Mudança da hora ainda pesa nas empresas uma semana depois

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Relógio despertador numa mesa de cabeceira
Mudança de hora

Por: Ana Marisa Vieira


Mais de uma semana depois da mudança para o horário de verão, os efeitos da alteração da hora ainda podem fazer-se sentir no bem-estar e no desempenho profissional de muitos trabalhadores. Apesar da transição ter ocorrido a 29 de março, o reajuste do organismo nem sempre acontece de forma imediata. 

O alerta é de Alexandra Antunes, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses, que explica à PME Magazine que a adaptação ao novo horário depende do equilíbrio entre o relógio biológico e as exigências da rotina profissional e pessoal.

“A transição para o horário de verão pode afetar o desempenho profissional porque implica um reajuste entre o relógio biológico e o horário social”, explica a responsável.

Segundo a psicóloga, embora a diferença seja de apenas uma hora, isso não significa que o impacto seja irrelevante. “Há sempre necessidade de adaptação”, sublinha.


Menos concentração, mais erros e maior irritabilidade

Nos dias seguintes à mudança da hora e, em alguns casos, ainda ao longo da semana seguinte, podem surgir sinais subtis, mas relevantes, no funcionamento profissional. Entre os mais comuns estão a sonolência, a quebra de concentração, a lentificação do pensamento e os lapsos de atenção.

“Esse desalinhamento pode traduzir-se em aumento da sonolência, menor concentração, pensamento mais lentificado, mais lapsos de atenção e maior dificuldade em manter a vigilância”, refere Alexandra Antunes.

Na prática, isto pode traduzir-se em menor produtividade, mais falhas em tarefas de detalhe e maior dificuldade em responder a ambientes exigentes ou multitarefa.

“Em algumas pessoas, pode observar-se uma diminuição da produtividade, mais erros em tarefas de detalhe, pior memória de trabalho e menor flexibilidade cognitiva”, acrescenta.

A especialista chama ainda a atenção para a dimensão emocional do problema, frequentemente desvalorizada no contexto laboral.

“Ao nível emocional, pode haver mais irritabilidade, menor tolerância ao stress e menor capacidade de autorregulação, o que também interfere com o funcionamento profissional.”


Trabalhadores por turnos e funções críticas entre os mais vulneráveis

O impacto da mudança da hora não é igual para todos. Há perfis profissionais mais expostos aos seus efeitos, nomeadamente trabalhadores que já enfrentam desequilíbrios de sono ou horários menos estáveis.

“Os mais vulneráveis tendem a ser os trabalhadores por turnos, sobretudo noturnos ou rotativos, porque já vivem com maior perturbação do sono e do ritmo circadiano”, afirma Alexandra Antunes.

Também pessoas com privação de sono acumulada, dificuldades de sono ou um perfil mais noturno podem sentir maiores dificuldades de adaptação.

Do lado das profissões, o risco agrava-se em áreas onde pequenas falhas podem ter consequências significativas.

“A vulnerabilidade é maior em funções com elevada exigência cognitiva, emocional ou de segurança, como profissionais de saúde, transportes, indústria, emergência, aviação ou funções de monitorização e tomada de decisão rápida.”

Nestes contextos, acrescenta, “pequenas quebras de atenção ou de tempo de reação podem ter maior impacto”.


O que podem fazer as empresas?

Embora a mudança da hora já tenha ocorrido, a especialista defende que este é um tema que deve continuar a ser levado em conta pelas organizações e não apenas nesta altura, mas como parte de uma estratégia mais ampla de saúde ocupacional e gestão da fadiga.

“A melhor estratégia é combinar medidas individuais e organizacionais”, defende.

Do lado dos trabalhadores, a recomendação passa por manter rotinas de sono consistentes, privilegiar a exposição à luz natural de manhã, reduzir o uso de ecrãs à noite e evitar acumular cansaço.

Já para as empresas, o foco deve estar na prevenção e organização do trabalho em períodos de adaptação.

“É recomendável evitar, sempre que possível, tarefas críticas ou de maior risco nas primeiras 24 a 72 horas, reforçar pausas, promover informação sobre sono e cansaço e ter atenção especial às equipas por turnos ou em funções de segurança crítica.”

A responsável sublinha ainda que, em contextos mais exigentes, “medidas de gestão de fadiga e organização mais ajustada dos horários podem fazer diferença”.


Um tema pequeno no calendário, mas relevante na gestão

Apesar da mudança da hora ser encarada por muitas empresas como um detalhe logístico, e que apenas é falado na semana antes e depois a acontecer, os seus efeitos podem ter reflexos concretos na performance e no clima organizacional, sobretudo quando se cruzam com equipas já pressionadas, contextos de trabalho intensos ou períodos de maior carga operacional.

Mais do que um incómodo passageiro, o ajuste ao novo horário pode ser um lembrete de que sono, bem-estar psicológico e desempenho continuam a estar profundamente ligados e que a produtividade também se gere a partir da forma como as pessoas descansam.