Segunda-feira, Agosto 17, 2026
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“Há terrenos que precisam de ser geridos e há animais que precisam de território e alimento” – Animob

Por: Ana Marisa Vieira


Todos os anos, Portugal investe milhões de euros na limpeza de terrenos e no combate aos incêndios rurais. Apesar desse esforço, o abandono do território, a degradação dos solos e a acumulação de combustível vegetal continuam a representar um dos maiores desafios ambientais e económicos do país.

Mas e se os rebanhos deixassem de ser vistos apenas como uma atividade pecuária para passarem a desempenhar um papel estratégico na gestão do território? É essa a visão da Animob, uma startup portuguesa que utiliza o pastoreio planeado como ferramenta para regenerar solos, reduzir o risco de incêndio, promover a biodiversidade e criar valor para proprietários, municípios e promotores de energias renováveis.

A empresa, sediada em Mafra, parte de um princípio simples: antes de introduzir animais num terreno, é necessário compreender as suas necessidades ecológicas e definir um plano de gestão adaptado a cada realidade. O resultado é um modelo que combina conhecimento técnico, tecnologia e pecuária para transformar um custo recorrente de manutenção numa estratégia de regeneração ambiental.

Nesta entrevista à PME Magazine, João Maria Xavier, fundador da Animob, explica como nasceu este projeto, os resultados já alcançados no terreno e porque acredita que a pecuária pode assumir um papel central nas políticas de prevenção de incêndios e de desenvolvimento rural em Portugal.

 

PME Magazine (PME Mag.) – A Animob apresenta a pecuária como parte da solução para os desafios climáticos. O que faz a empresa e de que forma utiliza os rebanhos para regenerar solos e gerir o território?

João Maria Xavier, fundador Animob – Na Animob, trabalhamos na gestão regenerativa do território, combinando ecologia, operação no terreno, tecnologia e animais. Não partimos do animal; partimos do território. Começamos por perceber o contexto de
cada área, estabelecer uma baseline ecológica e operacional e identificar o que o terreno precisa, em que momento e com que intensidade. Só depois avaliamos que combinação de ferramentas faz sentido, seja pastoreio, gestão mecânica complementar, recuperação de habitat, sementeiras ou outras medidas, e em que condições os animais devem ser integrados.

Ligamos proprietários, gestores de ativos e produtores pecuários, mas o nosso trabalho vai além dessa articulação. Em infraestruturas solares ou em contexto municipal, começamos por diagnosticar o território, mapear constrangimentos e oportunidades e desenhar um plano de gestão ajustado a cada realidade. Em vez de tratar a limpeza do terreno como um custo recorrente exclusivamente mecânico ou químico, procuramos transformá-la num investimento regenerativo, com retorno ao nível do solo, da vegetação, da biodiversidade e da economia local.

Na prática, os rebanhos funcionam como uma ferramenta de gestão territorial integrada num sistema mais amplo. 

Ajudam a controlar a vegetação, reduzir a carga de combustíveis finos, distribuir nutrientes, melhorar a infiltração da água, apoiar a recuperação do coberto herbáceo e criar mosaicos ecológicos mais funcionais. Quando o pastoreio é bem planeado e monitorizado, deixa de ser apenas uma atividade produtiva e passa a ser também um
instrumento concreto de regeneração e gestão do território.

Infraestruturas solares da Animob (Foto Divulgação)

 

PME Mag. – Como surgiu a ideia de criar a Animob? Que problema identificaram no terreno que vos levou a desenvolver esta solução?

A Animob nasceu de uma constatação simples: há terrenos que precisam de ser geridos e há animais que precisam de território e alimento, mas muitas vezes falta uma estrutura que torne esta articulação possível, com confiança, previsibilidade e profissionalismo.
Houve um episódio fundador, em Mafra, que nos marcou. De um lado da estrada estava um pastor com um pequeno rebanho num terreno esgotado; do outro, havia um pasto verde e abandonado, sem uso. A pergunta parecia óbvia: porque não levar os animais para o outro lado? A resposta revelou o verdadeiro problema: falta de confiança entre as partes, ausência de seguro, inexistência de infraestruturas e falta de tempo para coordenar
tudo isto.
 
