Por: Bruno Contreiras Mateus
Diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes (IPN), em Coimbra, e diretor da ESA BIC Centro, uma incubadora ligada ao setor espacial, Jorge Pimenta defende que o futuro do empreendedorismo será inevitavelmente mais tecnológico e científico, mas também cada vez mais condicionado por escolhas políticas em áreas como energia, defesa e saúde.
Em entrevista, considera que a Europa “não inova menos do que outras regiões”, embora enfrente desafios de escala e adoção, e rejeita a ideia de que o AI Act seja um bloqueio à inovação, sublinhando antes o seu papel na proteção da privacidade e na definição de limites éticos.
Para o responsável de Inovação do IPN, o ecossistema europeu – e português em particular – tem condições para competir globalmente, sobretudo quando startups e PME colaboram na aceleração da inovação.
PME Magazine (PME Mag.) – O empreendedorismo dos próximos dez anos vai ser mais tecnológico, mais científico ou mais político, no sentido de depender de escolhas políticas sobre energia, defesa, saúde e soberania? E onde é que Portugal se pode posicionar nesse campo?
Jorge Pimenta, diretor de Inovação do Instituto Pedro Nunes – É uma pergunta muito certeira porque encerra em si várias dimensões. Se o empreendedorismo vai ser mais tecnológico, mais científico, sim, só pode ser assim. Muitas vezes falamos desta questão, como se a investigação estivesse longe do dia a dia e não está. O desenvolvimento científico é importantíssimo, é a base de tudo o que fazemos hoje, da internet, das comunicações, até de coisas muito banais que utilizamos. A tecnologia vai estar sempre quase dentro do que é o desenvolvimento académico, porque ela é resultado e é produto disso. Por vezes podemos ter uma perceção muito estreita de que só o desenvolvimento tecnológico traz progresso: não, de toda. A academia e a ciência são muito importantes. As grandes empresas, como a Amazon, a Google, etc., se virmos de onde vêm as patentes, os investigadores, os cientistas, todos eles vêm das grandes universidades. A inovação hoje tem este quase paradoxo entre o mercado e a ciência, que é muito interessante. Depois, o mercado, sim, está muito condicionado pelas opções políticas.
Pelas opções políticas estamos a falar – não só dessa centralidade tecnológica nos Estados Unidos, e isso politicamente também tem uma influência muito grande, economicamente, naturalmente, mas politicamente – mas também falamos cada vez mais de um empoderamento, se é que se pode chamar assim, de startups ou de um empreendedorismo à volta, por exemplo, da energia, que é determinante, como nós conseguimos perceber para os próximos anos, até para o desenvolvimento tecnológico, da defesa, soberania nacional, portanto, das nações, da saúde, que a saúde viverá muito também da tecnologia. Será que cada vez mais a política tem uma influência determinante naquilo que é o empreendedorismo?
Concordo. Nós vivemos um período, até podemos olhar historicamente, se calhar até ao período da pandemia, etc., de excelentes desenvolvimentos. Tivemos as bolhas, sejam elas da internet ou a bolha financeira, mas estas permitiram quase um desenvolvimento livre. Depois tivemos esta chamada à realidade do que são as grandes opções da sociedade, ou seja, nós, enquanto sociedade, e as opções políticas refletem as visões da sociedade. Quando a realidade, entre aspas, é mais calma, as prioridades são umas. Neste momento, a realidade é muito agitada e temas que não estavam em cima da mesa há alguns anos estão agora: a questão da soberania e da defesa, em primeiro lugar, e a Europa está a viver isso de uma forma dramática, e a resposta tem de ser diferente da que foi dada no passado. Temas como falaste, como a saúde e a energia, são também centrais e vão necessitar de outras respostas. O grande arco geopolítico está transformado, isso é evidente. A Europa terá demorado algum tempo a responder, mas está a responder. Essa, para mim, enquanto europeu, é, se calhar, a única ideia positiva daqui.
Em relação à Europa, pegando precisamente por aí, estamos num mundo em que a inteligência artificial está a dominar transversalmente todos os negócios e toda a tecnologia. A Europa foi das primeiras a tentar legislar isoladamente; enquanto os Estados Unidos continuam numa liberdade em que primeiro vem a inovação e a criatividade e só depois vem a legislação. Temos a China, outra grande potência, em que a cópia funciona, mas já não é só cópia, portanto a inovação já está do lado deles, o desenvolvimento já está do lado deles, a competitividade já está do lado deles. Onde é que vai ficar a Europa no meio disto tudo? E onde é que fica posicionado, por exemplo, um país como Portugal?
