Quarta-feira, Agosto 12, 2026
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“As piscinas de ondas vêm complementar o oceano” – Surfers Cove

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira


Com abertura prevista para o final de 2026, a Surfers Cove está a ser construída em Óbidos e pretende criar um novo espaço dedicado ao surf, combinando uma piscina de ondas artificiais com alojamento, restauração, desporto e outras valências. O projeto procura também responder à sazonalidade do turismo e atrair diferentes públicos ao longo do ano, desde praticantes de surf a atletas de alta competição e turistas.

A localização, próxima de destinos como Peniche e Nazaré, foi escolhida como parte da estratégia do projeto, que tem como objetivo captar tanto o mercado nacional como o internacional. A Surfers Cove deverá contar com mais de 25 tipos de ondas e tem entre os seus investidores o surfista Kanoa Igarashi.

O investimento total previsto para o projeto é de 30 milhões de euros. Até ao momento, cerca de 65% desse valor já foi comprometido, refletindo um avanço significativo da obra.

Em entrevista à PME Magazine, Manuel Vasconcelos, Co-Founder & CEO da Surfers Cove, fala sobre a origem do projeto, o modelo de negócio, a escolha de Óbidos e as expectativas para a abertura da infraestrutura.

PME Magazine (PME Mag.) – A Surfers Cove será o primeiro surf park com piscina de ondas artificiais em Portugal. De onde surgiu a ideia e o que vos levou a apostar num conceito ainda pouco explorado no país?

Manuel Vasconcelos, CEO da Surfers Cove – Antes de mais, gosto sempre de esclarecer que a Surfers Cove não é um surf park. É uma Surf Village, um ecossistema integrado que alia surf, lifestyle, desporto, trabalho e lazer, e onde a experiência vai muito além da água.

A ideia nasce da convicção de que Portugal, sendo um dos maiores destinos mundiais de surf, ainda não tinha dado o passo seguinte na evolução da modalidade. Temos algumas das melhores ondas do mundo, recebemos etapas do Championship Tour da WSL e milhares de turistas viajam todos os anos até cá para surfar. Mesmo assim, faltava-nos um destino que permitisse viver o surf de forma consistente, previsível e durante todo o ano, independente da maré, do vento ou da época.

É aqui que surge a  Surfers Cove que tem por base um propósito maior o de que o surf é muito mais do que ondas. É cultura, é partilha, é evolução, é respeito pelo oceano e pelas pessoas que moldaram este caminho. A tecnologia Wavegarden deu-nos a ferramenta técnica que faltava e que torna possível criar uma experiência de altíssima qualidade e que permite posicionar Portugal na linha da frente de uma indústria em crescimento acelerado a nível global.

Além de tudo isto, tivemos também a sorte de contar, desde o início, com o apoio e o know-how dos nossos acionistas, que trouxeram valor real ao projeto e ajudaram a concretizá-lo em todas as suas fases. Acreditámos sempre que havia espaço em Portugal para um projeto desta escala.

 

“A LOCALIZAÇÃO FOI UMA DECISÃO ESTRATÉGICA, NÃO UMA COINCIDÊNCIA.”

 

PME Mag. – O projeto está a ser desenvolvido em Óbidos, numa região próxima de alguns dos principais destinos de surf do país. Como foi tomada a decisão de instalar a Surfers Cove nesta localização e que oportunidades identificaram nesta região?

A localização foi uma decisão estratégica, não uma coincidência.

Precisávamos de estar próximos de Lisboa, estamos a cerca de uma hora do Aeroporto Internacional de Lisboa, para captar o mercado nacional e internacional, mas também inseridos numa região com identidade própria, já ligada ao turismo e ao surf. Óbidos reúne um conjunto de condições raro de encontrar em simultâneo: proximidade a Peniche, Nazaré e Ericeira, boas acessibilidades, uma marca turística consolidada, património histórico e capacidade de crescimento sustentável.

A isto junta-se a própria tecnologia: a Surfers Cove vai oferecer mais de 25 tipos de onda diferentes, o que nos permite servir, na mesma infraestrutura, desde o iniciante até ao atleta de alta competição.

Mais do que beneficiar da região, o nosso objetivo é contribuir para a sua valorização. Acreditamos que a Surfers Cove vai aumentar a permanência média dos visitantes, gerar novas oportunidades para hotéis, restaurantes, comércio local e operadores turísticos, e ajudar a combater um dos maiores desafios do setor: a sazonalidade

 

Local em Óbidos onde será o Surfers Cove (Foto Divulgação)

PME Mag. – A Surfers Cove combina a piscina de ondas com alojamento, restauração e outras atividades de lazer e desporto. Como está desenhado o modelo de negócio e que papel terão estas diferentes áreas na atividade do projeto?

Desde o início, pensámos a Surfers Cove como uma Surf Village, ou seja um ecossistema, não uma infraestrutura isolada.

A piscina de ondas é o principal elemento diferenciador e o motor de atração, mas representa apenas uma parte da experiência. Um visitante pode vir surfar durante uma hora, passar um fim de semana em família, participar num evento corporativo de vários dias, trabalhar um dia a partir do nosso espaço de coworking, ou treinar ao mais alto nível – é o caso de Kanoa Igarashi, um dos nossos investidores e uma referência mundial do WSL Championship Tour que vai usar a Surfers Cove nos seus treinos.

 

“ESTA DIVERSIFICAÇÃO CRIA MÚLTIPLAS FONTES DE RECEITA, REDUZ O RISCO OPERACIONAL E AUMENTA DE FORMA SIGNIFICATIVA O VALOR GERADO POR CADA VISITANTE.”