Percebemos então que não bastava defender o pastoreio. Era preciso criar uma entidade capaz de o organizar, enquadrar e escalar. A Animob surge precisamente para responder a esse vazio, juntando matchmaking, planeamento técnico, logística operacional, monitorização e reporte.

PME Mag. – Desde a criação da empresa, que resultados concretos já conseguiram alcançar? Quantos hectares estão atualmente sob gestão, quantos produtores participam e quais os impactos observados na biodiversidade, nos solos ou na produtividade?

Desde a criação da Animob, o mais importante foi validar o modelo em terreno real, com clientes exigentes e em contextos operacionais onde a gestão da vegetação é uma necessidade crítica.

“(…) Alcoutim, no Algarve, num complexo solar com quatro parques e cerca de 250 hectares, envolvendo dois produtores e um efetivo entre 400 e 450 ovinos”.

Hoje, o caso operacional mais avançado é Alcoutim, no Algarve, num complexo solar com quatro parques e cerca de 250 hectares, envolvendo dois produtores e um efetivo entre 400 e 450 ovinos. Antes disso, o piloto inicial no Pereiro arrancou com 27 hectares e 318 ovelhas. Nesse piloto, conseguimos pastorear até 90% da biomassa do terreno e reduzir em cerca de 50% a necessidade de corte mecânico. Na fase seguinte do projeto, a ambição
passou a ser ter mais de 50% da área gerida apenas por pastoreio, com menor intervenção mecânica anual, recuperação do coberto herbáceo nativo e uma lógica de central solar como refúgio de biodiversidade.

A redução da necessidade de corte mecânico e a sua coordenação com o pastoreio tiveram efeitos muito concretos. Um exemplo foi a diminuição do risco de destruição de ninhos de caça numa fase crítica do seu desenvolvimento. Dentro das centrais solares, a vegetação tem de ser controlada antes do verão, para prevenir incêndios e manter a eficiência energética. Muitas espécies, como coelhos e perdizes, usam estes parques como
abrigo. Quando o corte mecânico coincide com a primavera e o pastoreio não fez uma primeira passagem, muitos ninhos ficam escondidos e acabam por ser destruídos com a vegetação.

Do ponto de vista do solo e da vegetação, temos observado melhor distribuição de nutrientes, menor pressão mecânica repetitiva e condições mais favoráveis a uma gestão ecológica contínua. Para nós, a renovação contratual plurianual foi um sinal forte de validação técnica e comercial do modelo. Em paralelo, estamos a evoluir de uma lógica de simples controlo de vegetação para uma abordagem mais completa de gestão agroecológica. É isso que se vê no trabalho que estamos a desenvolver no Projeto Sophia, onde a ambição já não é apenas manter a biomassa controlada, mas desenhar sistemas que articulem solo, vegetação, água, monitorização ecológica, integração de raças autóctones e valorização territorial.

“(…) estamos a estruturar um segundo eixo estratégico muito relevante para a empresa: o modelo municipal”.

Ao mesmo tempo, estamos a estruturar um segundo eixo estratégico muito relevante para a empresa: o modelo municipal. Esse modelo parte de uma leitura integrada do território público e envolvente, avaliando parcelas, continuidades territoriais, água, acessos, carga combustível, produção pecuária local, enquadramento legal e viabilidade económica, para perceber onde faz sentido operar com exploração própria, onde faz sentido prestar um serviço de gestão territorial e onde é necessário combinar diferentes ferramentas.

Estamos, por isso, numa fase de crescimento sustentado, com contratos assinados com promotores de parques solares e explorações agrícolas, e com a convicção de que a Animob pode crescer tanto através de sistemas agroecológicos integrados em infraestruturas de energia renovável como através de programas municipais de
gestão integrada do território.

