Por: Ana Marisa Vieira
Da Defesa à área da saúde, dos grandes operadores às Pequenas e Médias Empresas (PME), a tecnologia da Connect Robotics quer tornar a logística aérea, através de drones, acessível a todos.
Nascida como spin-off da Universidade do Porto, a empresa portuguesa desenvolveu um sistema de navegação autónoma para drones que não depende de hardware proprietário e que pode ser integrado em qualquer drone industrial disponível no mercado. Uma abordagem drone-agnostic que reduz custos e aproxima as PME da logística aérea não tripulada.
Selecionada para o acelerador DIANA da NATO, vai ter acesso a uma rede de mais de 180 centros de teste da NATO para validar a tecnologia em ambientes operacionais reais.
Em entrevista à PME Magazine, Ana Manuel Martins, Chief Operating Officer, explica como uma tecnologia validada em cenários críticos e de elevada exigência pode ser aplicada no tecido empresarial português, criando novas oportunidades de eficiência, resiliência e sustentabilidade para as PME.

PME Magazine (PME Mag.) – Como surgiu a Connect Robotics?
Ana Manuel Martins (A. M. M.) – A nossa jornada começou em 2015 e a Connect Robotics nasceu como uma spin-off da Universidade do Porto impulsionado pela visão única do nosso CEO, Eduardo Mendes, que identificou um problema logístico fundamental que precisava de ser resolvido.
“(…) democratizar as entregas autónomas usando drones e garantir o fornecimento de bens essenciais de forma rápida”
A nossa missão é clara: democratizar as entregas autónomas usando drones e garantir o fornecimento de bens essenciais de forma rápida, segura e resiliente, especialmente em cenários onde a infraestrutura terrestre pode falhar. O nosso foco tecnológico é altamente especializado. Dedicamo-nos ao desenvolvimento de um núcleo de software e aviónicos certificável, que atua como um verdadeiro piloto embarcado no drone. Isto permite-nos realizar a navegação autónoma BVLOS (Beyond Visual Line of Sight), utilizando tecnologia de visão computacional de alta precisão.
A nossa sede está localizada na SANJOTEC, em São João da Madeira. Contudo, somos uma equipa de sete pessoas com um modelo distribuído, estando a nossa equipa espalhada por Porto, Aveiro, Coimbra e Lisboa sendo que temos uma forte ligação ao IPN e a INCoimbra start-up hub
Temos uma grande tração na área da saúde, principalmente no transporte de medicamentos e amostras laboratoriais, porque é onde o desafio e a necessidade de uma solução rápida e fiável são maiores. O nosso objetivo é oferecer um sistema que seja flexível, seguro e fiável, integrando os processos logísticos do cliente de forma transparente e automática. Começamos, recentemente, uma nova vertical na inspeção de infraestruturas com um grande cliente que será anunciada em breve, e estamos para iniciar operações industriais.
PME Mag. – A Connect Robotics foi recentemente selecionada entre 150 empresas para integrar o acelerador DIANA da NATO. Quais são os principais desafios tecnológicos que a vossa solução de drones autónomos pretende responder?
A. M. M. – O maior desafio é aplicar e provar o sucesso da nossa tecnologia de logística autónoma nos setores da Defesa e Infraestruturas Críticas e superar a complexidade logística e aumentar a segurança das nações.
A solução de drones autónomos da Connect Robotics visa responder a vários desafios tecnológicos e operacionais críticos inerentes à logística e inspeção tradicionais: a logística tradicional, como as linhas de abastecimento, é um passivo nos setores da Defesa e em crises civis. As linhas são vulneráveis, a infraestrutura pode estar em risco e, crucialmente, o pessoal militar e civil fica exposto a perigos durante o reabastecimento. Pretendemos oferecer logística resiliente e sob requisição constante. Isto permite fornecer bens e realizar inspeções com precisão e eficiência, sem colocar vidas em risco.
” (…) basta adicionar o nosso computador de bordo e os sistemas de gestão de drones para transformar um drone padrão numa plataforma logística autónoma”.
