“Igualdade de oportunidades e retorno não são teses distintas” – Moon Capital

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Sílvia Mota e Ana Sá Ribeira, fundadoras da Moon Capital
Sílvia Mota e Ana Sá Ribeira, fundadoras da Moon Capital (Foto Divulgação)

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

As mulheres continuam a representar uma parcela reduzida do ecossistema de empreendedorismo em Portugal e o acesso ao capital continua a revelar desequilíbrios. Entre as startups portuguesas que captaram capital de risco em 2025, apenas 20% eram lideradas por mulheres, segundo o Female Innovation Index 2026, da Female Foundry e da Dealroom. Além disso, o venture capital captado por essas startups representou apenas 7% do investimento realizado no país.

É neste cenário que a Moon Capital procura posicionar-se, com uma estratégia de investimento focada em empresas com provas dadas e potencial de crescimento lideradas por mulheres. O fundo já ultrapassou os cinco milhões de euros no primeiro closing e tem como objetivo atingir 25 milhões numa fase intermédia, caminhando para uma meta global de 75 milhões de euros.

O modelo passa por assumir participações tendencialmente minoritárias, mantendo uma presença ativa nas empresas e apoiando processos de internacionalização, aquisições, profissionalização da gestão e expansão.

Com a Olimec como primeiro investimento, a Moon Capital procura demonstrar que o capital pode ser mais do que uma fonte de financiamento para as PME, funcionando também como parceiro estratégico para acelerar o crescimento. Em entrevista à PME Magazine, Sílvia Mota e Ana Sá Ribeiro, fundadoras da Moon Capital, explicam a estratégia do fundo, os obstáculos que continuam a limitar o acesso das empresas ao capital e porque consideram que a sub-representação das mulheres no empreendedorismo pode representar uma oportunidade de investimento. 



PME Magazine (PME Mag.) – Como surgiu a Moon Capital e que oportunidade identificaram no mercado português para criar um fundo com esta estratégia de investimento?


Sílvia Mota, co-fundadora da Moon Capital –  O Moon Capital nasceu do reconhecimento de uma oportunidade estrutural na economia. Durante anos, Portugal investiu com sucesso na formação de capital humano. Hoje, as mulheres representam mais de metade dos diplomados e doutorados e têm uma influência crescente nas decisões de
consumo, na criação de riqueza e na gestão de património.

No entanto, quando olhamos para a criação e, sobretudo, para o escalamento de empresas, essa realidade ainda não se converte proporcionalmente em liderança
empresarial e acesso a capital. Apenas cerca de 14% das startups em Portugal são fundadas ou lideradas por mulheres. Para nós, esta assimetria é simultaneamente uma questão de igualdade de oportunidades e um sinal de mercado.

Quando existe talento e capacidade económica que não estão a ser plenamente convertidos em criação de valor, existe uma ineficiência — e onde existe uma ineficiência pode existir uma oportunidadede investimento. Foi daí que nasceu o Moon Capital: para identificar empresas sólidas, com track record e potencial de escala, e ser o parceiro estratégico de growth das suas lideranças. Não queremos apenas financiar crescimento. Queremos partilhar o risco do próximo salto, apoiando internacionalização, profissionalização, consolidação e criação de escala.

 

“PROCURAMOS INVESTIDORES QUE COMPREENDAM QUE OS MELHORES RETORNOS NEM SEMPRE SE CONSTROEM SEGUINDO O CONSENSO (…)

 


PME Mag. – A Moon Capital pretende levantar 75 milhões de euros. De onde virá esse capital, que perfil de investidores procuram atrair e como funciona o modelo de investimento do fundo?


Ana Sá Ribeiro, co-fundadora da Moon Capital – Superámos o objetivo inicial de 5 milhões de euros no primeiro closing, temos como meta intercalar atingir os 25 milhões e caminhamos para a meta global de 75 milhões de euros. O nosso capital provém de investidores qualificados, incluindo investidores institucionais, family offices e investidores privados.

