Quinta-feira, Julho 16, 2026
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“Não se gere um ativo moderno com dados de 30 dias” – Builtrix

Por: Ana Marisa Vieira


Com os edifícios a representarem 40% do consumo energético da União Europeia, a eficiência tornou-se uma prioridade estratégica para empresas e municípios. A Builtrix, liderada por Javad Hatami, procura responder a esse desafio ao transformar grandes volumes de dados em estratégias operacionais. 

A empresa, já presente em entidades como a COOP Suíça, HF Hotels e várias cidades europeias, propõe uma mudança de paradigma: substituir a gestão passiva por uma compreensão em tempo real onde cada quilowatt está a ser usado.

Em entrevista à PME Magazine, o CEO da Builtrix, Javad Hatami, explica por que razão tantas organizações continuam “ricas em dados, mas pobres em conhecimento”, descreve as anomalias mais comuns nos edifícios e identifica as barreiras culturais e operacionais que ainda travam a transição para uma gestão energética inteligente.


PME Magazine (PME Mag.) – A Builtrix aposta na inteligência energética num momento em que os edifícios representam 40% do consumo de energia na UE. Que lacunas concretas identificam hoje na forma como empresas e municípios gerem a energia?

Javad Hatami (J. H.) – Esse valor dos 40% foi exatamente o que motivou o início deste projeto, mas quando observamos como as coisas são realmente geridas no terreno, a realidade torna-se bastante frustrante.

‘ricos em dados, pobres em conhecimento’

Para ser honesto, a maior lacuna que vejo não é falta de dados, é falta de clareza. A maioria das empresas e municípios com quem falamos está submersa em dados, – dezenas de faturas em PDF, folhas de Excel e inúmeros contadores inteligentes – mas carece de insights. Estão numa situação de ‘ricos em dados, pobres em conhecimento’.

A primeira grande lacuna tem a ver com o tempo. A maioria dos gestores continua a gerir os seus edifícios olhando com olhos no retrovisor. Esperam pela fatura da eletricidade no final do mês para perceberem como foi a performance. Quando isso acontece, já estão perante uma autópsia, não um diagnóstico. Se houve uma fuga ou um sistema a funcionar de forma ineficiente, o dinheiro já se perdeu. Não se gere um ativo moderno com dados de 30 dias atrás.

Depois existe o problema da ‘Caixa Negra’. Um Facility Manager pode saber que o consumo total aumentou 10%, mas não faz ideia porquê. Foi o sistema AVAC? Foi a iluminação deixada ligada durante o fim de semana? Ou foi a sala de servidores? Sem dados granulares, a maioria dos edifícios é uma verdadeira caixa negra para os seus proprietários. Pagam a fatura, mas não compreendem o comportamento que está por detrás dela.

E no caso específico dos municípios, existe uma lacuna enorme na integração. Um Facility Manager pode ter de controlar escolas, piscinas e bibliotecas, e normalmente os dados destes edifícios estão em silos completamente diferentes. Os painéis solares estão numa aplicação, o aquecimento está num sistema antigo e a faturação está no departamento financeiro. Nenhum destes sistemas comunica entre si.

Na Builtrix, procuramos reduzir essa distância entre ‘ter dados’ e ‘saber o que fazer com eles’. O nosso objetivo é que os gestores deixem de pagar faturas de forma passiva e passem a compreender – em tempo real – onde cada quilowatt está a ser usado.



PME Mag. – A vossa solução transforma dados de contadores inteligentes em insights operacionais. Que tipo de anomalias ou ineficiências são mais comuns e que impacto económico pode uma empresa esperar ao corrigi-las?

Javad Hatami (J. H.) – Surpreende muita gente, mas a anomalia mais comum continua a ser também a mais básica: observamos quantidades enormes de energia consumida quando não está ninguém no edifício. Chamamos a isso ‘Consumo Zombie’.

Encontramos frequentemente sistemas AVAC e horários de iluminação que se mantêm em modo ‘definir e esquecer’. Continuam a funcionar a plena capacidade aos fins de semana e feriados porque alguém os programou há três anos e nunca mais lhes tocou.

“Vemos arcas frigoríficas a competir com caldeiras ou sistemas a funcionar em modo ‘Pico de Verão’ quando estão 20 graus no exterior”.

Mas as ineficiências mais subtis – e mais dispendiosas – surgem no setor da Hotelaria, especialmente nos ‘meses de transição’, como abril/maio ou setembro/outubro, quando passamos do inverno para o verão (e vice-versa). Os hotéis têm enorme dificuldade em ajustar-se a isto. Vemos arcas frigoríficas a competir com caldeiras ou sistemas a funcionar em modo ‘Pico de Verão’ quando estão 20 graus no exterior. Perdem muito dinheiro nestas semanas de transição porque o equipamento não acompanha a meteorologia e a ocupação.
Em termos de impacto económico, o potencial é significativo. Apenas ao corrigir esses comportamentos operacionais – sem comprar janelas novas ou hardware caro – observamos normalmente poupanças anuais entre 5% e 15%.

Para dar um exemplo concreto, analisámos o portefólio do grupo HF Hotels, que tem oito grandes ativos em Lisboa e Porto. Ao analisar os consumos, identificámos que apenas ao otimizar configurações do AVAC e corrigir estas ineficiências operacionais, poderiam poupar centenas de milhares de euros por ano. Trata-se de margem pura que regressa diretamente ao resultado da empresa, apenas por “ouvirem os dados.”

