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“Honrar a herança industrial e artesanal da cerâmica portuguesa” – S. Bernardo

Por: Ana Marisa Vieira


Nascida da vontade de preservar um legado industrial em risco, a S. Bernardo é um exemplo de continuidade e reinvenção no universo da cerâmica portuguesa. Fundada em 2013 para dar seguimento à histórica Cerâmicas S. Bernardo, a empresa manteve os postos de trabalho e transportou para o presente um saber-fazer acumulado ao longo de décadas.

A partir da região Oeste, a marca construiu uma proposta centrada na personalização e na inovação aplicada ao segmento B2B internacional. Com 98% das vendas destinadas à exportação, a S. Bernardo trabalha sobretudo com distribuidores e lojas de decoração, desenvolvendo coleções feitas à medida.

Em entrevista à PME Magazine, o Eng. Fernando Perpétua, Elsa Almeida, Jorge Horta, da administração da empresa, levam-nos aos bastidores de uma fábrica de quase 5000 m², onde a produção alia processos tradicionais a abordagens tecnológicas pioneiras.

A cerâmica S. Bernardo trabalha sobretudo o segmento B2B internacional (Foto: Divulgação)


PME Magazine (PME Mag.) – Como surgiu a S. Bernardo?

A Perpétua, Pereira & Almeida, Lda. (PPA) foi fundada em janeiro de 2013 por Elsa Almeida, Jorge Horta e Fernando Perpétua, com um objetivo muito claro: dar continuidade à atividade da histórica Cerâmicas S. Bernardo, fundada em 1981, que se encontrava então num processo de insolvência.

“A fundação da PPA permitiu manter postos de trabalho que estavam em risco”

Mais do que criar uma nova empresa, tratou-se de preservar um legado. A fundação da PPA permitiu manter postos de trabalho que estavam em risco e assegurar a continuidade do saber-fazer cerâmico acumulado ao longo de mais de 35 anos. A marca S. Bernardo foi adquirida e passou a ser utilizada como nome comercial da empresa, simbolizando esta ponte entre tradição e futuro.

Desde então, a visão tem sido clara: honrar a herança industrial e artesanal da cerâmica portuguesa, enquanto se aposta continuamente na inovação, no design e na adaptação às exigências do mercado contemporâneo, sobretudo no segmento B2B internacional.


PME Mag. – A inovação tem sido um eixo central na vossa proposta de valor. Quais são atualmente as tecnologias, metodologias ou abordagens que mais diferenciam a S. Bernardo no mercado?

A criatividade, a inovação e o design sempre foram — e continuam a ser — os pilares centrais da S. Bernardo. Estes valores, aliados a uma forte componente de investigação e desenvolvimento, ajudam a explicar quem somos e o que nos distingue.

Trabalhamos com uma enorme diversidade de peças em faiança e porcelana, tanto ao nível das formas como dos acabamentos e decorações. Essa diversidade é possível porque cada projeto é desenvolvido de forma personalizada, em estreita colaboração com o cliente. Não trabalhamos soluções standardizadas: cada coleção é pensada à medida, desde o conceito inicial até ao produto final.

“Na Claraval, exploramos tecnologia avançada, como a transformação de ondas sonoras em formas tridimensionais, aplicadas depois à produção cerâmica tradicional”.

Nos últimos anos, este ADN inovador encontrou também uma nova expressão com o lançamento da Claraval, uma marca da empresa que representa, de certa forma, o pináculo da nossa abordagem à inovação. Na Claraval, exploramos tecnologia avançada, como a transformação de ondas sonoras em formas tridimensionais, aplicadas depois à produção cerâmica tradicional. É um exemplo claro de como combinamos tecnologia, arte e indústria de forma pioneira.

Barro a ser trabalhado na Cerâmica S. Bernardo
Barro a ser trabalhado na Cerâmica S. Bernardo (Foto Divulgação)


PME Mag. – Como é que a zona geográfica onde estão inseridos se manifesta nas vossas coleções?