São questões muitíssimo importantes, e obrigado mais uma vez pela tua observação. Nós podemos aprender várias coisas com este cenário atual e, no fundo, perceber como é que, especialmente Portugal, se pode posicionar face a ele. Deste dois exemplos, são dois exemplos paradigmáticos. Há a total desregulação, vamos chamar assim, americana, que permite a inovação, mas que também permite uma grande incerteza e quase uma polarização, não só social, mas também económica – que é muito perniciosa. O impacto que estas empresas [grandes tecnológicas] têm no mundo, hoje, põe em causa até a própria segurança. Estamos a falar de o e-mail ser um instrumento tão importante como eram os telefones antigamente. Portanto ter mass surveillance em e-mails, etc., são coisas muito perniciosas. A comunicação, no fundo, é fundamental à sociedade. Podermos comunicar livremente é fundamental. E nós temos hoje quase este mundo orwelliano, de 1984 [o livro de George Orwell], em que, se conseguires condicionar o presente, reescreves o passado e comandas o futuro. E esta questão da comunicação é muito importante aí. E, portanto, por um lado tens esse paradigma e depois, por outro lado, tens o paradigma chinês, que é um paradigma muito organizado, ou seja, com total foco, sem distrações, sem questões. E depois tens esta Europa. Eu sou um defensor absoluto da unidade europeia. Acho que em Portugal, então, nós beneficiamos tremendamente da nossa integração europeia. Eu tenho a possibilidade de colaborar com muitos países e muitas instituições, por exemplo agora nos países que estão, no fundo, a beneficiar, como Portugal beneficiou nos anos 80 e 90, como a Polónia, a Hungria, e é extraordinário. Mas temos esta quase ambivalência entre querer o controlo, querer o respeito, querer um conjunto de valores europeus sobre, nomeadamente, a questão dos dados e da privacidade, que são importantes, mas depois tens essa perceção de restrição. Eu acho que o AI Act e muitas das leis europeias são leis muito boas. É muito fácil diabolizar o regulador. Agora, enquanto europeu, eu sinto-me muito mais seguro da minha privacidade, da minha individualidade, do que me sinto em países hoje como os Estados Unidos.
E do ponto de vista da inovação e da criatividade, o AI Act é um bloqueio ou não?
De todo. Ele pode ser um bloqueio no sentido quase de perceção, eu diria, societal, mas dá indicações importantes. Porquê? Porque quando tu vês outras áreas, por exemplo, tocaste um bocado nos temas da saúde, quais é que são os benchmarks em termos de práticas éticas, de práticas pelo respeito humano? São as práticas europeias. E, portanto, no fundo, se nós dizemos à sociedade “inovem, concorram, mas há limites” – há aqui uns limites que nós vamos colocar, e os limites são, por exemplo, a ética e a humanidade – acho que isso, num certo sentido, é importante. Não estou certo de que nós, enquanto sociedade, vamos estar melhor se vivemos num mundo sem ética. Basta pensarmos nos danos que certas empresas, certos milionários, que parecem querer infligir no mundo. Agora, ele [AI Act] tem uma restrição inerente que pode ser percebida como limitadora. A inovação na Europa não é menor do que em outras regiões. O que nós temos na Europa é uma questão de adoção e de escala. E esse é o que eu leio, porque nós temos um mercado fragmentado. Ou seja, o mercado de escala normalmente está associado ao mercado americano ou ao mercado asiático: uma moeda, uma cultura, uma forma de consumir. E nós na Europa não temos uma Europa.
E até uma língua, não é? A universalidade das coisas leva também a essa pretensão.
Mas há uma oportunidade, desculpa interromper-te. Olhando agora para Portugal, onde é que nós nos podemos posicionar e como é que há aqui oportunidades? Um produto, um serviço, que seja verdadeiramente à prova da internacionalização, é colocá-lo na Europa. Porque se nós montarmos um produto que é, entre aspas, muito mediterrânico, ou um produto que é muito do Norte da Europa, nós vamos ter dificuldades de adoção. Como é que se prepara um produto para ter 30 línguas? Não pode ser só com tradução automática. Porquê? Porque a tradução leva-te a erros, leva-te a erros de entendimento e, portanto, tens que ter um produto realmente desenhado para esses mercados. E, portanto, nós, enquanto país, e muitas startups que vocês conhecem, que todos conhecem, têm essa abordagem – têm uma abordagem que, ela própria, no desenho, enquadra essas diferentes dimensões de mercado, sensibilidade de clientes. É um bocadinho mais difícil no início, mas primeiro tens um produto mais robusto, mais adaptado.