 

Infraestruturas solares da Animob (Foto Divulgação)

 

PME Mag. – Muitos proprietários enfrentam dificuldades na limpeza e manutenção dos terrenos, sobretudo em zonas rurais com escassez de mão de obra. De que forma os rebanhos podem substituir ou complementar os métodos tradicionais de gestão da vegetação?

Os rebanhos podem, em muitos casos, substituir uma parte importante da gestão mecânica repetitiva e, noutros, complementá-la de forma muito mais eficiente. Nem toda a vegetação deve ser tratada da mesma forma, e esse é precisamente o ponto. Há áreas dominadas por herbáceas em que o pastoreio pode assumir a função principal de manutenção. Há outras em que o corte mecânico continua a ser necessário, por exemplo em manchas lenhosas mais densas, em fases pós-construção ou em microzonas com constrangimentos operacionais. O que muda é que deixamos de gerir tudo da mesma
maneira e passamos a combinar ferramentas com base em diagnóstico, calendário ecológico e objetivos de longo prazo.

“O produtor deixa de ser apenas criador de gado e passa também a integrar uma solução de gestão territorial”.

Isto é particularmente relevante em zonas rurais com pouca mão de obra. Em vez de depender exclusivamente de equipas, máquinas e janelas curtas de intervenção, passamos a trabalhar com um modelo vivo e adaptativo, em que os animais prestam um serviço ecológico mensurável, reduzem custos de alimentação para o produtor e ajudam a criar uma manutenção mais contínua do território. O produtor deixa de ser apenas criador de gado e passa também a integrar uma solução de gestão territorial.


PME Mag. – Portugal aproxima-se de mais uma época crítica de incêndios florestais. De que forma o pastoreio planeado pode contribuir para reduzir a carga combustível e diminuir o risco de propagação dos fogos?

O pastoreio planeado pode ter um papel muito relevante na redução da carga combustível, mas a sua importância vai além da limpeza pontual da vegetação. Para perceber isso, é preciso olhar para o funcionamento ecológico do sistema e para a diferença entre sobrepastoreio e maneio holístico.

Durante uma parte significativa da nossa história recente, organizámos a pecuária como se os animais não precisassem de se deslocar à procura de alimento. Passámos a mantê-los no mesmo terreno durante longos períodos e, muitas vezes, a alimentá-los no mesmo local ao longo de todo o ano. O problema é que esta permanência tende a provocar sobrepastoreio. Isto não significa apenas ter demasiados animais; significa, muitas vezes, que as mesmas plantas são comidas repetidamente antes de conseguirem recuperar.

“Essas plantas deixam de conseguir completar o seu ciclo vegetativo, aprofundar raízes, florir e libertar semente”.

Quando isto acontece, os animais consomem precisamente as plantas de que mais gostam assim que estas começam a rebentar. Essas plantas deixam de conseguir completar o seu ciclo vegetativo, aprofundar raízes, florir e libertar semente. Ao mesmo tempo, começam a ganhar vantagem as espécies menos palatáveis ou não comestíveis, o solo perde cobertura funcional e o sistema torna-se mais frágil, mais pobre e mais vulnerável ao fogo, à erosão e à seca.

O maneio holístico procura inverter essa lógica, simulando um comportamento mais próximo do que acontecia nos ecossistemas naturais. Os animais deslocam-se em grupo, protegem-se mutuamente, competem pelo alimento disponível, permanecem pouco tempo em cada parcela e só regressam depois de um período longo de descanso. O objetivo não é deixar animais permanentemente no terreno, mas usar a sua presença de forma intensa, breve e planeada, seguida de tempo suficiente para regeneração.

