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Barómetro PME: Empresas reduzem recurso ao crédito. Dimensão continua a marcar acesso ao capital 

Por: Ana Marisa Vieira


6º Barómetro PME Magazine, 1ª vaga

Pilar: Finanças
Comentário: Luís Serra Coelho, Professor Catedrático e diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve e Paula Franco, Bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados.

 

  1. O tamanho da empresa continua a contar 
  2. Uma distância que começa na escala 
  3. Prazos de pagamento pressionam tesouraria 
  4. Capitalização continua a ser um problema 
  5. O novo desafio é encontrar talento 
  6. Contabilistas ganham peso na decisão financeira 


A procura de financiamento pelas PME caiu de 28,7% para 21,9%, num contexto de melhoria da situação financeira e crescimento das vendas. Mas a redução da procura não significa que o acesso ao capital esteja resolvido. Micro e médias empresas continuam a viver realidades financeiras muito distintas.
 

As PME portuguesas estão a recorrer menos a financiamento, de acordo com os resultados recolhidos pelo 6º Barómetro PME Magazine, 1ª vaga. A procura caiu de 28,7% para 21,9%, num contexto em que 39,7% das empresas classificam a sua situação financeira como boa ou muito boa e 66,8% registam um aumento das vendas. 

Os dados sugerem, assim, uma menor pressão sobre a tesouraria e uma maior capacidade de financiar a atividade através de recursos próprios. É essa a leitura de Luís Serra Coelho, professor catedrático e diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Algarve. 

“É natural que a libertação de meios internos reduza a necessidade de capital alheio”, afirma. A evolução acompanha, segundo o economista, a tradicional hierarquia das fontes de financiamento: “primeiro recorre-se ao autofinanciamento; só depois à dívida”. 

A descida deve, contudo, ser interpretada com cautela. O Barómetro mede a intenção de recorrer a financiamento, não os pedidos efetivamente apresentados ou recusados. Não permite, por isso, concluir que a redução da procura resulta exclusivamente de uma melhoria das condições financeiras. 

 

1. O tamanho da empresa continua a contar 

A diferença entre escalas empresariais é particularmente evidente na intenção de recorrer a financiamento. Apenas 13,6% das microempresas admitem fazê-lo, contra 26,7% das pequenas empresas e 39% das médias. 

Para Paula Franco, bastonária da Ordem dos Contabilistas Certificados, o acesso ao crédito continua a ser uma barreira para as empresas mais pequenas. 

“Empresas pequenas, com menor escala, menos garantias, menor capacidade de gerar informação financeira e maior exposição a determinados riscos continuam a enfrentar mais dificuldades para obter financiamento”, afirma. 

A questão, acrescenta, já não passa apenas pelo preço do crédito, mas pela capacidade de acesso. “O crédito está mais acessível, mas não está igualmente acessível a todas as empresas.” 

Luís Serra Coelho identifica, contudo, outra explicação possível para a menor procura das microempresas. Apesar de apresentarem uma situação financeira mais frágil, são precisamente as que menos intenção revelam de solicitar crédito. O fenómeno pode traduzir um comportamento de “discouraged borrower”: empresas que se autorrestringem porque antecipam dificuldades no acesso ao financiamento. 

 

2. Uma distância que começa na escala 

A diferença entre micro e médias empresas também aparece na perceção sobre a evolução financeira. Enquanto 35,6% das médias empresas reportam crescimento sustentado, apenas 8,6% das microempresas fazem a mesma avaliação. 

A explicação, segundo Serra Coelho, começa na escala. 

Custos administrativos, sistemas de informação, certificações e funções financeiras pesam proporcionalmente mais nas empresas pequenas. À medida que o volume de negócio aumenta, esses custos podem ser diluídos. 

A dimensão também facilita o acesso a mercados de maior valor acrescentado. No conjunto da amostra, 37,4% das empresas exportam e 31,7% vendem online. 

A diversificação da carteira de clientes é outro fator relevante. Uma maior dependência de poucos clientes aumenta a volatilidade dos resultados e dificulta uma trajetória de crescimento sustentado. 

“Escala primeiro, produtividade em consequência, capital em terceiro lugar”, resume o professor.

 

3. Prazos de pagamento pressionam tesouraria 

A tesouraria continua, contudo, a ser uma das principais fragilidades das PME. O conjunto das empresas que recebem pagamentos a 60 dias ou mais aumentou de 41,5% para 45,1%. Só os recebimentos a 60 dias subiram 8,4 pontos percentuais, para 30,4%. 

O efeito sobre a necessidade de financiamento é direto. Uma empresa que recebe dos seus clientes a 60 dias e paga aos fornecedores a 30 dias tem de financiar um mês de atividade. 

