobretudo como o início de uma infraestrutura portuguesa de IA, e não necessariamente como um produto acabado”, considera.

Apesar de reconhecer que o modelo ainda pode ser “bastante experimental para algumas utilizações profissionais mais exigentes”, João Amaro considera que o projeto deixa uma base importante. “Acho que vamos começar a ver cada vez mais aplicações muito especializadas: assistentes para serviços públicos, contratação pública, legislação, educação, cultura, ferramentas internas para empresas e muitos outros casos onde o contexto português é tão importante como a inteligência do próprio modelo”, explica.

É nesse espaço que a Podsqueeze pretende posicionar-se. “Não vemos necessariamente o Caravela como concorrente do AMALIA”, sublinha o responsável. A estratégia passa antes por combinar modelos de IA, ferramentas nacionais, dados empresariais e infraestrutura europeia.

“Vemos o Caravela como uma tentativa de pegar nessa ideia de soberania, contexto português e integração com fontes nacionais e levá-la hoje a casos de utilização empresarial que exigem mais capacidade e robustez”, conclui.

A segunda fase do AMALIA prevê precisamente alargar as capacidades do modelo e aproximá-lo de utilizações concretas, incluindo no atendimento dos serviços públicos. O Governo pretende que o sistema passe a conseguir trabalhar com texto, voz e imagem, estando também prevista a utilização de novos conjuntos de dados, incluindo arquivos de instituições culturais e, mediante acordos, conteúdos de órgãos de comunicação social.

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