Este ciclo tem vários efeitos positivos. Em primeiro lugar, permite que a vegetação volte a crescer, aprofunde raízes, recupere vigor e chegue à fase de floração e germinação. Em segundo lugar, concentra matéria orgânica no terreno através de fezes, urina e pisoteio controlado, alimentando a microbiologia do solo, que transforma essa matéria em minerais e nutrientes disponíveis para a vida do solo. Em terceiro lugar, melhora a qualidade da
pastagem e a cobertura do solo.

Com mais matéria orgânica e maior atividade biológica, o solo ganha estrutura e forma uma camada mais esponjosa, o húmus, capaz de infiltrar e reter mais água, o que ajuda a reduzir secas, erosão, escorrência superficial e até situações de inundação. Um solo mais estável sustenta uma vegetação mais estável; e uma vegetação mais estável cria melhores condições para o aparecimento de mais biodiversidade.

“(…) quando falamos de prevenção de incêndios, não falamos apenas em retirar combustível. Falamos em recuperar o funcionamento ecológico do território”.

É por isso que, quando falamos de prevenção de incêndios, não falamos apenas em retirar combustível. Falamos em recuperar o funcionamento ecológico do território. Mais biodiversidade significa mais matéria orgânica disponível, mais organismos capazes de a decompor, mais relações funcionais entre solo, plantas, insetos, aves e mamíferos e, no fundo, um sistema progressivamente mais resiliente.

No setor florestal, nos corredores de energia e também em programas municipais, esta abordagem é particularmente interessante porque permite combinar prevenção de incêndio, gestão ecológica e conformidade ambiental. Em vez de fazermos apenas uma intervenção pontual antes da época crítica, podemos construir uma lógica de manutenção contínua, com monitorização, ajustamentos ao longo do tempo e criação de mosaicos
territoriais mais resilientes e previsíveis.

 

Infraestruturas solares da Animob (Foto Divulgação)

 

PME Mag. – Olhando para o futuro, qual é a vossa ambição para os próximos cinco anos? Acreditam que a gestão do território através de rebanhos pode tornar-se uma ferramenta estruturante das políticas de prevenção de incêndios e desenvolvimento rural em Portugal?

A nossa ambição para os próximos cinco anos é clara: queremos provar dois modelos replicáveis à escala.

O primeiro é o desenvolvimento de sistemas agroecológicos integrados em infraestruturas solares. Os parques solares utility scale dependem dos pontos de ligação à rede da REN, o que tende a concentrar projetos em determinadas zonas do país e a criar clusters de ativos com desafios ecológicos e operacionais semelhantes. A nossa visão é aproveitar essa concentração para desenvolver, nos próximos cinco anos, um verdadeiro cluster
ecológico no Algarve, onde seja possível gerir vários parques com uma lógica territorial, contínua, monitorizada e mensurável.

O segundo é o modelo municipal, que para nós é igualmente estratégico. Queremos desenvolvê-lo nas regiões entre Mafra, Santarém e Castelo Branco, trabalhando com municípios e outros atores territoriais para transformar custos recorrentes de gestão de combustível e manutenção em sistemas integrados de gestão do território. Isso implica diagnóstico técnico, leitura de clusters operacionais, integração de rebanhos locais, exploração própria onde fizer sentido, prestação de serviços onde for mais eficiente e uma lógica de planeamento progressivo baseada em dados.

“É mostrar que a pecuária, quando bem desenhada, pode ser uma ferramenta moderna de gestão do território, prevenção de risco, regeneração ecológica e revitalização rural”.

No fundo, o objetivo não é apenas crescer em hectares. É mostrar que a pecuária, quando bem desenhada, pode ser uma ferramenta moderna de gestão do território, prevenção de risco, regeneração ecológica e revitalização rural. Acredito sinceramente que esta abordagem pode tornar-se estruturante em Portugal, não como solução única, mas como parte de uma nova geração de políticas públicas e privadas que olhem para o solo, a
vegetação, a água, a biodiversidade e a atividade económica como dimensões interligadas.

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