Então a Europa pode ser um bom mercado de teste para depois partir para a escala norte-americana, por exemplo?
Exatamente. O que nós hoje vemos na Europa, por exemplo, agora esta recentemente anunciada, no fundo, esta unificação – o 28.º regime [conhecido pela marca EU Inc.] – o que é que, no fundo, nós estamos a falar? Nós já temos uma coisa fantástica, às vezes esquecemo-nos, que é esta questão do mercado único. Eu, a partir de Portugal, posso faturar para a Lituânia sem IVA. As coisas vão. Tudo isto já funciona relativamente bem num mundo que era um mundo físico, onde tínhamos problemas com transportes, com IVA, com guias. Nós agora temos de adaptar ao mundo digital e, de facto, no mundo digital, nós ainda tínhamos, no fundo, quer barreiras domésticas, quer barreiras legais, administrativas, etc., e essas têm de ser unificadas na Europa. Ou seja, tem de ser possível eu, português, registar uma empresa na Dinamarca ou na Itália com a facilidade com que registo aqui, e todos esses processos. E isso implica, obviamente, normativas locais, línguas, etc. Mas isso é possível fazer, isso não é complexo.
E mais rápido do que se faz hoje em Portugal? Portugal é demasiado burocrático?
Algumas coisas sim, outras não. Acho que também temos de ter perceção do grande avanço que tivemos enquanto país. Obviamente, se me perguntarem: é tudo bom? Claro que não é. Por exemplo, o registo de sociedades é fantástico, se for europeu. Se for não europeu, já não é tão simples. Há muitos processos onde a simplificação administrativa teve grandes avanços e, no fundo, eu não olho para a burocracia ou para as leis como obstáculos, mas como limitações, como existem em qualquer geografia do mundo. A questão é que elas não podem criar mais limitações do que aquilo que pretendem, ou seja, têm de ter um efeito prático. Se o efeito prático é morosidade, lentidão e não competitividade, então têm de ser repensadas.
O Governo já disse que queria combater essa morosidade, queria acelerar processos e quer fazer, naturalmente, uma integração mais plena na Europa. Estás a favor disso?
Completamente. Acho que a modernização de Portugal tem vivido nos últimos anos. Nós não somos, entre aspas, um benchmark como alguns países – por exemplo, no caso da Estónia – onde têm, de facto, práticas muitíssimo avançadas em relação à digitalização da economia, da relação da sociedade com o Estado –, mas acho que estamos a caminhar nesse sentido. E esta oportunidade de integração, de verdadeira integração europeia, a questão do AI Act, nós também já temos uma Estratégia Nacional para a Inteligência Artificial. Ou seja, estamos a dar esses passos. A velocidades diferentes, por vezes, os empreendedores e quem está neste mundo comercial e da inovação queriam algumas coisas mais rápidas, mas eu vejo passos positivos. E esta é uma oportunidade. Portugal continua a ser visto como porta de entrada, como um mercado, no fundo, simpático, amigável, com disponibilidade. Nós temos um conjunto de vantagens competitivas, não temos a escala de todo, mas, mais uma vez, aqueles temas que muitas vezes deixamos um bocadinho para as bandeiras políticas – a ligação com a América do Sul, a ligação com África, a possibilidade de sermos esta ideia de hub concretizada, não meramente como um círculo no mapa, mas que permita essa facilidade de trocas, essa facilidade de acesso a mercado, porque nós, enquanto país, somos um país muito mais largo do que este pequeno catálogo.
E Coimbra é atrativa do ponto de vista do investimento estrangeiro e do ponto de vista até mesmo de empresas e startups, do ecossistema do empreendedorismo, de querer instalar-se aqui e de querer, a partir de Coimbra, ter as suas operações?
Agora vou, obviamente, colocar o meu chapéu comercial e pedir desculpa por algum enviesamento na resposta, mas considero Coimbra uma cidade e uma região muitíssimo atrativa, por razões várias. Em primeiro lugar, esta ligação entre o que é a ciência e as empresas, que é muito concreta. Estamos a falar de vários exemplos, incluindo os unicórnios que aqui temos…
Em particular, aqui dentro do Instituto Pedro Nunes, a ligação à academia em Coimbra, não é?
