Segunda-feira, Agosto 17, 2026
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“As fábricas são feitas de pessoas. A tecnologia existe para as tornar mais eficazes” – Brainr 

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira


A transformação digital tem vindo a assumir um papel cada vez mais estratégico na indústria alimentar, impulsionada pela necessidade de aumentar a eficiência operacional, garantir maior rastreabilidade e responder a exigências crescentes ao nível da qualidade, da segurança alimentar e da sustentabilidade. No entanto, muitas empresas continuam a enfrentar dificuldades devido à fragmentação dos sistemas de informação e à falta de integração entre as diferentes áreas da operação. 

Foi precisamente desta realidade que nasceu a Brainr, tendo sido criada por uma equipa com décadas de experiência no setor alimentar. A empresa surgiu da identificação de um problema comum às fábricas: a coexistência de dezenas de sistemas de gestão empresarial (ERP) e centenas de ferramentas que dificultavam a gestão da produção e o acesso à informação em tempo real. 

A tecnológica portuguesa desenvolve uma plataforma que centraliza a gestão da operação industrial, integrando num único sistema processos que tradicionalmente se encontram distribuídos por diferentes aplicações. Com recurso à digitalização, à análise de dados em tempo real e à inteligência artificial, a Brainr procura simplificar a gestão das fábricas, apoiar a tomada de decisão e aumentar a eficiência operacional. 

Em entrevista à PME Magazine, Paulo Gaspar, CEO da Brainr, explica como a experiência no setor alimentar deu origem à empresa, analisa os principais desafios da digitalização das fábricas, reflete sobre o impacto da inteligência artificial na indústria e partilha a sua visão para o futuro da gestão industrial. 

 

PME Magazine (PME Mag.) – A Brainr nasceu depois de anos de experiência direta na indústria alimentar. Que problema identificaram no terreno que vos convenceu de que era necessário criar uma nova abordagem para a gestão das fábricas?  

Paulo Gaspar, CEO da Brainr – A Brainr nasceu de um problema muito simples: o software que geria o negócio não conseguia acompanhar a realidade da fábrica.  

Durante quase uma década como CIO do Grupo Lusiaves, vivi de perto o desafio de fazer crescer uma operação industrial cada vez mais complexa utilizando sistemas que nunca tinham sido concebidos para gerir a execução da produção. À medida que aumentavam as linhas, os produtos, os requisitos de qualidade e de rastreabilidade, tornava-se evidente que o ERP deixava de conseguir responder às necessidades do chão de fábrica.  

A resposta da indústria foi, durante muitos anos, acrescentar mais aplicações: um sistema para a produção, outro para o armazém, outro para a qualidade, outro para a rastreabilidade. O resultado foi uma enorme fragmentação tecnológica.  

Foi precisamente para resolver esse problema que nasceu a Brainr. Acreditamos que as fábricas precisam de uma plataforma única para gerir toda a operação industrial em tempo real, desde a receção da matéria-prima até à expedição do produto final. 

“NENHUM PROJETO COMEÇA NA SALA DE REUNIÕES. COMEÇA NA FÁBRICA. AS NOSSAS EQUIPAS ACOMPANHAM A OPERAÇÃO NO TERRERO (…).”

 

PME Mag. – Para quem não conhece a Brainr, como funciona, na prática, um projeto de implementação da vossa plataforma? As vossas equipas deslocam-se às fábricas para analisar os processos e identificar oportunidades de melhoria? 

Sempre. Nenhum projeto começa numa sala de reuniões. Começa na fábrica. As nossas equipas acompanham a operação no terreno, observam como trabalham os operadores, como circulam os produtos, onde surgem perdas de tempo e onde existem oportunidades de melhoria. 

Depois aplicamos a nossa metodologia proprietária, a Activ8, que estrutura todas as fases do projeto: levantamento dos processos, desenho da solução, implementação, formação das equipas, entrada em produção e acompanhamento contínuo. 

Mais do que instalar software, ajudamos as empresas a transformar a forma como gerem a fábrica. 

Operação da BRAINR em fábricas do setor alimentar (Foto Divulgação)

 

PME Mag. – Que tipo de empresas são atualmente os principais clientes da Brainr? Que resultados concretos têm alcançado após a implementação da plataforma, ao nível da produtividade, eficiência ou redução de custos? 

Os nossos principais clientes são empresas da indústria alimentar com operações produtivas complexas, onde a gestão da produção, da qualidade, da rastreabilidade e da logística têm impacto direto na rentabilidade. 

Os resultados falam por si. Na implementação com o Grupo Lusiaves, a introdução de códigos GS1 DataMatrix através de BRAINR reduziu as operações de leitura no picking de cerca de 25 milhões para oito milhões por ano, permitindo poupar mais de 5.000 horas anuais de trabalho de armazém. 

“NO FINAL, O QUE OS NOSSOS CLIENTES VALORIZAM NÃO É O SOFTWARE. É PRODUZIR MAIS, DESPERDIÇAR MENOS E DECIDIR MAIS DEPRESSA.”

Na Avisabor, a plataforma acompanhou o crescimento da unidade de 40 mil para 190 mil aves por dia, permitindo aumentar quase cinco vezes a capacidade produtiva mantendo o controlo sobre toda a operação. 

