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Livro propõe método para criar uma startup com IA em 30 dias

A inteligência artificial tornou mais rápido e acessível o desenvolvimento de produtos digitais, mas construir uma primeira versão de um produto não significa que exista um negócio. É a partir desta premissa que Joaquim Costa e Joaquim Nascimento lançaram, em julho de 2026, o livro “Como usar a IA para criar uma Startup em 30 dias”.

No livro, os autores propõem um método para testar uma ideia, construir um produto mínimo viável (MVP) – uma versão simplificada criada para testar uma solução junto do mercado -, analisar os resultados e decidir se o projeto deve avançar, mudar de direção ou ser abandonado.

Para Joaquim Costa, empreendedor e líder de produto, atualmente CEO da Closedata e antigo diretor de produto do KuantoKusta, um dos principais riscos está em utilizar a própria IA para tentar confirmar se uma ideia é boa.

“A resposta simples é: ‘Não perguntando à IA se a ideia é boa’. É a pergunta mais perigosa que um fundador pode fazer, porque a IA responde com base em padrões estatísticos e quase sempre confirma que ‘existe mercado’.”

O autor defende que a validação deve ser feita através do comportamento de potenciais clientes. “Uma pessoa que paga, uma que reserva quinze minutos para falar contigo, que reage com frustração real ao problema antes de saber que tens uma solução para lhe oferecer” são, na sua perspetiva, sinais mais relevantes do que uma resposta positiva dada por um chatbot.

No livro, esta abordagem é descrita como “validar com comportamento” em vez de “validar com máquinas”. Segundo Joaquim Costa, “vinte entrevistas presenciais valem mais do que mil respostas simpáticas de um chatbot”, enquanto “uma landing page com botão de compra real vale mais do que qualquer confirmação teórica”.

30 dias para decidir se vale a pena continuar

“Trinta dias não chegam para construir um produto perfeito nem para provar product-market fit definitivo, e não é esse o objetivo”, explica Joaquim Nascimento, empreendedor na área da IA, professor na Universidade do Algarve e presidente da Algarve Evolution.

O método divide o período em quatro blocos de uma semana. Os primeiros sete dias são dedicados a perceber se o problema é real e relevante. Entre os dias 8 e 14, o foco passa para a construção e teste de um MVP mínimo. A terceira semana é dedicada à análise dos resultados e, nos últimos dias, chega o momento da decisão.

“No final, só há três respostas honestas: matar o projeto porque os dados dizem que não funciona, pivotar porque há sinais de vida num segmento ou proposta diferente do previsto, ou acelerar porque há clientes a pagar e retenção real”, afirma.

Para o autor, “continuar como está” sem tomar uma decisão com base nos dados recolhidos é precisamente o resultado que o método procura evitar.

O risco de construir demasiado depressa

Para Joaquim Nascimento, um dos riscos associados à maior acessibilidade das ferramentas de IA é precisamente construir demasiado antes de validar a existência de procura.“O erro mais caro é construir demasiado sem validar”, sublinha.

O autor identifica como padrão recorrente empreendedores que “confirmam a ideia com IA em vez de com clientes reais” e acabam por passar meses a desenvolver “um produto tecnicamente impecável que ninguém pediu”.

Outro problema está na utilização de métricas que não demonstram necessariamente a existência de um negócio. “Registos, downloads ou visualizações” podem funcionar como métricas de vaidade, explica o autor, enquanto clientes pagantes e retenção permitem perceber melhor se existe efetivamente uma oportunidade comercial.

“A IA torna este risco pior, porque acelera a construção na direção errada com a mesma facilidade com que acelera na direção certa”, acrescenta ainda Joaquim Nascimento.

Mais startups, mas também mais projetos sem negócio

A redução dos custos e do tempo necessários para desenvolver produtos digitais deverá, na visão de Joaquim Costa, aumentar o número de pessoas a experimentar novas ideias.

Quando questionado sobre se a IA vai gerar mais startups ou simplesmente mais projetos sem modelos de negócio sustentáveis, responde “as duas coisas ao mesmo tempo”.

“A barreira técnica para criar um produto digital, que durante décadas foi o principal obstáculo, praticamente desapareceu.”

Segundo o empreendedor, construir um MVP passou de processos que podiam envolver “dezenas de milhares de euros e vários meses de trabalho” para projetos que podem ser desenvolvidos por “menos de cem euros e alguns dias”. A consequência será mais experimentação, mas também um novo tipo de risco.

“Já não é ‘não conseguir construir’, é ‘construir sem validar’”, afirma. Sem critérios de decisão definidos previamente, a facilidade de desenvolvimento pode resultar em “muitos projetos tecnicamente funcionais e comercialmente mortos”.

“A ferramenta acelera, mas quem decide continua a ser o empreendedor”, resume.

O primeiro sinal: clientes dispostos a pagar

Para Joaquim Nascimento, há um indicador particularmente importante quando chega o momento de decidir se uma ideia merece receber mais investimento: clientes dispostos a pagar pelo produto.

“Se tivesse de escolher apenas uma: número de clientes que pagam dinheiro real, de forma recorrente, sem terem sido convencidos com desconto”, afirma. “Não intenção declarada, não pré-registos, não ‘gostei da ideia’: cartão de crédito em cima da mesa.”

O autor considera este um dos sinais menos suscetíveis de ser influenciado pelo entusiasmo do fundador ou pela vontade de um potencial cliente em não dar uma resposta negativa.

Além da receita, os autores recorrem ainda à chamada pergunta de Sean Ellis – “como te sentirias se não pudesses usar mais este produto?” – para avaliar o grau de valor atribuído pelos utilizadores à solução.

O que a IA ainda não consegue decidir

Apesar da crescente capacidade das ferramentas de inteligência artificial para escrever código, criar copy, desenvolver páginas ou estruturar análises de dados, os autores consideram que há uma componente que continua a depender do julgamento humano: a decisão.

“A IA hoje escreve código, gera copy, cria landing pages e até estrutura análises de dados em minutos. O que continua, e vai continuar, a exigir uma pessoa é decidir”, defende Joaquim Costa.

Para o empreendedor, uma ferramenta de IA pode organizar os argumentos a favor ou contra continuar, mudar ou abandonar um projeto, mas não consegue avaliar variáveis como “o que estás disposto a sacrificar” ou “se o custo de oportunidade de mais três meses é aceitável”.

A intervenção humana mantém-se também no contacto com clientes. “Perceber porque é que alguém deixou de usar um produto, ou o que realmente valoriza, exige uma conversa”, afirma.

É esta distinção entre construir mais depressa e decidir melhor que está no centro da proposta do livro. Numa altura em que a IA reduz cada vez mais as barreiras técnicas à criação de produtos, a questão para os empreendedores pode deixar de ser apenas se conseguem construir uma solução — e passar a ser se existe alguém disposto a pagar por ela.

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