Ou seja, essa foi a base da criação do Instituto. O Instituto nasce exatamente como um ponto de interface entre a ciência e a atividade empresarial, e nós temos duas missões: promover essa ligação e promover a inovação. Simples. É isso que fazemos.
Mas por que é que isso não acontece mais no país? Ou seja, por que é que não há um maior aproveitamento daquilo que é a ciência produzida dentro das universidades, criar patentes, registar mais patentes, spin-offs, e tornar também muito mais competitiva não só a nossa economia, mas também a possibilidade de termos exportação?
Mais uma vez, temos de olhar para o que tínhamos, para o que temos e para o que queremos ter. O caminho tem sido feito. Nós temos mais spin-offs e, portanto, há mais resultados. Poderiam haver mais? Nós temos a expectativa de que fosse diferente? Sim, sem dúvida. Esta ideia de quebrar os muros, no fundo, de aproximar o que são instituições muito diferentes… O resultado número um de uma universidade deve ser a produção de ciência ou deve ser a produção de jovens qualificados para o mercado, não é? Muitas vezes estas duas realidades também podem ter um bocadinho de conflito, porque a missão da universidade é ensinar – e deve ensinar bem, deve criar bons recursos para as pessoas. E onde é que fica o espaço para a ciência? Queremos ter universidades mais científicas e menos dedicadas ao ensino? E por aí podia continuar. Isto acontece porque todas as universidades em Portugal hoje têm gabinetes de transferência de tecnologia, estão equipadas quer com equipamentos, quer com centros de pesquisa, e, portanto, está a acontecer…
Mas o que é que é preciso fazer mais?
Muito bem: o que é que é preciso fazer mais? Acho que temos esta noção de internacionalização e de escala, que é importante. Ou seja, a colaboração – há uma matriz colaborativa que, se calhar, não é muito portuguesa e que tem de ser mais portuguesa. Nós ainda temos muito aquela ideia de que o segredo é a alma do negócio. Quando, obviamente, até ao momento da invenção algum segredo é preciso, mas no momento da exploração é tudo menos segredo. Ou seja, quando queremos que uma tecnologia chegue a muitos lados, não podemos guardar segredo sobre ela – o que queremos é que ela se reforce.
Ou seja, não dizemos o que fazemos, não dizemos o que estamos a fazer, nem dizemos o que ganhamos.
Exatamente. Em Portugal, talvez por alguma modéstia, e às vezes alguma… não quero chamar vergonha, mas havia um bocadinho esta ideia de que o que se faz lá fora é que é bom. De todo. Nós não somos bons em tudo – não somos bons a fazer feijoada na ponte e a fazer nanotecnologia ao mesmo tempo. Essa capacidade de ter decisão, foco e estratégia tem escapado. Ou seja, muitos dos recursos poderiam ter sido utilizados em focar menos áreas e não serem tão transversais, porque a ideia de criação de clusters, de criação de valor e de cadeias de valor é importante. Num país com as limitações que temos – somos relativamente pequenos em dimensão – temos de fazer escolhas.
E quais são essas áreas?
Mais uma vez, não estou a falar da área da ciência. A ciência tem de ter transversalidade. Mas quando falamos das tecnologias digitais, por exemplo, na questão dos veículos autónomos, para onde é que vamos? Vamos trabalhar em veículos autónomos grandes – carros, camiões, etc. – ou vamos focar-nos nos drones, nos pequenos transportes? Se quisermos pôr ovos em todos os cestos, vamos ter poucos ovos. E, portanto, quando começamos a ter algumas pistas – por exemplo, nesta área dos drones e dos transportes, podemos ter uma pequena vantagem – então talvez devamos apostar mais aí e menos noutras áreas. Essa questão, para mim, no fundo, tem sido um pouco circunstancial. Ou seja, hoje dizemos uma coisa, amanhã aparece qualquer coisa e já dizemos o contrário. Isso não é bom em termos de consistência estratégica.
Então voltamos à primeira pergunta. Como é que a política define, ou não, dentro do nosso país, estas escolhas?