 

À volta da piscina, construímos uma oferta pensada para diferentes públicos e diferentes momentos do dia: skate park bowl, campos de padel, beach tennis e pickleball, um espaço de coworking, e uma operação de restauração com dois bares. Juntamos a isto alojamento, uma academia de surf, loja de surf de referência, e uma programação contínua de experiências.

Esta diversificação cria múltiplas fontes de receita, reduz o risco operacional e aumenta de forma significativa o valor gerado por cada visitante. Mas, mais do que isso, é o que nos permite entregar a promessa central da Surf Village: surf, lifestyle, desporto, trabalho e lazer no mesmo lugar, com a mesma qualidade.

 

Surfista na piscina de ondas da Surfers Cove (Foto Divulgação)

PME Mag. – Sendo um projeto que pretende funcionar durante todo o ano, como estão a desenhar o modelo de negócio para reduzir a sazonalidade típica do turismo e garantir procura também nos meses de inverno?

O turismo costeiro depende muito do verão e das condições do mar e nós conseguimos oferecer uma experiência previsível em qualquer altura do ano. A isto junta-se uma vantagem que é muitas vezes esquecida, o nosso clima ameno em grande parte do ano. Ao contrário de outras operações de piscinas de ondas no mundo, que enfrentam verões muito quentes ou invernos rigorosos, a região de Óbidos permite-nos operar com conforto durante praticamente todo o ano.

Isso permite-nos trabalhar segmentos completamente diferentes: atletas de alta competição, escolas e universidades, surf camps internacionais, empresas e eventos corporativos, famílias, iniciantes e praticantes que querem simplesmente evoluir na sua técnica.

A prova de que esta região já atrai fluxos internacionais fora da época alta está nos próprios eventos que a rodeiam. A etapa do Championship Tour da WSL em Peniche reúne cerca de 120 mil espectadores em toda a janela de evento. Na Nazaré, o Tudor Nazaré Big Wave Challenge chega a reunir 25 mil espectadores num único dia. São dois eventos de referência mundial, ambos fora do pico do verão, que mostram que esta região já sabe atrair público e visibilidade internacional durante todo o ano e é exatamente essa dinâmica que a Surfers Cove vem reforçar e complementar.

Ao mesmo tempo, o alojamento, a restauração e as restantes atividades permitem construir programas completos de dois ou três dias o que torna a visita muito mais apelativa precisamente nos meses tradicionalmente considerados de época baixa. No fundo, queremos transformar um destino sazonal num destino de utilização permanente.

PME Mag. – A piscina de ondas artificiais é um conceito que tem vindo a crescer internacionalmente. Já existem outros projetos deste género em Portugal ou identificam espaço para o aparecimento de novos surf parks no país? Como poderá este tipo de infraestrutura contribuir para o desenvolvimento do turismo e do setor do surf em Portugal?

Estamos a assistir ao nascimento de uma nova indústria. Tal como aconteceu há décadas com os campos de golfe, ou mais recentemente com os centros de ski indoor, as piscinas de ondas vão passar a integrar a oferta turística de muitos países.

Existirá naturalmente espaço para mais um ou dois projetos no futuro. Dito isto, é preciso ser realista sobre a complexidade deste tipo de projeto. É um investimento desafiante, complexo e difícil de executar, o que naturalmente limita o número de iniciativas que conseguem avançar. Não é por acaso que, tipicamente, na Europa cada país tem, no máximo, uma infraestrutura deste género. Os únicos mercados com mais do que um projeto são a Austrália, EUA e o Brasil, que são realidades de escala muito diferentes das europeias, e por isso não são diretamente comparáveis.

Talvez Espanha seja um bom exemplo desta realidade, apesar de ser o país onde a própria Wavegarden nasceu, ainda não tem hoje nenhuma infraestrutura deste tipo em operação. Há um projeto em construção em Madrid, mas a Surfers Cove vai efetivamente abrir portas primeiro, vamos ser a primeira piscina de ondas da Wavegarden em operação na Zona Euro.

Reforço que o oceano continuará sempre insubstituível. As piscinas de ondas vêm complementar essa oferta, democratizando o acesso ao surf e criando oportunidades que antes simplesmente não existiam.

 

Surfista na piscina de ondas da Surfers Cove (Foto Divulgação)

PME Mag. – Com a abertura prevista para o final de 2026, quais são os principais objetivos da Surfers Cove para os primeiros meses de atividade? Existe também uma ambição de internacionalizar ou replicar o conceito noutros mercados?

Neste momento, o nosso foco está inteiramente na execução, mas também numa decisão que tomámos desde cedo: antes de abrir portas, era essencial construir uma comunidade. Por isso, muito antes da inauguração, já estamos a trabalhar com o nosso Surf Club, os Sócios Honorários, os nossos Embaixadores, ou seja, um conjunto de pessoas que vão viver a Surf Village desde o primeiro dia e ajudar a moldar a sua identidade.

Um projeto desta dimensão mede-se pela qualidade da experiência entregue aos primeiros visitantes. Queremos abrir com padrões operacionais elevados, proporcionar uma experiência memorável e afirmar rapidamente a Surfers Cove como referência europeia – a nossa visão é sermos o destino de surf de referência na Europa, onde experiência e autenticidade andam lado a lado, num ambiente seguro, inclusivo e memorável para famílias, surfistas e para uma comunidade unida em torno do surf e da cultura de praia.

Temos uma ambição grande, mas também muita disciplina na forma como a concretizamos. Se conseguirmos construir uma Surf Village sólida, financeiramente sustentável e reconhecida internacionalmente pela qualidade da operação, as oportunidades para novos projetos surgirão naturalmente.

Hoje, toda a nossa energia está concentrada em fazer da Surfers Cove um caso de sucesso em Portugal, um projeto que orgulhe o país e demonstre que Portugal também sabe liderar na criação de novos destinos turísticos, e não apenas na promoção dos que já existem.

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