O hardware de drones está em constante e rápida evolução. Um drone comprado hoje estará obsoleto em seis meses, o que implica novas aquisições e, mais importante, novos ciclos de formação para todo o pessoal operacional. Isto prende os utilizadores a sistemas proprietários. A Solução da Connect Robotics é “drone-agnostic”, ou seja, pode ser utilizada com qualquer drone industrial existente no mercado. Para isso, basta adicionar o nosso computador de bordo e os sistemas de gestão de drones para transformar um drone padrão numa plataforma logística autónoma. Isto assegura que, mesmo com a aquisição de novos modelos de drones, a curva de aprendizagem e a necessidade de treino são eliminadas, pois o “cérebro” da operação (software da CR) é mantido. O foco é na autonomia tecnológica, permitindo que os Estados-membros integrem rapidamente a melhor e mais atual tecnologia de drones pronta a usar, reforçando a soberania.
Mais ainda, em crises civis ou cenários militares, estradas bloqueadas e infraestruturas destruídas isolam comunidades ou unidades. Os métodos tradicionais não conseguem fornecer logística com a rapidez e precisão necessárias nestes ambientes. A nossa tecnologia é capaz de superar esta complexidade logística e operar em ambientes mais exigentes, garantindo um abastecimento contínuo e preciso onde a infraestrutura terrestre falha.
PME Mag. – Com a participação no DIANA e acesso à rede de mais de 200 centros de teste da NATO, que oportunidades comerciais e de internacionalização perspetivam para os próximos anos?
A. M. M. – A participação no acelerador DIANA posiciona a Connect Robotics para capitalizar várias oportunidades estratégicas de crescimento e internacionalização onde a chave de tudo será a validação e adoção da tecnologia de logística autónoma no setor de Defesa de forma padronizada. Os testes rigorosos em ambientes exigentes garantirão que a solução seja totalmente compatível e interoperável com as forças da NATO. Esta validação concede um selo de confiança e robustez incomparável, essencial para contratos de Defesa. O programa abre a porta a um mercado de elevado valor. As nações da NATO estão a aumentar os seus orçamentos de Defesa, com foco em soluções logísticas resilientes e tecnologias disruptivas. A Connect Robotics pode, assim, acessar mais rapidamente contratos de fornecimento em todos os 32 Estados-membros. Além da logística, a tecnologia pode ser aplicada na inspeção de Infraestruturas Críticas, um requisito de segurança vital para os países-membros.
“A solução provada em ambientes militares (logística resiliente em falha de infraestrutura) é diretamente aplicável a situações de emergência e desastres civis”.
A certificação implícita através do DIANA facilita a entrada em mercados onde as barreiras regulamentares e de confiança são altas. O foco na soberania tecnológica nacional dentro da Aliança cria uma procura interna pelo nosso produto e serviço e facilita a formação de parcerias com grandes empresas de Defesa e Segurança e com centros de investigação e desenvolvimento dos países aliados, acelerando a comercialização e adaptação da solução a diferentes requisitos nacionais. Naturalmente o sucesso na Defesa tem um efeito de transbordo no mercado civil, que aliando à nossa experiência e comercialização no setor, posiciona-nos ainda mais à frente. A solução provada em ambientes militares (logística resiliente em falha de infraestrutura) é diretamente aplicável a situações de emergência e desastres civis. Isto cria oportunidades comerciais com agências de proteção civil, saúde e organizações humanitárias a nível global.
A vertical de inspeção pode ser rapidamente transferida para a inspeção de pontes, barragens, linhas de energia e oleodutos no setor privado e público, onde a autonomia e a precisão da tecnologia drone-agnostic são altamente valorizadas.
O DIANA não só valida a tecnologia existente, mas impulsiona a inovação futura. A exigência dos testes permite testar e reforçar a solução nos ambientes mais exigentes, comprovando que o software e aviónicos da Connect Robotics são o “cérebro” ideal para qualquer plataforma drone, garantindo uma vantagem competitiva duradoura contra soluções proprietárias. A experiência consolidada em autorizações EASA SORA, combinada com a validação da NATO, consolida a Connect Robotics como líder em navegação autónoma BVLOS (Beyond Visual Line of Sight), uma tecnologia-chave para o futuro da logística e segurança global.
