InícioDestaqueEmpresas ainda falham no apoio à infertilidade: especialistas pedem mais medidas

Empresas ainda falham no apoio à infertilidade: especialistas pedem mais medidas

Por: Ana Marisa Vieira


As empresas portuguesas continuam pouco preparadas para apoiar colaboradores em processos de infertilidade, uma realidade que afeta cerca de 15% da população em idade reprodutiva. O alerta é de Cláudia Vieira, presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade, que defende uma abordagem mais empática e políticas internas ajustadas a um problema com impacto crescente no mercado de trabalho.

“Há ainda profissionais que escondem que estão em tratamentos por receio de perder o emprego ou de verem travada a progressão na carreira”, afirma a responsável em entrevista à PME Magazine, sublinhando que a infertilidade, além de uma condição médica, implica um elevado desgaste emocional e exige tempo para consultas, tratamentos e recuperação.


Falta de compreensão agrava impacto no trabalho

Para além do desgaste emocional, os tratamentos implicam tempo, disponibilidade e, muitas vezes, custos elevados. Ainda assim, o contexto laboral nem sempre acompanha esta realidade.

“Há aqui uma série de fatores em que muitas das vezes não favorecem esta abertura, esta honestidade, esta franqueza entre o próprio colaborador e a própria entidade”, explica.

A consequência é um ambiente de pressão silenciosa, onde os trabalhadores evitam expor a sua condição. “Isto é uma doença que é silenciosa, vivida muitas das vezes numa solidão imensa.”


Empresas começam a dar sinais, mas ritmo é lento

Apesar de alguns avanços, a evolução é considerada insuficiente. “Eu acho que as coisas estão devagarinho, mesmo muito devagarinho a evoluir no sentido positivo”, admite.

Entre as boas práticas já identificadas estão a flexibilização de horários, apoio durante tratamentos e medidas de conciliação entre vida pessoal e profissional. Ainda assim, estas iniciativas estão longe de ser generalizadas.

Para a associação, o envolvimento das empresas é crítico num país com baixa natalidade. “Nós estamos a falar de um grupo de pessoas que está disponível e quer muito ser pai e ser mãe, mas que não têm as condições para o efetivar.”


Infertilidade afeta 1 em cada 6 casais

Em Portugal, estima-se que existam cerca de 300 mil casais inférteis, ou seja, cerca de 15% da população em idade reprodutiva. A infertilidade “afeta um em cada 6 casais” e tem vindo a aumentar, em parte devido ao adiamento da parentalidade.

Do ponto de vista clínico, um casal é considerado infértil após 12 meses de tentativas sem sucesso ou seis meses, no caso de mulheres com mais de 35 anos.

Criada em 2006, a Associação Portuguesa de Fertilidade disponibiliza apoio psicológico, jurídico e informativo, funcionando como complemento ao sistema de saúde.

O objetivo é claro: “poderem desabafar. Sabem que não vai haver julgamentos.” A associação tem também reforçado iniciativas de literacia em saúde reprodutiva e formação de profissionais, defendendo uma abordagem mais integrada.


Consignação do IRS é determinante

O financiamento depende em grande parte da consignação de IRS. “Para nós, associação que recebe esta consignação, é a diferença entre conseguimos ou não conseguimos apoiar mais.”

E deixa um apelo final: “Estamos convosco. Estamos aqui para vos ajudar.”

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