A política é importante, porque nós somos uma sociedade unida, somos uma sociedade organizada, onde o Estado tem um certo peso e o investimento público tem um certo peso – e isso não é negativo, ao contrário do que possam pensar – porque o investimento público tem essa capacidade de mobilização, de concentração e de ganhar alguma escala. E, portanto, não sou a favor de um Estado que dita a economia toda; acho que o Estado deve dar toda a liberdade para a economia, mas tem de fazer essas opções sociais. Por exemplo, falávamos aqui há um bocado da energia, da questão das energias renováveis, onde nós tomámos passos no passado que estamos a beneficiar hoje. E, portanto, isso é um exemplo concreto de como a política e o investimento nas renováveis tiveram um efeito até aos dias de hoje.
Que outras apostas é que podemos ter que nos garantam o futuro?
Mais uma vez, o exemplo de Sines, dos data centers, como é que todo esse investimento depois tem multiplicação na economia. Não podemos ser o Ronaldo de todas as tecnologias digitais, mas nós temos essa capacidade de concentração. Microeletrónica: temos muito conhecimento nesta área dos materiais. Falámos ainda recentemente nesta questão de alguma transformação da cadeia de valor da indústria automóvel para outras indústrias, nomeadamente a aeronáutica, o espaço, etc.. Portanto, há aqui estas apostas que nos podem dar muitos frutos no futuro, nomeadamente o tema do espaço, onde Portugal não era um ator, para além do que fossem as grandes agências – NASA, ESA e os grandes países – não havia atores pequenos. E nós, neste momento, estamos a assistir a um conjunto de atores como Portugal que têm ativos concretos. Por exemplo, os Açores, por exemplo a questão desta ligação com a ciência. Vamos ter, neste momento, a construir um centro de lançamentos em Santa Maria, que nos vai colocar estrategicamente numa posição interessante.
Essa é uma questão interessante, até porque tu és diretor da ESA Space Solutions Portugal, que vai dar lugar ao ESA BIC Centro. E é importante também perceber como é que este percurso no setor espacial nos ensina sobre a importância de transformar a ciência avançada naquilo que é o impacto económico real?
Na indústria, exatamente. O espaço, ou seja, esta nova exploração espacial, para as pessoas que nos estão a ler, o que era o setor do espaço – e a exploração económica desta realidade – era uma coisa, desde os anos 60 até há bem pouco tempo atrás, e agora é outra, porque de repente deixámos de ter apenas os governos e os exércitos ou as forças armadas dos países, e começámos a ter operadores comerciais. As pessoas conhecem a SpaceX, conhecem todas essas empresas que, neste momento, transformaram isto porque percebemos que, através da exploração espacial, em diferentes dimensões, conseguimos ter…
Até turística?
Até turística – eu dispensaria, conseguimos ter uma melhor vida na Terra. Obviamente, nenhum de nós hoje sai de casa sem o Google Maps e sem o Waze, tudo isso é possível graças aos satélites. Os satélites permitem-nos conhecer melhor a Terra, mas depois nós temos esta dimensão do espaço mais além do que podemos ter em termos de exploração da Lua, exploração de outros espaços, vamos dizer assim. O que nos permite, e o que é muito interessante nesta dimensão, é que estas tecnologias são muito difíceis de desenvolver. Elas vão estar em ambientes absolutamente difíceis, e, portanto, se essa tecnologia é sólida, é resiliente o suficiente, então depois eu, com um passo entre aspas a menos, posso utilizá-la cá ou posso utilizar esses dados para ter uma melhor vida na Terra. Estamos a falar desde a utilização de recursos, água, comunicações, etc.
E o tempo, não é?
Até à gestão meteorológica. A gestão das intempéries a que temos assistido nos últimos tempos e dos estragos que têm provocado, quer na agricultura, quer no património das famílias, quer noutras indústrias e infraestruturas. Aqui estamos a falar de dados. Estamos a falar, por exemplo, de modelos meteorológicos muito mais avançados e detalhados. Hoje sabemos que vai acontecer entre determinada hora e outra, porque o modelo está muito melhor, e isso vai permitir prever melhor, reagir melhor e também melhorar a recuperação. Mas vai muito para além disso. A vantagem de trabalharmos com dados do espaço, e para nós e para o país, é que estamos a crescer numa área com um campo muito aberto. Onde é que podemos ser competitivos? No conhecimento do mar, no trabalho sobre dados e na ligação entre a terra – que é maioritariamente água e oceano – e a atmosfera, nomeadamente nas questões meteorológicas. Há um espaço muito grande para crescer. As empresas portuguesas já têm um percurso relevante. Portugal foi pioneiro em alguns casos, como a Critical Software, que acompanhámos desde o início, uma das nossas primeiras incubadoras, ainda na fase do software crítico. Depois tivemos muitas outras empresas que, de forma específica ou enquanto área de atuação, desenvolveram tecnologias para várias missões e vários players, incluindo grandes empresas europeias e americanas. Fomos criando lentamente um cluster que neste momento já representa mais de 100 empresas. São empresas que trabalham ativamente para o setor, em hardware e software.