PME Mag. – A missão da Connect Robotics passa por “democratizar a entrega por drones” e já contam com mais de 15 operações autorizadas BVLOS (Beyond Visual Line of Sight). Como avaliam o impacto destas operações em setores como saúde, logística e retalho em Portugal e na Europa?
A. M. M. – Primeiramente, representa um marco fundamental para a logística e a inovação em Portugal e na Europa. A avaliação do impacto destas operações, especialmente nas categorias de risco mais elevadas, é extremamente positiva e aponta para uma mudança de paradigma.
“(…) um tempo de entrega de 1 hora por veículo terrestre em potencialmente 10 minutos de voo, por exemplo”.
As operações BVLOS garantem a entrega super-rápida de materiais essenciais (medicamentos, vacinas, sangue, amostras laboratoriais), especialmente em rotas que, por estrada, seriam demoradas ou vulneráveis a congestionamentos. Isto transforma um tempo de entrega de 1 hora por veículo terrestre em potencialmente 10 minutos de voo, por exemplo. A capacidade BVLOS permite ligar hospitais e laboratórios a comunidades rurais ou isoladas, superando falhas na infraestrutura terrestre (estradas bloqueadas). Isto assegura que a necessidade de saúde prioritária seja atendida, independentemente da geografia.
O facto de a Connect Robotics ter obtido múltiplas autorizações BVLOS, incluindo com a nova regulamentação europeia EASA SORA (Specific Operations Risk Assessment), demonstra que a solução cumpre os mais altos padrões de segurança. Portugal é, assim, posicionado na linha da frente da aviação não tripulada europeia. Obtivemos, no mês passado, a maior e mais longa autorização de voo para 50 km, para a nova vertical de inspeção, uma autorização rara na europa e no mundo que atesta a nossa capacidade e compromisso.
O impacto da tecnologia BVLOS na chamada entrega de última milha é medido principalmente pela eficiência e pelo benefício ambiental. Os drones autónomos evitam congestionamentos urbanos e seguem rotas aéreas diretas, reduzindo drasticamente os tempos de entrega o que otimiza a produtividade como também aumenta a satisfação do cliente com entregas rápidas e previsíveis.
As entregas por drone são uma alternativa eco-responsável. Operando com baterias elétricas, reduzem significativamente as emissões de CO2 e o consumo de energia. Estudos indicam uma potencial redução de até 84% nas emissões de CO2 por pacote em comparação com veículos a diesel.
Estas operações BVLOS colocam a Connect Robotics no centro de um mercado global em aceleração vertiginosa onde a passagem de “provas de conceito” para redes com densidade de rotas capazes de operar BVLOS é a chave para a escala. As 15+ autorizações BVLOS da Connect Robotics não são apenas um feito operacional, são um avanço regulamentar para o continente e para o setor. Crescemos e crescemos o setor em conjunto. A obtenção destas autorizações, em conformidade com as normas da EASA, incluindo para o sistema interno de segurança (FTS – Flight Termination System e paraquedas), facilita o caminho para outras empresas europeias, ao estabelecer precedentes de segurança e conformidade. O sucesso em garantir estas autorizações, mesmo para operações em contexto urbano e áreas populosas (graças a sistemas de segurança homologados como o paraquedas e FTS), é o que permite, de facto, a “democratização da entrega por drones” em áreas de alta densidade populacional. Estamos a ajudar a criar um modelo que demonstra que a logística aérea não tripulada em Portugal e na Europa é segura, sustentável e economicamente viável para o futuro.
PME Mag. – A tecnologia de vossos drones combina navegação RTK e visão computacional para entregas autónomas até em áreas urbanas densas. Quais são os maiores obstáculos regulatórios e de segurança que enfrentam na implementação em grande escala?
A Connect Robotics está a provar que os sistemas autónomos baseados em RTK e navegação visual (permitindo entregas em áreas pequenas e de difícil acesso) são fiáveis e seguros para operação BVLOS. No entanto, o setor ainda enfrenta barreiras significativas no caminho da democratização das entregas por drones. O maior desafio regulamentar é a passagem das autorizações BVLOS pontuais obtidas via SORA para um enquadramento operacional padronizado para a escala, que exige a certificação de Type Design, sendo um processo rigoroso demorado e oneroso que move os operadores para a categoria “Certified” de segurança comparável à aviação tripulada
Paralelamente, a plena operacionalidade do U-Space, o sistema europeu de gestão de tráfego de drones em baixo nível, é crucial e ainda está em fase de implementação e harmonização entre os Estados-membros. A escala em grandes cidades depende do U-Space funcional para gerir de forma segura e automatizada múltiplos voos BVLOS e evitar conflitos com a aviação.