Procuramos investidores que compreendam que os melhores retornos nem sempre se constroem seguindo o consenso, mas também reconhecendo mudanças estruturais antes de estas serem plenamente incorporadas pelo mercado. Procuramos fazê-lo com absoluto pragmatismo financeiro, com uma TIR projetada entre 15% e 18%.

O nosso modelo assenta em participações tendencialmente minoritárias, mas com uma presença ativa e assento no Conselho de Administração. Entramos como parceiros das equipas de gestão, alinhando capital, experiência e capacidade de execução e partilhando o risco associado ao crescimento. O objetivo é apoiar quem já construiu negócios sólidos a dar o próximo salto — através da internacionalização, de aquisições estratégicas, da profissionalização da gestão ou de outras alavancas capazes de transformar empresas de sucesso em organizações com maior escala e competitividade.

 

Sílvia Mota, co-fundadora da Moon Capital (Foto Divulgação)
 
PME Mag. – A Olimec foi o primeiro investimento do fundo. O que levou à escolha desta empresa e o que revela este caso sobre os critérios de investimento e o tipo de PME que procuram apoiar?

Ana Sá Ribeiro, co-fundadora da Moon Capital –  A Olimec ilustra muito bem a nossa tese. É uma empresa industrial portuguesa consolidada, com provas dadas no seu segmento, excelente track record e uma liderança muito capaz. Não entrámos para corrigir uma empresa que não funciona; entrámos precisamente porque encontrámos uma empresa que já demonstrou a sua capacidade de execução e onde acreditamos que capital, estrutura e acompanhamento estratégico podem desbloquear uma escala significativamente maior.
 
O facto de ser liderada por uma mulher enquadra-se naturalmente na nossa tese, mas a decisão de investimento resulta da qualidade da empresa e do potencial de criação de valor que identificámos. Procuramos precisamente PMEs assim: negócios sólidos, com lideranças ambiciosas, onde exista espaço para acelerar internacionalização, reforçar governance, profissionalizar a organização e escalar. Na Olimec estamos ainda a acompanhar um projeto ambicioso de redução da pegada carbónica e do consumo energético, porque acreditamos que competitividade futura e sustentabilidade empresarial estarão cada vez mais interligadas.
 
 

PME Mag. – Muitas PME têm dificuldade em aceder a financiamento para crescer. Que desafios identificam com maior frequência nas empresas que procuram investimento e que conselhos dariam aos empresários que pretendem captar capital?

Sílvia Mota, co-fundadora da Moon Capital –  Muitas vezes, o principal obstáculo não está sequer na qualidade da empresa, mas na forma como aprendemos a pensar o seu crescimento. Muitos empresários e empresárias construíram negócios extraordinários praticamente sozinhos, ultrapassando dificuldades com os recursos, conhecimento e redes que tinham ao seu alcance. Mas quando nos habituamos a fazer tudo sozinhos, corremos também o risco de começar a dimensionar os nossos sonhos à dimensão daquilo que conseguimos executar sozinhos. E isso pode tornar-se um limite invisível ao crescimento.
 
Isto é particularmente relevante em muitas empresas lideradas por mulheres. Muitas começaram e cresceram num contexto em que o acesso a capital, redes e parceiros era menor. Aprenderam, por necessidade, a depender sobretudo de si próprias. Quando finalmente atingem estabilidade e conforto, é natural que voltar a arriscar aquilo que construíram possa parecer desnecessário.
 
É precisamente aqui que um parceiro de capital pode fazer a diferença. Crescer não tem de significar voltar a fazer tudo sozinho, nem colocar em risco tudo aquilo que já foi construído. Um parceiro pode permitir partilhar esse risco e aumentar a capacidade de execução. Por isso, o nosso conselho é que olhem para o investimento privado não como uma perda de controlo, mas como uma possível alavanca para ampliar a ambição — seja para internacionalizar, adquirir empresas, profissionalizar a organização ou preparar uma nova fase de crescimento.