 

PME Mag. – Têm projetos em cidades como Porto, Cascais e Roma, e com empresas como a COOP Suíça. O que é que estes casos de estudo revelam sobre a maturidade digital da gestão energética no setor público e privado?

Javad Hatami (J. H.) – É realmente uma história com duas velocidades. No setor privado, especialmente num retalhista como a COOP Suíça, a maturidade é impulsionada por eficiência e margens. No retalho, as margens são reduzidas; a energia não é apenas um tema ambiental, é financeiro. A adoção de ferramentas digitais é muito mais rápida porque conseguem estabelecer uma relação direta entre ‘melhor informação’ e ‘maior lucro’. Estão já a avançar para além do simples monitorizar e procuram insights preditivos.

Em Portugal, o setor privado está atualmente numa fase de transição interessante.
Historicamente, as empresas portuguesas tiveram um ‘enviesamento para o hardware’. Quando um CEO queria ser sustentável, comprava painéis solares ou novas luzes LED. Era algo físico – podia tocar-se e mostrar-se. A maturidade digital – o lado do software – ficava para trás.

“(…) colocar painéis solares num telhado em Lisboa não resolve o problema se o ar condicionado estiver a competir com o sistema de aquecimento”.

Mas isso está a mudar rapidamente e os HF Hotels e a Details, hospitality, sport & leisure são dois exemplos perfeitos dessa evolução. São o que considero empresas ‘farol’ em termos de maturidade. Perceberam que colocar painéis solares num telhado em Lisboa não resolve o problema se o ar condicionado estiver a competir com o sistema de aquecimento. A maturidade está em como usam os dados. Não analisam apenas o total mensal, utilizam os nossos insights para alterar a cultura operacional. Verificam se as equipas de manutenção ajustam efetivamente os setpoints durante esses meses críticos de transição. Estão a usar dados para gerir comportamento humano, o que representa um nível de maturidade muito avançado.

O setor público – cidades como Porto ou Cascais – está numa posição diferente. A ambição existe, muitas destas cidades têm metas de descarbonização agressivas, frequentemente mais ambiciosas do que as de empresas privadas, mas a execução enfrenta mais fricção.
O desafio no setor público não é falta de vontade, é fragmentação. Os municípios lidam com dados guardados de forma dispersa, dificultando a integração entre sistemas. O departamento que gere as escolas usa um sistema, a iluminação pública usa outro e o departamento financeiro usa um terceiro. Assim, a ‘maturidade digital’ é frequentemente mais baixa porque ainda tentam unificar os dados num único ponto.

Ainda assim, devo dizer isto: as cidades estão a recuperar rapidamente porque enfrentam pressão de diretivas europeias para demonstrar progresso real. Estão a perceber que não conseguem renovar fisicamente todos os edifícios – é caro e lento – por isso recorrem a soluções digitais para encontrar eficiências mais rapidamente.”



PME Mag. – Que barreiras continuam a travar a transição para uma gestão energética inteligente? Custo, literacia digital, falta de dados fiáveis?

Javad Hatami (J. H.) – É uma combinação, mas se tivesse de hierarquizar para a realidade portuguesa, diria que Literacia Digital e Cultura Organizacional são barreiras maiores do que o custo.

Eis a realidade do mercado português:

“Os bancos preferem financiar um painel solar que podem ver. Têm maior resistência em financiar SaaS (Software as a Service) ou melhorias operacionais”.

O efeito ‘UPAC’ (Solar vs. Inteligência): Portugal vive um boom na instalação de solar e de unidades UPAC – Unidades de Produção para Autoconsumo. Se observarmos candidaturas ao Fundo Ambiental ou ao PRR, a maioria dos pedidos destina-se a equipamento físico: painéis fotovoltaicos, janelas, bombas de calor. Porquê? Porque o enquadramento fiscal e bancário português favorece o financiamento de CAPEX. Os bancos preferem financiar um painel solar que podem ver. Têm maior resistência em financiar SaaS (Software as a Service) ou melhorias operacionais. Em praticamente todas as reuniões vemos isto: um cliente tem 100 mil euros para painéis, mas hesita em aprovar 5 mil euros para o software que os gere.

O ‘One-Man Show’ da Manutenção: Na realidade das PME portuguesas, fora de grandes grupos como Sonae ou EDP, o ‘gestor de energia’ não existe. Quando implementamos o sistema da Builtrix num grupo hoteleiro ou numa fábrica de média dimensão, a pessoa com quem interagimos é quase sempre o diretor de manutenção. Esta pessoa é responsável pela segurança contra incêndios, elevadores, canalização e energia. Estão sobrecarregados de trabalho. Sei que a literacia digital é uma barreira porque vejo como utilizam as ferramentas existentes: muitas vezes ignoram os ecrãs complexos dos BMS (Building Management Systems) por serem demasiado complicados e recorrem ao controlo manual. Essa é uma realidade que temos de ter em conta no nosso design.

O hábito da ‘validação da fatura’: Analisamos os comportamentos de login dos nossos utilizadores. Em Portugal, observamos um padrão distinto: muitas empresas ainda tratam a gestão de energia como uma tarefa administrativa e não operacional. O principal caso de uso para muitas empresas tradicionais ainda é apenas «verificar se a fatura da EDP está correta». Elas ainda não estão culturalmente habituadas a encarar a energia como uma variável em tempo real a ser otimizada, ao contrário de mercados como o Reino Unido ou os países nórdicos, onde os preços dinâmicos forçaram esse comportamento mais cedo.

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