Referes-te aqui só ao IPN?
Em todo o país. Mas o IPN tem concentrado muitas delas, incluindo startups. A criação da Agência Espacial Portuguesa, há cerca de seis anos, também ajudou a aumentar o investimento na Agência Espacial Europeia e, por consequência, o retorno para o nosso ecossistema. Permitiu captar mais financiamento e desenvolver atividade a partir de Portugal. Tudo isto tem sido transversal à sociedade. Tivemos, por exemplo, cursos de Engenharia e Engenharia Aeroespacial a tornarem-se dos mais procurados e com médias mais altas. Em breve vão abrir novos cursos em Aveiro e em Coimbra, o que reforça os recursos disponíveis. Esta capacidade de estruturar recursos é essencial para capacitar Portugal e as suas empresas para competir.
Não queria perder o foco de outra questão: o investimento público no ecossistema do empreendedorismo. Deveríamos ter mais investimento público?
Há diferentes dimensões. Enquanto diretor do IPN, no que diz respeito às estruturas de apoio ao empreendedorismo, falamos da criação de melhores incubadoras e da capacitação dessas estruturas. Se houver mais apoio, teremos melhores empreendedores. Essa dimensão já teve investimento, mas poderia ser maior. Depois há o apoio direto às empresas e aos empreendedores. Isto tem várias camadas. Há uma fase inicial de ideação, onde é preciso cultura de negócio, trabalhada nas universidades e nas escolas. Isso é essencial: não só literacia financeira, mas também literacia de negócios – o que é fazer um negócio, o que é ser empreendedor. E isso não é tão romântico como parece.
Isto é muito pouco romântico?
É romântico no sentido em que fazemos algo que pode mudar muitas pessoas e o mundo, e isso é fantástico. Mas depois há o dia a dia e as suas obrigações. Depois há o apoio financeiro aos primeiros passos das empresas, que têm mais dificuldade em captar clientes ou financiamento tradicional da banca. Precisam de suporte com maior nível de risco. E aqui está muitas vezes a dificuldade do financiamento público.
Não está habituado ao risco.
Não está habituado ao risco. Muitos destes programas acabam por ter uma grande discrepância entre o investimento e os resultados. É preciso perceber que apoiar startups implica risco. Mesmo quando corre bem, muitas empresas e ideias não chegam ao mercado – e isso faz parte. O exemplo de Israel no ecossistema de empreendedorismo mostra isso: a aposta é assumir risco e não ter medo de falhar, para que outras iniciativas tenham sucesso e daí surjam soluções transformadoras. Israel e a Estónia são exemplos de ecossistemas fortes, com bons “vasos comunicantes”, que atraem investimento privado. O investimento público é especialmente importante nas fases iniciais, de “seed” e arranque. Depois, as empresas com melhor tecnologia e mercado conseguem atrair capital privado.
E depois fogem de Portugal?
Algumas fogem. Não é líquido que todas as empresas tenham de ficar em Portugal. O importante é criar boas condições socioeconómicas, fiscais e de qualidade de vida. A crise da habitação e outras dificuldades podem levar pessoas e empresas a procurar alternativas – é humano.
Qual é a sensibilidade em relação à ligação com a Universidade de Coimbra e os estudantes que entram no mercado de trabalho? Há algum movimento de saída de cérebros?
Houve um movimento forte durante a crise financeira, que depois foi estancado. Portugal é um país aberto e isso implica fluxos de entrada e saída. Hoje, o país oferece melhores condições para jovens qualificados desenvolverem aqui as suas carreiras, seja em startups ou empresas consolidadas. Haverá sempre alguma saída – talvez 5% a 10% dos jovens. O objetivo é atrair pelo menos o mesmo número, ou mais, de pessoas de outras geografias.
Outras localizações europeias?
