Segunda-feira, Julho 20, 2026
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IA acelera cibercrime e PME portuguesas estão mais expostas 

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira


O número de vítimas de ataques de ransomware aumentou 389% de 2024 para 2025, segundo o Global Threat Landscape Report de 2026, divulgado a 30 de abril pela Fortinet, uma das maiores empresas mundiais de cibersegurança. Rui Dias, fundador e CEO da Porbite, especializada em cibersegurança e serviços de IT, afirmou à PME Magazine que estes números refletem uma realidade que a empresa portuguesa acompanha diariamente junto dos seus clientes. 

O relatório da Fortinet, baseado no conjunto de dados recolhidos em tempo real pela empresa norte-americana, identifica 7.831 vítimas confirmadas de ransomware em 2025, face a cerca de 1.600 registadas no relatório de 2024, e aponta a inteligência artificial como um dos principais fatores que está a transformar o panorama do cibercrime. 

Além do crescimento expressivo do ransomware, o estudo revela ainda que os atacantes conseguem hoje explorar vulnerabilidades críticas em apenas 24 a 48 horas, reduzindo drasticamente o tempo de resposta das organizações. A utilização de ferramentas de IA para automatizar reconhecimento, roubo de credenciais e campanhas de phishing está também a aumentar a sofisticação e a escala dos ataques, de acordo com os dados do reltório. 

O CEO da Porbite explica que estes perigos também se fazem sentir em Portugal. “Os números globais que se veem nos relatórios não são abstratos. Vemo-los refletidos no dia a dia dos nossos clientes.” 

Segundo Rui Diasl, o phishing continua a ser a principal porta de entrada para os ataques, mas tornou-se muito mais difícil de identificar. 

“Os e-mails fraudulentos já não têm erros de português óbvios ou um design estranho que denuncia a fraude à primeira vista. Hoje chegam-nos relatos de colaboradores que quase ‘caíram’ em e-mails que pareciam vir genuinamente do banco, de um fornecedor ou até de um colega interno.” 

 

IA reduz barreiras de entrada para o cibercrime 

Uma das principais conclusões do relatório da Fortinet é que a inteligência artificial está a industrializar o cibercrime. Ferramentas como WormGPT, FraudGPT ou BruteForceAI permitem automatizar tarefas que anteriormente exigiam conhecimentos técnicos avançados, tornando os ataques mais rápidos e acessíveis. 

Na perspetiva de Rui Dias, esta transformação representa simultaneamente uma evolução tecnológica e uma mudança estrutural na ameaça. 

“A IA não inventou o phishing, o ransomware ou o roubo de credenciais. Essas técnicas já existiam há décadas. O que ela fez foi eliminar a barreira técnica que antes separava um criminoso experiente de alguém sem qualquer competência avançada.” 

O CEO da Porbite considera que a velocidade com que os ataques são preparados e executados alterou profundamente a forma como as empresas devem encarar a cibersegurança. 

“A IA acelerou e democratizou técnicas que já existiam e, ao fazê-lo de forma tão radical, criou também uma categoria de risco que exige respostas diferentes das que usávamos até agora.” 

 

PME deixaram de ser invisíveis 

Apesar de muitas pequenas e médias empresas continuarem a acreditar que são pouco atrativas para os atacantes, Rui Dias discorda. “Essa perceção está completamente desatualizada e é talvez o erro mais perigoso que vejo no tecido empresarial português”, salienta. 

“Tornaram-se o alvo preferencial precisamente porque, em geral, investem menos em segurança do que as grandes empresas, mas continuam a movimentar dinheiro, dados de clientes e acesso a cadeias de fornecimento que interessam aos atacantes”, acrescenta ainda. 

A automatização proporcionada pela inteligência artificial veio ainda eliminar a necessidade dos cibercriminosos escolherem cuidadosamente as suas vítimas. 

“Hoje, com ferramentas de IA, um atacante consegue lançar milhares de tentativas em paralelo, sem custo adicional significativo. Já não é preciso escolher entre atacar uma multinacional ou uma PME com vinte colaboradores”, alerta Rui Dias. 

 

Ataques cada vez mais credíveis 

A crescente utilização de IA também está a tornar as campanhas fraudulentas mais convincentes.  

Segundo Rui Dias, um dos sinais mais evidentes é a qualidade linguística das mensagens utilizadas nos ataques. “Hoje recebemos relatos de e-mails fraudulentos com português impecável, adaptado ao registo formal que se usaria internamente numa empresa.” 

Além da qualidade do texto, os ataques recorrem cada vez mais a informação contextual para aumentar a probabilidade de sucesso. 

“Já não falamos de campanhas genéricas enviadas em massa, mas de mensagens que referem o nome correto de um fornecedor habitual, o cargo certo de quem deveria assinar um pedido de transferência ou até o contexto temporal de um processo em curso.” 

O especialista alerta ainda para o aparecimento de tentativas de fraude recorrendo a deepfakes de voz. “Ainda são casos pontuais em Portugal, mas já tivemos conhecimento de tentativas deste tipo, e a tendência internacional mostra que vão tornar-se mais comuns.” 

 

A prevenção continua a ser a melhor defesa 

Perante um cenário em que os ataques se tornam mais rápidos e sofisticados, Rui Dias defende que as PME podem reduzir significativamente o risco através de medidas relativamente acessíveis. 

Entre as prioridades identifica a autenticação multifator, backups isolados e testados, formação contínua dos colaboradores, atualização permanente dos sistemas e o recurso a apoio especializado. 

“Não é preciso ter o orçamento de uma multinacional para ter uma postura de segurança séria; é preciso ter prioridades bem definidas e um acompanhamento próximo.” 

À medida que a inteligência artificial acelera o ritmo do cibercrime, a capacidade de prevenção e resposta, segundo o responsável, passa a ser um fator determinante para a resiliência das empresas portuguesas. “É essa desatualização de mentalidade, mais do que a falta de tecnologia, que considero o maior risco para o tecido empresarial nacional neste momento”, remata.

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