Do lado da segurança, o obstáculo reside na robustez dos sistemas Detect and Avoid , para habilitar os drones a detetarem e desviarem de veículos aéreos tripulados (aviões, helicópteros, etc.) para navegarem com segurança em espaço aéreo. A segurança contra a falha de GPS (Spoofing ou Jamming) é mitigada pela tecnologia da Connect Robotics mas exige alto nível de testes e validações para atender as exigências atuais, principalmente dos campos de batalha. .
Finalmente a aceitação e a confiança pública são essenciais. Escalar efetivamente o setor envolve milhares de voos sobre áreas povoadas e o risco percebido de queda, apesar dos sistemas de segurança como FTS e paraquedas, é uma barreira a superar. O histórico de segurança da Connect Robotics deve ser mantido impecável e a comunicação transparente para garantir a confiança regulamentar e social necessárias para que a tecnologia possa ser plenamente implementada.
PME Mag. – A Connect Robotics tem uma forte componente tecnológica aplicada à saúde, mas também aspira a servir pequenos negócios e operadores logísticos. Como equilibram o desenvolvimento de tecnologia avançada com a necessidade de soluções acessíveis e fáceis de integrar por clientes de pequenas e médias empresas?
A. M. M. – A forma como este equilíbrio é alcançado, e que constitui um diferencial competitivo, baseia-se em dois pilares fundamentais: a arquitetura tecnológica e o modelo de negócio. Em vez de focar o desenvolvimento num hardware de drone proprietário e caro, concentramo-nos no “cérebro” da operação com o nosso software e o computador de bordo.
“(…) a navegação autónoma de alta precisão e os sistemas de gestão de voo, podem ser instalados em qualquer drone industrial disponível no mercado”.
A solução é “drone-agnostic”: Isto significa que o core da tecnologia, a navegação autónoma de alta precisão e os sistemas de gestão de voo, podem ser instalados em qualquer drone industrial disponível no mercado. Isto leva à partida a uma redução de custos de aquisição pois os pequenos negócios não precisam de investir em drones de alto custo desenvolvidos especificamente para entregas. Podem adquirir drones industriais mais acessíveis e totalmente adaptados às necessidades que pretendem colmatar e transformá-los numa plataforma logística de precisão com a tecnologia da Connect Robotics.
Como o hardware de drones evolui rapidamente, o modelo drone-agnostic evita que as PME fiquem presas a tecnologia desatualizada ou precisem refazer o investimento e formação a cada seis meses. O cliente investe no nosso sistema (o “cérebro”) que pode ser transferido para novos drones, mantendo a mesma curva de aprendizagem e interface de operação.
A acessibilidade é ampliada através de um modelo de negócio flexível que elimina a necessidade de um grande investimento inicial. Em vez de vendermos a tecnologia de forma avulsa, a Connect Robotics cobra uma mensalidade (subscrição) que se ajusta às necessidades reais e à operação em causa do cliente criando uma Baixa Barreira à Entrada: Um modelo de Software as a Service (SaaS) ou Drone as a Service (DaaS) transforma o custo de capital em custo operacional. Isto torna a solução viável para orçamentos de PME.
A mensalidade engloba a solução completa: o drone integrado com o software de navegação, a certificação e autorizações, os sistemas de gestão e o apoio e atualizações. O sistema é concebido para ser adotado com apenas um pequeno treino, sem necessidade de infraestrutura complexa ou grande conhecimento especializado. A complexidade tecnológica está no software, mas a usabilidade é simples e transparente para o cliente.
Desta forma, a Connect Robotics garante que a sua tecnologia avançada não se limita a grandes corporações (como hospitais ou grandes operadores logísticos), mas está funcional, financeira e operacionalmente ao alcance dos mais pequenos, cumprindo o seu propósito de democratizar a entrega autónoma.




