InícioCarreirasEstudo mostra que jovens se sentem menos preparados para o trabalho

Estudo mostra que jovens se sentem menos preparados para o trabalho

A gestão do tempo e as competências profissionais são as áreas em que os estudantes identificam maior distância entre aquilo que consideram ser exigido pelos empregadores e a sua própria preparação para o mercado de trabalho. A conclusão resulta de um estudo desenvolvido por investigadores do REMIT (Research on Economics, Management and Information Technologies), da Universidade Portucalense, que analisaram as perceções de 384 estudantes de economia e gestão sobre 22 competências transversais.

A discussão sobre a preparação dos jovens para o futuro profissional ganhou novo contexto com a divulgação dos resultados do PISA 2025, que avalia conhecimentos, competências e atitudes de alunos de 15 anos. É neste debate sobre a preparação para a vida adulta e profissional que ganha relevância o estudo da Universidade Portucalense.

O estudo, publicado em fevereiro de 2026 na revista científica Industry and Higher Education, procurou perceber até que ponto as competências que os estudantes consideram ser esperadas pelos empregadores correspondem à avaliação que fazem das suas próprias capacidades. Os resultados mostram uma diferença estatisticamente significativa entre estas duas perceções.

Numa escala de um a cinco, os estudantes atribuíram uma média de 4,40 às competências que consideram ser esperadas pelos empregadores, enquanto avaliaram as suas próprias competências em 4,08. Quando questionados sobre a capacidade de corresponder às expectativas que atribuem ao mercado de trabalho, a média desceu para 4,04.

A diferença é particularmente evidente na gestão do tempo. Os estudantes atribuem a esta competência uma importância média de 4,61 entre aquilo que consideram ser esperado pelos empregadores, mas avaliam a sua própria capacidade em 3,95.

Nas competências profissionais, o desfasamento é ainda maior: a expectativa atribuída aos empregadores é de 4,22, enquanto a autoavaliação fica nos 3,48. O estudo identifica ainda diferenças relevantes no pensamento estratégico e nas competências de apresentação.

Na metodologia do estudo, os investigadores sublinham, contudo, que os resultados não permitem concluir que os empregadores considerem efetivamente que os estudantes têm estas lacunas, uma vez que o estudo mede a perceção dos próprios estudantes sobre aquilo que as empresas procuram.

A experiência profissional aumenta confiança

Entre os estudantes com mais de seis meses de experiência profissional, a avaliação das competências profissionais chega a 4,19, enquanto entre aqueles que não têm experiência profissional fica nos 3,13.

As diferenças não se limitam às competências profissionais. Os estudantes com experiência também apresentam avaliações mais elevadas das suas capacidades de comunicação, pensamento crítico e estratégico, planeamento e organização, apresentação e criatividade. A diferença é particularmente expressiva nas competências profissionais, onde os autores identificam um efeito de grande dimensão.

Os investigadores alertam, no entanto, que os resultados não permitem estabelecer uma relação de causalidade entre ter experiência profissional e desenvolver estas competências. Os dados sugerem, antes, uma associação entre o contacto com o mundo do trabalho e uma perceção mais elevada das próprias capacidades.

Esta relação é relevante num contexto em que quase metade dos participantes no estudo não tinha experiência profissional. Dos 384 estudantes inquiridos, 47,40% não tinham experiência, enquanto 19,53% tinham até seis meses, 11,46% entre mais de seis meses e menos de um ano e 19,79% mais de um ano de experiência.

Trabalho é visto como espaço de aprendizagem

A importância atribuída à experiência profissional também surge quando os estudantes identificam os contextos onde consideram que as soft skills são desenvolvidas.

Segundo os dados divulgados pela UPT, 89,74% dos estudantes consideram o trabalho um espaço de desenvolvimento destas competências, enquanto 73,61% atribuem esse papel à escola.

Para Margarita Carvalho, uma das autoras do estudo, os resultados não significam que os estudantes estejam desprovidos de competências, mas revelam uma diferença entre a confiança que têm nas próprias capacidades e a fasquia que associam ao mercado de trabalho.

“Os resultados não retratam estudantes sem competências. Mostram, antes, que existe uma confiança inferior à fasquia que os próprios estudantes associam ao mercado de trabalho”, explica a investigadora.

A autora considera que a preparação para a vida profissional não depende apenas do conhecimento adquirido durante o percurso académico, mas também da capacidade de o aplicar em situações concretas, comunicar e receber feedback.

Ensino superior e empresas podem aproximar expectativas

Os autores defendem um maior alinhamento entre os currículos do ensino superior e as exigências do mercado de trabalho. Entre as propostas apresentadas estão a integração das competências identificadas nos programas académicos através de aprendizagem experimental, atividades baseadas em projetos e módulos interdisciplinares, bem como o reforço dos serviços de orientação profissional.

“Mais do que transmitir conhecimento, importa criar oportunidades para que possam praticar competências, testar as suas capacidades e receber feedback”, defende Margarita Carvalho, professora auxiliar do Departamento de Economia e Gestão da Universidade Portucalense e uma das autoras do estudo.

O estudo analisou 22 competências transversais, entre as quais comunicação, pensamento crítico, liderança, trabalho em equipa, pensamento estratégico, gestão do tempo, planeamento e organização, apresentação, resolução de problemas, criatividade, flexibilidade, gestão do stress e inteligência emocional. A investigação baseou-se num questionário aplicado presencialmente, entre outubro de 2023 e janeiro de 2024, a 384 estudantes de licenciatura, mestrado e doutoramento de cursos de Economia e Gestão de uma instituição portuguesa de ensino superior.

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