Sexta-feira, Agosto 7, 2026
InícioOpiniãoEmpresa na Hora (ou na Eternidade?) - Crónica de quem tenta empreender...

Empresa na Hora (ou na Eternidade?) – Crónica de quem tenta empreender em Portugal

Por: Marta Wadsworth, fundadora The Family Door


Há quem diga que abrir uma empresa em Portugal é fácil. Há quem jure que o “Empresa na Hora” é uma maravilha da digitalização. E depois há quem, como eu, tenha efetivamente tentado fazê-lo e descoberto que entre a promessa e a realidade existe um abismo preenchido com formulários, taxas inexplicáveis e telefonemas que testam a paciência de um monge budista.

Não escrevo isto para me queixar, mas sobretudo porque acredito que, se tantos de nós passamos por isto, vale a pena falar abertamente. Porque, enquanto celebramos os nossos unicórnios e atraímos nómadas digitais com benefícios fiscais, há algo de profundamente errado quando um cidadão comum, com vontade de criar o seu projeto, se sente completamente perdido e desamparado no labirinto burocrático português.


Quando “na hora” significa “nalguns meses”

Tudo começou em setembro. Quis dar um nome próprio à minha empresa, algo para além do aborrecido “Maria Antonieta, Unipessoal Lda”. Aparentemente, isso é pedir muito. Para tal, precisava de um Certificado de Admissibilidade. €75 pagos, prazo de 10 dias anotado mentalmente.

Passados esses 10 dias, ligo. Uma hora de música de espera depois (que, garanto, não tem nada de terapêutico), alguém atende para me informar, num tom que sugeria que eu estava a ser inconveniente, que estavam com mais de um mês de atraso. Paciência, disseram-me.

Seis semanas depois, recebi finalmente uma resposta: negado. Porquê? Porque tenho de usar o meu nome pessoal, “podendo aditar-lhe alcunha ou expressão alusiva à atividade exercida”. Ora, “The Family Door” para uma empresa que visa apoiar os pais na sua parentalidade parece-me bastante alusivo à atividade, não acham? Mas aparentemente não chegava, porque teria sempre de manter o meu nome pessoal à frente, o que tirava completamente o propósito. Ou talvez não tenham percebido a referência à atividade. Das duas hipóteses, uma conclusão clara. Que a instrução não estava escrita em lado nenhum, pelo menos em português claro e acessível. Um simples aviso automático no formulário teria poupado €75, seis semanas e várias camadas da minha sanidade mental.


A rendição ao sistema (que continua a ganhar)

Reformulei a estratégia. Esquecer nomes personalizados, vou escolher um da lista pré-aprovada. Afinal, é só o nome fiscal, não a marca. Simples, certo? Andrómeda Azul, Cometa Cintilante, A Sombra Gótica. As hipóteses eram infindáveis.

Mas primeiro, consultei quem já tinha navegado estas águas antes de mim. O conselho unânime? “Não tentes online, está cheio de bugs e a aprovação pode demorar meses.” Meses que eu não tinha. Pronto, decidi ir presencialmente fazer jus ao lendário “Empresa na Hora”. Vou lá, registo tudo no mesmo dia, problema resolvido.

Ou não. Tentei marcar uma sessão presencial. A primeira disponibilidade? Dali a dois meses. No Algarve. A 300 quilómetros de casa. Para registar uma empresa “na hora”. A ironia quase dava para registar como atividade económica.

Restava enfrentar o monstro que todos me tinham avisado para evitar: o sistema online. E aqui, meus amigos, é onde a coisa se torna verdadeiramente surrealista. O sistema é um labirinto de páginas mal desenhadas, instruções em “burocratês” avançado e mensagens de erro crípticas. Os bugs que me tinham avisado? Confirmei todos, em primeira mão. Honestamente, sem inteligência artificial a ajudar-me a decifrar algumas instruções, ainda estaria presa na página três de quarenta e sete.

Horas depois, preencho tudo. Pago “urgência” (sem saberem dizer-me o que isso significa em termos de prazo). O pagamento é processado. E depois… nada. Nenhum email, nenhuma confirmação, nenhum registo visível. Apenas a certeza de que o dinheiro saiu da conta.