Na Comave, a implementação da Brainr contribuiu para reduzir em mais de 90% os erros de expedição, acelerar significativamente os processos de qualidade e rastreabilidade e aumentar a eficiência operacional numa fábrica que gere centenas de referências diariamente. 

No final, o que os nossos clientes valorizam não é o software. É produzir mais, desperdiçar menos e decidir mais depressa. 

 

PME Mag. – Quais são as principais barreiras que encontram quando iniciam projetos de digitalização e como é que ajudam as empresas a ultrapassá-las?  

A maior barreira raramente é tecnológica. É organizacional.  

Muitas empresas cresceram apoiadas em processos manuais, folhas de cálculo e sistemas que foram sendo adicionados ao longo dos anos. A informação existe, mas encontra-se dispersa, duplicada ou desatualizada.  

A digitalização não começa pela tecnologia; começa por compreender como a fábrica trabalha e por simplificar os processos antes de os digitalizar.  

Na Brainr procuramos que a tecnologia se adapte à realidade operacional das fábricas e não o contrário. Quanto mais simples for a experiência para quem está na produção, maior será a adoção e, consequentemente, o retorno do investimento. 

 

Operação da BRAINR em fábricas do setor alimentar (Foto Divulgação)

 

PME Mag. – A BRAINR recorre à utilização de inteligência artificial? Quais são os ganhos mais visíveis para os clientes?  

Paulo Gaspar, CEO da BRAINR Ainda estamos numa fase inicial da adoção da Inteligência Artificial na indústria. Existe muito entusiasmo, mas o verdadeiro impacto dependerá menos dos algoritmos e mais da qualidade da informação disponível.  

A nossa visão é que a IA não vem substituir o software industrial. Vem transformar a forma como interagimos com ele.  

À medida que as fábricas digitalizam a sua operação e passam a dispor de informação fiável em tempo real, será possível recorrer à IA para analisar automaticamente grandes volumes de dados, identificar desvios, antecipar problemas e apoiar a tomada de decisão dos responsáveis pela operação.  

Mais do que automatizar decisões, acreditamos que a IA será um acelerador da capacidade humana, permitindo que as equipas dediquem menos tempo à procura de informação e mais tempo à resolução dos problemas. 

 

PME Mag. – A vossa visão passa por colocar as pessoas no centro da tecnologia, em vez de substituir o trabalho humano. De que forma? 

O nosso software foi concebido para quem trabalha na fábrica. Os operadores deixam de preencher papel, procurar informação ou esperar instruções. Recebem automaticamente no dispositivo móvel as tarefas que têm de executar, registam a produção, realizam controlos de qualidade e comunicam qualquer ocorrência no momento em que acontece. 

Ao mesmo tempo, supervisores e diretores de produção deixam de esperar pelo relatório do dia seguinte para perceber o que aconteceu. Passam a acompanhar a fábrica em tempo real e conseguem atuar imediatamente quando surge um problema. 

Isto significa menos tempo perdido, menos erros e uma operação muito mais fluida. 

“A FORMA MAIS EFICAZ DE TORNAR UMA FÁBRICA MAIS SUSTENTÁVEL É ELIMINAR O DESPERDÍCIO.”

 

PME Mag. – A sustentabilidade é hoje uma prioridade para a indústria alimentar. De que forma a Brainr contribui para reduzir desperdícios, otimizar recursos ou melhorar a eficiência energética das fábricas? 

A forma mais eficaz de tornar uma fábrica mais sustentável é eliminar desperdício. 

Quando uma empresa consegue produzir exatamente o que precisa, evitar erros, reduzir perdas de matéria-prima e reagir rapidamente aos desvios da produção, está automaticamente a consumir menos recursos. 

Ao disponibilizar informação em tempo real sobre produção, rendimento, desperdício, stocks e rastreabilidade, ajudamos os nossos clientes a identificar oportunidades de melhoria que muitas vezes passavam despercebidas. 

Em muitas situações, a sustentabilidade não exige novos investimentos em equipamentos. Exige simplesmente uma melhor gestão da operação. 

 

Ricardo Granada, co-fundador e diretor técnico, Paulo Gaspar, CEO e co-fundador e Rui Batista, co-fundador e diretor de operações da BRAINR (Foto Divulgação)

 

PME Mag. – Em que etapa se encontra a empresa em termos de internacionalização? O mercado internacional faz parte das ambições futuras da empresa? 

A internacionalização faz parte da estratégia da Brainr desde o primeiro dia. 

Depois de consolidarmos a nossa presença em alguns dos maiores grupos alimentares portugueses, estamos a acelerar a expansão internacional, particularmente para mercados europeus onde os desafios são exatamente os mesmos: aumentar a produtividade, reforçar a rastreabilidade e responder à crescente complexidade operacional. 

Hoje já gerimos mais de 1.6 mil milhões de euros de produção alimentar por ano através da nossa plataforma e acreditamos que a tecnologia desenvolvida em Portugal tem todas as condições para competir ao mais alto nível. 

O nosso objetivo é claro: tornar a Brainr uma referência internacional em software para a gestão da execução industrial na indústria alimentar. 

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