Ludgero Marques: uma vida entre a indústria e o associativismo empresarial

0
Ludgero Marques presidiu à Associação Industrial Portuense, mais tarde AEP, durante 23 anos, entre 1985 e 2008 (Foto Associação Empresarial Portuguesa com IA)

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

Ludgero Marques faleceu esta segunda-feira, aos 88 anos. Natural de Rio Meão, em Santa Maria da Feira, o empresário e antigo presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP) dedicou mais de seis décadas à indústria e ao associativismo empresarial, tornando-se numa das figuras mais marcantes do tecido empresarial do Norte de Portugal. Presidiu à então Associação Industrial Portuense, que viria a assumir a designação de AEP, entre 1985 e 2008.

O empresário nasceu a 26 de março de 1938, em Rio Meão. Antes da carreira empresarial, seguiu uma formação marcada pela engenharia: depois de frequentar a Escola Académica do Porto e o Instituto Industrial do Porto, cumpriu 39 meses de serviço militar na Aviação. Fez os preparatórios em Coimbra e regressou ao Porto, onde se licenciou em Engenharia Mecânica pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), em 1968.

A relação com a indústria começou, contudo, antes da licenciatura. Ludgero Marques estava ligado à fábrica de ferragens e fechaduras do pai e contou, numa entrevista à Universidade do Porto, que aproveitou os conhecimentos adquiridos na faculdade para trabalhar numa empresa cuja tecnologia considerava ainda “muito retrógrada”.

Quando iniciou formalmente a carreira como engenheiro, era o único profissional com essa formação na fábrica. Para fazer a ligação entre a engenharia e os trabalhadores, recorreu a dois mestres da Escola Industrial de Espinho.

“Fui verdadeiramente Engenheiro, durante trinta anos e gostei de o ser. Fui e ainda hoje sou engenheiro por vocação”, afirmou na entrevista, que fez parte do projeto 100 Olhares da Universidade do Porto.


Iniciou carreira na empresa do pai

Foi na empresa da família, a Cifial, que Ludgero Marques desenvolveu grande parte da sua carreira. A empresa tinha sido criada em Santa Maria da Feira, em 1904, e adquirida pelo seu pai, José Marques, em 1944.

Sob a liderança de Ludgero, a Cifial deixou de estar ligada apenas à produção tradicional de ferragens e fechaduras e avançou para áreas como as torneiras e os sistemas eletrónicos de controlo de acessos, reforçando também a aposta na exportação.

Nos anos 1980, a empresa chegou a fornecer torneiras à Casa Branca, nos Estados Unidos, de acordo com o Jornal de Negócios.

Depois de décadas à frente da empresa familiar, Ludgero Marques deixou a Cifial em 2013, num período marcado pelas dificuldades financeiras da fabricante. Em 11 de janeiro de 2013, o Diário de Notícias noticiou que o Fundo Recuperação, gerido pela ECS Capital, tinha adquirido a maioria do capital da Cifial, ficando a família Marques com uma participação reduzida.

Seis anos depois, a 28 de outubro de 2019, o Jornal de Negócios noticiou a venda da Cifial pela ECS Capital à chinesa Kinlong, operação que marcou o fim da presença da família Marques na empresa.

 

Da indústria para a liderança dos empresários

Paralelamente à atividade na Cifial, Ludgero Marques construiu uma carreira no associativismo empresarial. Foi presidente da Associação dos Industriais Metalúrgicos e Metalomecânicos do Norte e fundador e presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Ferragens.

Também ocupou funções na Confederação da Indústria Portuguesa (CIP), incluindo a vice-presidência entre 1975 e 1980 e entre 1990 e 2000.

Mas foi a liderança da Associação Industrial Portuense que acabaria por definir grande parte da sua imagem pública. Ludgero Marques presidiu à organização entre 1985 e 2008, durante 23 anos. Ao longo desse período, a associação ganhou uma dimensão nacional e passou a chamar-se Associação Empresarial de Portugal (AEP).

Durante os 23 anos em que liderou a associação, Ludgero Marques esteve ligado a um período de forte transformação da estrutura empresarial. Num anúncio publicado a 3 de setembro de 2021, a AEP recordava que, durante a sua presidência, a associação “registou um enorme crescimento, tendo evoluído para a profissionalização dos seus serviços, com destaque para a formação e a internacionalização”. A AEP sublinhava ainda a criação da Exponor, que se tornou uma referência para a região Norte e para o país.

 

Um empresário com intervenção política sobre a economia

A passagem pela AEP ficou também marcada por uma intervenção pública forte em temas económicos. Em 2008, no balanço dos 23 anos de liderança, Ludgero Marques identificava a qualidade dos recursos humanos como um dos principais problemas do país e das empresas, numa entrevista publicada no jornal Vida Económica.

No final do seu mandato, Ludgero Marques lamentou não ter conseguido criar uma Confederação Empresarial de Portugal que reunisse a representação dos empresários portugueses, segundo uma entrevista publicada pelo JPN em 27 de março de 2008.

A saída da AEP aconteceu em 2008, depois de quase 23 anos à frente da associação. José António Barros sucedeu-lhe na presidência, enquanto Ludgero Marques passou a assumir funções na assembleia geral.


“Patrão”, como gostava de se definir

Em 2021, a AEP atribuiu a Ludgero Marques a categoria de sócio honorário, a mais alta distinção concedida pela associação. Na nota publicada na altura, descreveu-o como empresário ou “patrão”, c destacando o seu percurso na Cifial e nos vários organismos empresariais.

O reconhecimento não ficou apenas pelas estruturas empresariais. Ludgero Marques recebeu várias distinções oficiais ao longo da carreira: foi feito Comendador da Ordem Civil do Mérito Agrícola e Industrial – Classe do Mérito Industrial, em 1990; recebeu a Ordem de Orange-Nassau dos Países Baixos, em 1992; foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem Civil do Mérito Agrícola, Industrial e Comercial – Classe do Mérito Industrial, em 1995; e recebeu o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1999.

A ligação à terra onde nasceu também permaneceu. Em Vila Nova de Gaia existe uma avenida com o nome do empresário, cuja inauguração foi registada pelo Diário de Notícias.

“Gostaria que a universidade continuasse a desenvolver boas relações com as empresas.”

Já depois de deixar a presidência da AEP, Ludgero Marques mantinha uma visão muito ligada à relação entre empresas e conhecimento. Na entrevista concedida à Universidade do Porto, defendeu que “a FEUP continuasse a desenvolver as suas boas relações com as empresas” e que “se encontrassem maneiras de os formados exercerem as funções que escolheram”.

Ludgero Marques morreu na madrugada de 31 de agosto de 2026, aos 88 anos. O velório realiza-se esta terça-feira, 1 de setembro, na Igreja Matriz de Rio Meão, onde terá lugar a celebração religiosa às 19h00. O funeral seguirá depois para o Crematório de Aveiro.

A AEP descreve-o, no momento da sua morte, como “uma das figuras maiores” da história do associativismo empresarial e da indústria portuguesa, sublinhando a marca que deixou nas instituições que liderou e a dedicação às empresas, à indústria e à defesa dos interesses dos empresários.