“(…) EXISTE UMA TRANSFORMAÇÃO ESTRUTURAL NA PARTICPAÇÃO ECONÓMICA DAS MULHERES QUE AINDA NÃO ESTÁ TOTALMENTE REFLETIDA NA FORMA COMO O CAPITAL É ALOCADO.



PME Mag. – A Moon Capital aposta em empresas lideradas por mulheres. Que evidências encontraram de que este segmento continua subfinanciado e porque acreditam que existe aqui uma oportunidade de investimento com potencial de retorno?

Sílvia Mota, co-fundadora da Moon Capital –  A evidência começa precisamente no desfasamento entre aquilo que vemos na economia e aquilo que encontramos na alocação de capital. As mulheres representam hoje mais de metade dos diplomados e doutorados em Portugal, têm um peso crescente na criação de conhecimento, no consumo e na gestão de património. No entanto, essa transformação ainda não se traduz proporcionalmente na criação e, sobretudo, no escalamento de empresas lideradas por mulheres. É precisamente esse desfasamento que nos interessa enquanto investidores.
 
Os mercados nem sempre incorporam imediatamente as mudanças que estão a acontecer na sociedade e na economia. Muitas vezes continuamos a avaliar oportunidades através de referências, redes e padrões construídos sobre a realidade que conhecemos no passado. Ao longo da história, algumas das maiores oportunidades surgiram precisamente quando a realidade mudou mais depressa do que os modelos utilizados para a interpretar. Aconteceu com a tecnologia, com a internet e está a acontecer com a inteligência artificial.
 
Acreditamos que existe também uma transformação estrutural na participação económica das mulheres que ainda não está totalmente refletida na forma como o capital é alocado. Para nós, portanto, igualdade de oportunidades e retorno não são duas teses distintas. Se existe talento, capacidade e criação de valor que o mercado está sistematicamente a subidentificar ou subcapitalizar, existe uma oportunidade económica. O nosso trabalho é encontrar as melhores empresas dentro desse universo e ajudá-las a atingir a escala que o seu potencial permite.
 
 
 
Ana Sá Ribeiro, co-fundadora da Moon Capital (Foto Divulgação)
 
PME Mag. – Como veem a evolução do mercado de private equity em Portugal e que papel pode desempenhar no crescimento e na competitividade das PME portuguesas nos próximos anos?

Ana Sá Ribeiro, co-fundadora da Moon Capital
–  O Private Equity em Portugal tem uma oportunidade importante para se afirmar cada vez mais não apenas como fonte de capital, mas como verdadeiro parceiro de transformação empresarial. Portugal tem excelentes PMEs, muitas delas familiares, rentáveis e muito bem geridas, que construíram o seu crescimento através de capitais próprios e financiamento bancário.
 
Mas o instrumento que permitiu financiar uma determinada fase da empresa não tem necessariamente de ser aquele que melhor financia a fase seguinte. Internacionalizar, adquirir concorrentes, investir em tecnologia ou acelerar significativamente a escala pode exigir outro tipo de capital — mais paciente, alinhado com o risco empresarial e acompanhado de capacidade estratégica. É aí que o Private Equity pode ter um papel particularmente relevante.
 
Não substituindo necessariamente a dívida bancária, mas complementando-a e permitindo às empresas construir estruturas de capital mais adequadas à sua ambição. Abrir o capital também não tem de significar perder independência. Pode significar ganhar um parceiro, reforçar governance e aumentar a capacidade financeira e de execução. Para muitas PMEs portuguesas, essa combinação poderá ser determinante para transformar excelentes empresas nacionais em organizações capazes de competir e liderar internacionalmente.
 


Sílvia Mota será keynote speaker do Fórum PME Magazine. Saiba mais aqui.