Terça-feira, Julho 21, 2026
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Dupla Transição Digital: o desafio que pode definir o futuro das PME portuguesas

Por: André Silva, fundador da DIS – Digital Innovation System


Durante vários anos, a digitalização foi encarada por muitas PME como um meio de
modernizar processos internos, estabelecer presença online ou melhorar a experiência do cliente. Hoje, essa perspectiva revela-se insuficiente.

O verdadeiro desafio das empresas portuguesas reside em compreender que a
transformação digital e a sustentabilidade deixaram de constituir caminhos independentes.
A competitividade das PME dependerá, de forma crescente, da capacidade de integrar
tecnologia, eficiência operacional e responsabilidade ambiental numa estratégia coerente e
deliberada. É precisamente esta convergência que torna a dupla transição digital um dos
temas mais determinantes para o tecido empresarial português.


A digitalização já não é uma opção

Portugal tem vindo a estabelecer metas ambiciosas neste domínio. De acordo com a
Estratégia Digital Nacional, o objectivo para 2030 consiste em que 90% das pequenas e
médias empresas portuguesas alcancem, pelo menos, um nível básico de intensidade
digital. A mesma estratégia indica que, em 2023, apenas 54% das PME portuguesas tinham
atingido esse limiar, evidenciando uma distância significativa entre a ambição definida e a
realidade do tecido empresarial.

Esta distância não é exclusivamente de natureza tecnológica, é também cultural,
organizacional e estratégica. Muitas PME continuam a operar com processos manuais,
informação dispersa, reduzida automatização e decisões tomadas sem suporte de dados
estruturados. O problema não se esgota na ausência de ferramentas; reside,
frequentemente, na falta de uma visão clara sobre o modo como a tecnologia pode gerar
valor para o negócio.


Sustentabilidade também é eficiência

Quando se aborda a sustentabilidade nas PME, persiste ainda a tendência de associar o
tema exclusivamente à dimensão ambiental, reciclagem, redução de emissões ou
conformidade regulatória. Estas preocupações são legítimas e relevantes, mas a
sustentabilidade empresarial comporta uma amplitude muito maior.

Uma empresa mais sustentável é, antes de mais, uma empresa que gere melhor os seus
recursos: que reduz desperdício, elimina redundâncias operacionais, optimiza deslocações
e cadeias logísticas, controla produtos e serviços com maior rigor e toma decisões
sustentadas em dados. Neste quadro, a tecnologia assume um papel de aliada estratégica.

Um sistema integrado de gestão pode reduzir erros administrativos e eliminar retrabalho.
Plataformas colaborativas permitem diminuir reuniões desnecessárias e agilizar fluxos de
comunicação interna. A automatização liberta as equipas de tarefas repetitivas e de baixo
valor acrescentado. A inteligência artificial pode apoiar a análise de informação, a
elaboração de previsões e a organização do conhecimento organizacional. Digitalizar com
propósito é, em si mesmo, uma forma de construir empresas mais sustentáveis.


O erro está em digitalizar sem estratégia

Um dos riscos mais frequentes para as PME portuguesas consiste em adoptar tecnologia
apenas por imperativo de actualização. Adquirir software, lançar uma loja online,
implementar ferramentas de inteligência artificial ou usar plataformas colaborativas não
produz, por si só, transformação real.

A tecnologia só gera valor quando responde a problemas concretos e identificados. Antes
de escolher qualquer ferramenta, as empresas devem formular perguntas essenciais: onde
se perde mais tempo? Que tarefas são executadas manualmente de forma repetida? Que
informação se perde entre departamentos? Que processos concentram os maiores custos
operacionais? Que decisões continuam a ser tomadas com base em intuição, em
detrimento de dados?

A dupla transição começa precisamente neste diagnóstico. Só a partir de uma análise
rigorosa dos processos faz sentido definir que tecnologia adoptar e de que forma.