Melhor ainda: o processo tinha desaparecido do sistema. Por completo. Chamei a minha contabilista, que neste ponto já tinha assumido o controlo da operação, para eu manter alguma sanidade mental. A reação dela diz tudo: “Já vi muitos erros, mas este é a primeira vez.” Mais várias horas em linha de espera para o IRN (obrigada, equipa, pela paciência sobre-humana), até confirmarem que encontraram as coisas “do lado de lá”. Como eu tinha pago um pequeno porquinho de ouro pela urgência, garantiram-me que teria confirmação com alguma rapidez. Que, eventualmente, surgiu.


O grand finale: a morada mágica

O processo continuou, entre telefonemas intermináveis ao IRN e a ajuda preciosa da minha contabilista. Finalmente, conseguimos a certidão permanente. Mas o universo ainda não tinha acabado comigo: a morada estava errada. Não ligeiramente errada, completamente errada, da rua de trás. Uma morada que eu nem sequer conhecia. Magia pura do sistema de validação de códigos postais.

Solução? Pagar mais €170 (já vão €685 no total, para quem está a contar) para corrigir um erro que nunca cometi. Porque provar que foi erro do sistema? Boa sorte com isso.


O que realmente precisamos mudar

Não partilho esta saga apenas para desabafar. Partilho porque isto não pode continuar assim. Porque, quando amigos me dizem “devias ter ido com um advogado, eles resolvem tudo mais rápido”, sinto-me traída pelo sistema. Talvez até tivesse ficado mais barato. Mas onde está a acessibilidade? Onde está a promessa de que “qualquer pessoa” pode começar o seu negócio?

Se queremos realmente fomentar o empreendedorismo em Portugal, precisamos de repensar algumas coisas:

Um sistema feito para humanos reais: Não para quem nasceu a saber a diferença entre uma certidão permanente e uma provisória, ou que decora artigos do código comercial ao pequeno-almoço. Precisamos de linguagem clara, processos intuitivos, avisos automáticos que previnam erros básicos.

Testes, testes, testes: Já chega de sistemas que dão erro porque a morada tem “mais de 9 caracteres” ou que mudam moradas por magia negra. Isto não é aceitável em 2025.

Apoio humanizado e acessível: Uma linha de ajuda que esteja realmente lá para ajudar. Onde não seja necessário ter um advogado ou uma contabilista excecional só para navegar o básico.

Simplificação, não apenas digitalização: Digitalizar um processo bafiento e complexo não o torna melhor, torna-o num processo bafiento e complexo… online. Precisamos repensar o processo de raiz.

Alterações simples e digitais: Não consigo entender porque mudar uma morada ou capital social requer processos presenciais, pagamentos extra e esperas intermináveis. Na Dinamarca, comprei e vendi uma casa sem sair do sofá. Aqui, mudar uma morada numa certidão parece missão impossível.

Atendimento que não pareça um favor: Podemos, por favor, ser atendidos com amabilidade e real vontade de ajudar? Estamos a falar de pessoas que estão a tentar realizar um sonho, a criar emprego, a contribuir para a economia. Merecem apoio, não olhares de enfado.


E a seguir?

Modernizar o empreendedorismo em Portugal vai para além de celebrações e holofotes. Passa por tornar fundos e linhas de investimento realmente acessíveis, com formulários claros que não remetam para o “artigo 8º do Diário da República de 1987, alínea b)”.

Passa por pensar nos portugueses também, não só nos estrangeiros que nos procuram. Jovens, reformados, mães, pais. Porque nem todas as startups vão ser (nem devem ser) tecnológicas. O tecido empresarial forte é diverso, local, comunitário.

Passa por criar redes reais de apoio, workshops práticos sobre gestão financeira, operações, estratégia. Comunidades onde pequenos e médios empresários troquem experiências e deem feedback ao sistema sobre o que realmente funciona.

Continuo a acreditar em Portugal. Continuo a acreditar no potencial da nossa economia, da nossa criatividade, da nossa resiliência. Mas, se queremos que mais pessoas se lancem nesta aventura, temos de tornar o caminho menos parecido com um episódio de sobrevivência na selva burocrática.

Entretanto, vou continuar a tentar. Porque se há coisa que estes meses me ensinaram é que, aparentemente, tenho paciência para isto. Ou então sou dessas pessoas que insistem em atravessar portas, mesmo depois de bater com a cabeça três vezes. Provavelmente, as duas coisas.

PODE GOSTAR DE LER
Continue to the category
PUB

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

NEWSLETTER

PUB
PUB

SUSTENTABILIDADE

Continue to the category