Terça-feira, Julho 21, 2026
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Financiamento especializado continua ausente das políticas públicas para as PME

Por: Luís Augusto, presidente da ALF – Associação Portuguesa de Leasing, Factoring e Renting


A 27 de junho assinala-se o Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, uma iniciativa das Nações Unidas que reconhece o papel determinante destas organizações no crescimento económico. Em Portugal, onde as PME representam 99,9% do tecido empresarial, asseguram mais de 76% do emprego e geram 67,7% do valor acrescentado (51,8% na UE), a relevância deste segmento da economia é inquestionável.

Esta data deve, por isso, constituir não apenas um momento de celebração, mas também uma oportunidade para refletir sobre os desafios que persistem e sobre as condições necessárias para reforçar a competitividade das empresas portuguesas.

Muito se discute sobre competitividade, inovação, sustentabilidade e transição energética. Menos frequente é o debate sobre uma questão igualmente decisiva: de que forma as empresas financiam esse caminho.

A evolução recente do mercado demonstra a crescente importância das soluções de financiamento especializado na resposta às necessidades das empresas. O Factoring registou um crescimento de 12,7% em 2025, financiando mais de 51 mil milhões de euros em faturas, o Leasing ultrapassou os 3,1 mil milhões de euros em ativos financiados no último ano e o Renting continua a consolidar-se como uma solução essencial para a mobilidade empresarial e para a renovação sustentável de frotas, tendo adquirido mais de 42 mil viaturas ligeiras.

Estes números traduzem mais do que o dinamismo de um setor. Refletem a procura crescente por instrumentos capazes de proporcionar liquidez, flexibilidade financeira, capacidade de investimento e uma gestão mais eficiente dos recursos empresariais.

Apesar desta realidade, estas soluções continuam frequentemente ausentes das políticas públicas de apoio às PME.

Importa reconhecer o esforço realizado nos últimos anos no reforço dos instrumentos públicos de financiamento empresarial, nomeadamente através do Banco Português de Fomento e de várias linhas de garantia e incentivo. Trata-se de uma evolução positiva e relevante para o tecido empresarial nacional. Contudo, subsiste uma abordagem excessivamente centrada no crédito bancário tradicional, que nem sempre responde da forma mais adequada às necessidades específicas das empresas.

O caso do Factoring à Exportação é particularmente elucidativo. Em 2025, este instrumento financiou 5,6 mil milhões de euros em exportações nacionais, assumindo-se como um importante facilitador da internacionalização das PME portuguesas. Ainda assim, muitas linhas de apoio à exportação continuam sem enquadrar explicitamente esta solução.

O mesmo sucede com o Leasing e o Renting. Num contexto em que a descarbonização das empresas é apresentada como prioridade estratégica nacional e europeia, continua a existir um desfasamento entre alguns incentivos públicos e a realidade empresarial. Em muitos casos, os mecanismos de apoio à eletrificação automóvel privilegiam modelos de aquisição direta, quando para milhares de PME, o Leasing ou o Renting são precisamente as soluções mais eficientes para acelerar a transição energética sem comprometer a tesouraria ou a capacidade de investimento.

A questão, por isso, não é apenas financeira. É também uma questão de equidade e de modernização das políticas públicas. As PME portuguesas apresentam perfis, necessidades e modelos de negócio distintos. Os seus instrumentos de financiamento devem refletir essa diversidade. Persistir numa abordagem excessivamente centrada em soluções tradicionais significa ignorar a evolução do mercado e restringir o acesso das empresas às ferramentas que melhor servem os seus objetivos de crescimento e competitividade.

O setor não pede tratamento preferencial, mas sim reconhecimento. Defendemos que o Leasing, o Factoring e o Renting deixem de ser vistos como instrumentos periféricos e passem a estar plenamente integrados nos programas operacionais, nas linhas de garantia mútua e nos incentivos públicos ao investimento, à exportação e à transição energética.

As empresas portuguesas já demonstraram capacidade de adaptação, inovação e resiliência. O financiamento especializado também já demonstrou a sua relevância. O próximo passo exige que as políticas públicas acompanhem esta evolução e integrem estas soluções de forma mais consistente e estratégica.

Neste Dia Internacional das PME, importa recordar que a competitividade das empresas depende também da diversidade e da qualidade dos instrumentos financeiros ao seu dispor. Apoiar as PME é também assegurar que dispõem de todas as soluções necessárias para crescer, investir e competir numa economia cada vez mais exigente e global.

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