A inteligência artificial como acelerador

A inteligência artificial veio ampliar e acelerar esta discussão. Muitas PME reconhecem já o
potencial da IA no apoio à criação de conteúdos, no atendimento ao cliente, na análise de
dados, na gestão documental e na automatização de tarefas administrativas.

Contudo, a IA não deve ser encarada como uma solução autónoma e descontextualizada. O
seu impacto depende da existência de processos organizados, dados estruturados,
sistemas minimamente integrados e uso ético. Na ausência destas condições, a adopção de
IA pode criar uma ilusão de inovação sem resolver os problemas reais do negócio,
aumentando, inclusive, o esforço energético e ambiental sem benefícios proporcionais.

De acordo com o Relatório da Década Digital 2025 da Comissão Europeia, Portugal
enfrenta desafios relevantes tanto no uso de inteligência artificial pelas empresas como na
formação em competências digitais básicas. Este dado confirma que o tema transcende a
agenda tecnológica e se situa no centro da competitividade económica nacional.


O papel das competências digitais

A transformação digital não se concretiza apenas com investimento em tecnologia.
Concretiza-se quando as pessoas compreendem como utilizá-la de forma eficaz.
A experiência acumulada no trabalho com PME portuguesas, em contextos de consultoria,
formação e implementação de soluções digitais, evidencia uma realidade recorrente: muitas empresas manifestam vontade de mudar, mas debatem-se com a falta de clareza sobre como iniciar esse processo. A resistência à mudança raramente decorre de oposição
deliberada, decorre, na maioria dos casos, da ausência de orientação e de referências
concretas.

Quando uma equipa reconhece que uma ferramenta reduz erros, poupa tempo ou melhora
a comunicação, a adopção torna-se mais natural e sustentada. Por esse motivo, a formação
e a capacitação digital são elementos centrais desta transição. Digitalizar processos sem
preparar as pessoas que os executam compromete os resultados esperados.


Uma oportunidade para as PME portuguesas

A dupla transição digital não deve ser encarada como um encargo adicional ou uma
exigência distante da realidade das pequenas e médias empresas. Pelo contrário,
representa uma das maiores oportunidades disponíveis para reforçar a competitividade
empresarial.

Uma PME que digitaliza os seus processos ganha produtividade. Uma empresa que mede
com rigor os seus recursos reduz desperdício. Uma organização que automatiza tarefas
repetitivas liberta capacidade para atividades de maior valor estratégico. Uma equipa que
decide com base em dados decide melhor.

O impacto é tangível: redução de custos operacionais, melhoria da qualidade do serviço,
maior capacidade de adaptação e resiliência acrescida face às exigências do mercado.
Num contexto cada vez mais competitivo, as empresas que conseguirem articular
digitalização e sustentabilidade estarão mais bem posicionadas para responder a clientes,
parceiros, investidores e requisitos regulatórios em evolução.

De acordo com dados do Eurostat, em 2024, 73% das PME da União Europeia tinham
atingido, pelo menos, um nível básico de intensidade digital, ainda aquém da meta europeia de 90% prevista para 2030. Este dado demonstra que a transformação digital das PME não constitui um desafio exclusivamente nacional, mas uma prioridade estratégica partilhada por toda a Europa.


O futuro será digital, sustentável e estratégico

A dupla transição digital não é uma tendência conjuntural. É uma transformação estrutural
na forma como as empresas devem conceber o seu crescimento e a sua relevância no
mercado.

Para as PME portuguesas, o desafio não reside apenas em adoptar tecnologia, mas em
adoptá-la com propósito, tecnologia que simplifique processos, reduza desperdício, melhore
a qualidade das decisões e torne as organizações simultaneamente mais eficientes e mais
responsáveis.

Digitalizar não é apenas modernizar. Sustentabilizar não é apenas cumprir normas. A
verdadeira oportunidade está na convergência das duas dimensões: construir empresas
mais preparadas, mais competitivas e mais conscientes do seu papel no futuro da economia portuguesa.

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