A ligação ao território é muito importante para nós. A S. Bernardo está inserida na região Oeste, uma zona rica em património natural, histórico e cultural — conhecida pelas suas praias, paisagens naturais e identidade muito própria — e essa influência manifesta-se, de forma subtil, em várias coleções, seja nas paletas cromáticas, nas texturas ou nas referências formais.

“A nossa primeira coleção, a Coleção Mosteiro, nasceu de uma colaboração com a cantora Sónia Tavares (…)”

Na Claraval, essa ligação ao território torna-se ainda mais explícita. A nossa primeira coleção, a Coleção Mosteiro, nasceu de uma colaboração com a cantora Sónia Tavares, natural de Alcobaça, e teve como ponto de partida a gravação da sua voz no próprio Mosteiro de Alcobaça. O som, o espaço e o património fundem-se para dar origem a peças que transportam consigo a memória e a identidade do lugar onde foram criadas.


PME Mag. – Como é feito o processo de criação de uma coleção, desde o conceito à peça pronta para venda?

Na S. Bernardo, o processo criativo segue uma lógica estruturada e profundamente ligada ao saber-fazer industrial e artesanal: 1. Ideia, 2. Conceito, 3. Modulação, 4. Enchimento (slip-casting), 5. Acabamento, 6. Decoração e/ou vidragem.

Cada uma destas etapas é cuidadosamente acompanhada para garantir qualidade, consistência e fidelidade ao conceito inicial. Na Claraval, o processo integra uma dimensão tecnológica adicional: 1. Captura de som (voz, natureza ou outros elementos sonoros), 2. Transformação do som em design 3D através de um algoritmo, 3. Modulação, 4. Produção cerâmica tradicional.

Apesar da inovação tecnológica, a fase final de produção mantém-se fiel às técnicas tradicionais da cerâmica, criando um equilíbrio entre tecnologia avançada e artesanato.


PME Mag. – Foram reconhecidos pela COTEC como uma Empresa Inovadora. Que processos têm implementados que levaram a esta distinção?

O reconhecimento da COTEC resulta de um trabalho contínuo e consistente em várias frentes. Por um lado, existe um forte investimento em investigação e desenvolvimento, nomeadamente na pesquisa, teste e desenvolvimento de novos vidrados, acabamentos e soluções técnicas que respondam às exigências do mercado e dos clientes.

Por outro, a capacidade de inovar ao nível do produto e do processo — criando coleções personalizadas, explorando novas metodologias de design e integrando tecnologia na produção cerâmica — foi determinante para esta distinção. A Claraval teve também um papel importante neste reconhecimento, ao afirmar-se como um projeto verdadeiramente pioneiro, que cruza ciência, arte, tecnologia e indústria.

Mais do que inovação pontual, trata-se de uma cultura interna de melhoria contínua, experimentação e visão de longo prazo.


PME Mag. – Quais são os maiores desafios atuais?

Atualmente, enfrentamos desafios que são comuns a grande parte da indústria, mas que se tornam particularmente relevantes num contexto de forte internacionalização como o nosso. A contratação e retenção de mão de obra qualificada continua a ser um dos principais desafios, sobretudo num setor que exige conhecimento técnico especializado, experiência e uma forte componente artesanal.

“(…) desafios relacionados com matérias-primas, custos energéticos e eficiência produtiva”

A isto somam-se os desafios relacionados com matérias-primas, custos energéticos e eficiência produtiva, que obrigam a uma gestão rigorosa e a uma constante otimização dos processos industriais.

Para além destes fatores internos, o contexto geopolítico e económico global tem tido um impacto significativo. Trabalhamos com clientes em vários mercados internacionais e vivemos atualmente um período de grande incerteza política e económica, marcado por tensões geopolíticas, flutuações cambiais, alterações nas cadeias logísticas e uma volatilidade crescente na procura. Este cenário exige uma elevada capacidade de adaptação, planeamento estratégico e flexibilidade comercial.

Apesar deste contexto desafiante, encaramos este período como uma oportunidade para reforçar a resiliência da empresa, diversificar mercados e continuar a apostar na diferenciação através do design, da inovação e da qualidade, valores que continuam a ser o eixo central da S. Bernardo e do grupo PPA.

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