“Esse capital tem sempre um custo”, explica Serra Coelho. Pode ser o custo explícito de um empréstimo ou o custo de oportunidade de manter capital próprio imobilizado em contas a receber. 

O indicador é particularmente relevante entre as médias empresas: 62,7% recebem a 60 dias ou mais e 39% preveem recorrer a financiamento. 

Para o economista, este cruzamento sugere que parte da procura de crédito pode estar associada ao financiamento de fundo de maneio e não necessariamente a investimento produtivo. 

“Financiar crescimento tende a criar valor; financiar prazos de pagamento apenas transfere valor ao longo da cadeia”, alerta. 

Paula Franco considera que o cumprimento dos prazos de pagamento continua a ser “outro desafio gigantesco” para as empresas portuguesas e defende que pagar atempadamente deve ser uma prioridade, incluindo por parte do Estado. 

 

4. Capitalização continua a ser um problema 

A menor procura de financiamento não elimina uma das fragilidades estruturais do tecido empresarial português: a fraca capitalização. 

Para Paula Franco, o problema não pode ser resolvido apenas através do crédito. “Aumenta o endividamento destas unidades que, muitas delas, lutam, dia a dia, para manter as portas abertas”, afirma. 

A responsável identifica, contudo, uma mudança positiva em parte das PME. Algumas empresas começam a ultrapassar uma lógica centrada em vendas, tesouraria e sobrevivência e a colocar na agenda temas como talento, digitalização, Inteligência Artificial, sustentabilidade, internacionalização e produtividade. 

O problema é que esta transformação ainda não abrange uma parte suficientemente alargada do tecido empresarial. 

 

5. O novo desafio é encontrar talento 

Os dados financeiros devem ainda ser lidos num contexto em que o principal constrangimento começa a deslocar-se. 

As reduções de pessoal caíram para 10,6%, o valor mais baixo da série, enquanto 44,1% das empresas admitem contratar. Ao mesmo tempo, 47,7% classificam como elevada a dificuldade em atrair talento. 

Nas pequenas empresas, essa dificuldade chega aos 58%. 

Para Serra Coelho, “o capital deixou de ser o problema dominante; o trabalho ocupou o seu lugar”. 

É uma mudança relevante: as empresas parecem ter maior capacidade para financiar o crescimento, mas encontram dificuldades para transformar essa capacidade em expansão, produtividade e criação de valor. 

 

6. Contabilistas ganham peso na decisão financeira 

Neste contexto, Paula Franco atribui aos contabilistas certificados um papel que ultrapassa a preparação da informação contabilística. 

“São a bússola e o parceiro sempre presente junto dos seus clientes”, afirma. 

A qualidade da informação financeira e não financeira é, para a bastonária, essencial para que as empresas possam avaliar as suas perspetivas e escolher as soluções de financiamento mais adequadas. 

O contabilista certificado pode também contribuir para a capitalização das empresas, identificando fragilidades, preparando informação para bancos e investidores e ajudando a avaliar alternativas entre capital próprio, crédito, fundos europeus e outras fontes de financiamento. 

“São os sócios invisíveis, mas inseparáveis, dos empresários”, conclui. 

A fotografia traçada pelo 6º Barómetro PME Magazine é, assim, menos a de uma crise de financiamento e mais a de um tecido empresarial que continua a crescer de forma desigual. As PME parecem estar financeiramente mais confortáveis, mas a dimensão continua a determinar a capacidade de investir, aceder a capital e transformar crescimento em maior produtividade. 

Enquanto as empresas de maior dimensão parecem reunir condições para financiar processos de expansão, muitas microempresas continuam condicionadas pela escala, pela tesouraria e pela reduzida capacidade de capitalização. 

 

 

Ficha técnica_6.ª edição do Barómetro PME Magazine 

O Barómetro PME Magazine 2026 – Estudo Anual 1ª vaga foi realizado pela More Results para a PME Magazine, com a recolha de dados a decorrer entre os dias 13 de maio e 30 de junho de 2026, através de inquérito eletrónico online enviado para as bases de dados da PME Magazine, Iberinform, More results, PWN Lisbon, CPPME – Confederação Portuguesa das Micro, Pequenas e Médias Empresas, SFORI – Empresa de desenvolvimento e consultoria estratégica e de recursos humanos, ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão, APEGAC – Associação Portuguesa de Empresas de Gestão e Administração de Condomínios, Parque Tecnológico de Óbidos e World Trade Center. O universo do estudo é constituído por 230 381 micro, pequenas e médias empresas a operar no mercado português. A amostra final fixou-se em 388 respostas válidas, o que reflete uma margem de erro máxima de ±4,97% para um grau de confiança estatística de 95%. No que respeita à tipologia do tecido empresarial respondente, a amostra distribui-se por 198 microempresas (51,0%), 131 pequenas empresas (33,8%) e 59 médias empresas (15,2%). 

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