InícioOpiniãoCTeSP: a ligação às empresas começa antes da vaga

CTeSP: a ligação às empresas começa antes da vaga

Por: Nuno Helder, da HTX Partners

As vagas por ocupar nos Cursos Técnicos Superiores Profissionais voltaram a trazer esta via de formação para a discussão pública. É tentador tratar o tema apenas como um problema de escolha dos jovens ou de adequação da oferta formativa. Para uma PME que sabe que vai automatizar, digitalizar ou alterar de forma relevante um processo, há outra pergunta que interessa fazer: quando começa a pensar nas competências que essa mudança vai exigir? A decisão sobre o investimento costuma surgir muito antes da vaga de emprego.

Os CTeSP são cursos superiores de dois anos, não conferentes de grau, com uma componente técnica muito relevante e formação em contexto de trabalho. Foram pensados para aproximar formação aplicada e atividade profissional, mas essa ligação não funciona sempre da mesma forma. A OCDE assinala diferenças na qualidade e na adequação destes cursos às necessidades do mercado de trabalho e um envolvimento ainda limitado dos empregadores. Defender os CTeSP não pode, portanto, significar defender todas as vagas existentes. Interessa perceber onde há uma necessidade económica real, se o curso consegue responder-lhe e se o percurso profissional faz sentido para quem o escolhe.

Para uma PME, esta discussão pode começar numa decisão aparentemente distante da formação: um investimento. Uma nova linha, mais automação, um laboratório, um sistema digital ou uma alteração relevante de processo não mudam apenas os equipamentos; mudam trabalho, responsabilidades e competências necessárias. A instalação pode estar concluída e a operação continuar demasiado dependente do fornecedor, de uma pessoa-chave ou de soluções provisórias porque ainda falta conhecimento para operar, resolver problemas e melhorar o processo com autonomia. O investimento existe, mas a empresa demora mais a retirar dele aquilo que esperava.

Vale por isso a pena fazer algumas perguntas quando se prepara uma mudança destas. Que tarefas vão deixar de ser iguais? Que conhecimento técnico passará a ser crítico? Quando terá de estar disponível? E de onde poderá vir? Parte pode ser desenvolvida nas pessoas que já estão na empresa; parte pode exigir alguém experiente; noutras situações, formação profissional, fornecedores ou um CTeSP podem fazer mais sentido. Não se trata de acrescentar um complexo plano de recursos humanos a cada investimento, mas de perceber antecipadamente se a capacidade necessária estará disponível quando começar a ser realmente necessária.

Nem todas estas necessidades justificam construir uma relação com uma instituição de ensino. Se a empresa precisa pontualmente de um especialista ou de uma competência muito específica, provavelmente haverá soluções mais rápidas. Um CTeSP torna-se mais interessante quando a necessidade é recorrente, difícil de encontrar no mercado, importante para a capacidade futura da empresa ou partilhada por várias empresas da mesma região. Nesse caso, esperar pela abertura de uma vaga significa desperdiçar informação que a empresa já tinha muito antes.

Essa informação também precisa de chegar à instituição de uma forma útil. Dizer apenas que “faltam técnicos” ajuda pouco. Faz mais sentido explicar que tipo de tarefas se está a tornar recorrente, que capacidades são mais difíceis de encontrar, onde surgem normalmente os problemas nos primeiros meses e que nível de autonomia se espera de alguém que entra na

função. Isto não significa pedir a um politécnico que adapte um curso ao equipamento ou ao software de uma empresa. A formação tem de produzir competências transferíveis. O contributo empresarial é sobretudo dar visibilidade sobre padrões reais de procura que, vistos apenas a partir de uma empresa, podem parecer demasiado pequenos para justificar alterações.

É precisamente aí que a dimensão das PME cria uma dificuldade adicional. Uma empresa pode precisar apenas de uma ou duas pessoas e ter pouco peso isoladamente. Se várias começam a reportar a mesma dificuldade, a informação muda de natureza. Associações empresariais, clusters ou grupos de empresas da mesma região podem ajudar a perceber se existe uma necessidade recorrente e suficientemente transversal ou apenas várias urgências diferentes a que o sistema de formação nunca conseguiria responder com um único curso.

O estágio é outra oportunidade para testar se essa aproximação funciona. Não precisa de ser transformado num sofisticado programa de talento: precisa de haver trabalho técnico real, alguém que acompanhe o aluno e uma noção clara do que ele deve conseguir fazer com crescente autonomia. Mais importante é aproveitar o que se aprende durante esse período. Se diferentes alunos chegam repetidamente com a mesma dificuldade, há informação que pode regressar à instituição. Se, pelo contrário, o problema está na forma como a empresa integra, acompanha ou utiliza esses jovens, também convém perceber isso antes de concluir que o curso não prepara bem.

Há depois uma questão que nenhuma escola consegue resolver pela empresa. Se os candidatos não aparecem ou entram e saem rapidamente, é preciso olhar para a função oferecida. Que autonomia pode ter um técnico ao fim de dois ou três anos? Que especialização pode adquirir? Existe progressão visível? A empresa apoia formação posterior? É possível continuar estudos sem ter necessariamente de abandonar o trabalho? Muitos diplomados destes cursos prosseguem estudos no ensino superior. Isso não precisa de ser visto como uma perda. Uma empresa pode ter mais hipóteses de atrair e manter bons técnicos se a função lhes permitir continuar a crescer, em vez de os obrigar a escolher entre desenvolver-se e ficar.

As vagas por ocupar nos CTeSP não são um problema que as empresas consigam resolver sozinhas, tal como não cabe aos politécnicos adivinhar a procura futura de cada PME. Mas, quando uma empresa sabe que vai mudar a operação e que essa mudança exigirá capacidades técnicas recorrentes, já dispõe de informação que pode usar mais cedo. Pode desenvolver pessoas internamente, procurar alternativas no mercado, sinalizar uma necessidade à instituição ou perceber que um CTeSP não é sequer a resposta adequada. O importante é não deixar essa decisão para o momento em que a vaga abre e a operação já precisa da competência que ainda estamos a tentar encontrar.

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