Sim, europeus e não europeus. Portugal é atrativo para não europeus também pela dimensão cultural e pela capacidade integradora. Somos uma sociedade pacífica e percebida como boa para acolher. Do ponto de vista tecnológico, é preciso garantir condições para as empresas se instalarem e acesso a mercados externos, sobretudo à Europa. Assim, Portugal pode ser mais interessante do que cidades como Paris ou Berlim.
As incubadoras portuguesas – Coimbra, Braga, Leiria, Lisboa, Porto – estão entre as melhores em impacto. Isso traz visibilidade internacional?
Sim. Há um antes e depois do Web Summit. A visibilidade de Portugal mudou, não necessariamente a realidade. O IPN, por exemplo, já foi considerado uma das melhores incubadoras universitárias de base tecnológica do mundo em termos de impacto. O impacto mede-se pelo número de startups por habitante, envolvimento de alunos e outros indicadores. O trabalho é bem feito, e os rankings mostram isso. Mas não temos escala. O que podemos fazer é criar ligações internacionais e ultrapassar as limitações da nossa dimensão. A infraestrutura também é uma limitação – por exemplo, o aeroporto e as ligações internacionais. São desafios estruturais, mas ultrapassáveis. O investimento público não substitui o privado, mas pode ser um alavancador.
Fala-se muito de inovação, mas investe-se pouco em risco. O investimento em startups tem diminuído?
O capital de risco depende do contexto internacional. Existem outros ativos mais atrativos e é mais difícil captar fundos. Além disso, há uma tendência de consolidação e de maior exigência nos investimentos. Em Portugal, o investimento em startups tem aumentado e há mais operadores de capital de risco. Mas estes também procuram oportunidades noutros mercados, como Espanha. O capital privado na área de startups aumentou, mas isso é diferente de investimento em investigação e desenvolvimento, que são dimensões distintas. As PMEs em Portugal – que representam 99% do tecido empresarial – têm aqui um papel importante na ligação com startups. Esse é um fator determinante. As startups precisam de testar soluções rapidamente, e as PMEs beneficiam da inovação. Já há bons exemplos em Portugal, com grandes empresas a desenvolver programas de inovação aberta com startups.
Ainda assim, gostarias de ver mais integração?
Muito mais integração. Fica o apelo às empresas para criarem programas de inovação aberta. O IPN tem vários modelos, desde desafios protegidos até desafios totalmente abertos ao mundo.
Para terminar: de que forma atua o IPN como “laboratório” entre academia, empresas e startups?
Essa é uma das nossas principais vantagens. Temos um ponto focal onde empresas podem chegar com problemas simples ou complexos. No segundo caso, envolvemos academia, startups ou outras empresas. O IPN atua como incubadora e aceleradora, mas também tem sete laboratórios aplicados com equipas internas dedicadas, capazes de trabalhar com confidencialidade e co-desenvolver soluções. Trabalhamos num modelo de co-desenvolvimento: queremos que o que desenvolvemos seja incorporado nos produtos das empresas. Quando há desafios, procuramos a melhor solução, seja interna ou no ecossistema. Essa agilidade é uma vantagem enorme. Empresas que conseguem operar assim podem tornar-se líderes mundiais. Acredito que a forma de um país pequeno ganhar escala é esta: colaboração e visão internacional.
E a coesão territorial? Coimbra, Braga, Algarve, Faro, Castelo Branco, Aveiro…
Esse é um ponto sensível. Portugal é um país desigual, com litoral mais dinâmico e interior mais fragilizado. Isso é prejudicial ao desenvolvimento. Temos de trabalhar em rede. Se a competência está num local, devemos procurá-la lá. As instituições de ensino também devem ser mais colaborativas. Se todos ganharem, o país ganha. A coesão territorial é um desafio grande, agravado pelo envelhecimento da população. Temos colaborado com municípios para criar estruturas de incubação adaptadas às realidades locais, ligadas à indústria existente.
Se tivesse de escolher uma única prioridade para acelerar o crescimento económico de Portugal via startups, qual seria?
É uma pergunta difícil. Há várias áreas tecnológicas a crescer. Destaco a interseção entre digital e físico – sistemas ciberfísicos. A integração da computação com mecanismos de automação, dispositivos médicos, drones, robótica e agricultura é uma área com grande potencial. Temos bons exemplos, como a Sword Health na saúde e empresas no setor espacial. Estes casos mostram a integração entre ciência, mercado e oportunidades globais. Essa interseção entre digital e físico é, para mim, uma das áreas mais promissoras para o futuro.













