Terça-feira, Julho 21, 2026
InícioDestaque"Não se trata de escolher entre tradição ou inovação, mas sim de...

“Não se trata de escolher entre tradição ou inovação, mas sim de encontrar formas de as integrar” – Puratos

Por: Ana Marisa Vieira 

 

Num setor onde tradição e inovação caminham cada vez mais lado a lado, os hábitos de consumo estão a mudar a um ritmo acelerado. Os consumidores procuram produtos mais saudáveis, sustentáveis e funcionais, sem abdicar do sabor, da autenticidade e da experiência. Uma transformação que está a redefinir as estratégias das empresas de panificação, pastelaria e chocolate, obrigando-as a reinventar produtos, processos e modelos de negócio para responder a um consumidor mais informado e exigente.

Ao mesmo tempo, o setor enfrenta um contexto desafiante marcado pela volatilidade dos preços das matérias-primas, pelos impactos das alterações climáticas, pela pressão sobre as cadeias de abastecimento e pela necessidade crescente de adotar práticas sustentáveis. 

Neste cenário, a tecnologia surge como um poderoso acelerador de mudança. Da análise preditiva de tendências à personalização da oferta, passando pela otimização da produção e pela redução do desperdício alimentar, a inteligência artificial promete transformar profundamente a forma como as empresas desenvolvem produtos e se relacionam com os consumidores.

Em entrevista à PME Magazine, Ana Ricardo, diretora de marketing da Puratos Portugal, analisa as principais tendências identificadas pelo estudo global Taste Tomorrow, explica como o setor está a responder às novas exigências do mercado e revela de que forma a inovação, a sustentabilidade e a inteligência artificial poderão moldar o futuro da panificação, pastelaria e chocolate em Portugal.


PME Magazine (PME Mag.) – O estudo global Taste Tomorrow mostra que os consumidores valorizam cada vez mais a saúde, bem-estar e produtos funcionais. Em Portugal, como está a evoluir o consumo nos setores da panificação, pastelaria e chocolate? Que mudanças concretas já estão a observar nos hábitos dos consumidores portugueses?

Ana Ricardo, diretora de marketing da Puratos – O consumidor português tem vindo a evoluir de forma muito clara nos últimos anos, acompanhando tendências globais, mas com algumas especificidades locais. Se, por um lado, a preocupação com a saúde sempre esteve presente, por outro, a pandemia veio acelerar significativamente esta mudança, tornando temas como a alimentação saudável, o bem-estar e até a saúde mental ainda mais centrais nas decisões de consumo. Naturalmente, os setores da panificação, pastelaria e chocolate não ficaram imunes a esta transformação, tal como acontece com outras categorias do FMCG. De acordo com o estudo global Taste Tomorrow, em Portugal verificamos que os consumidores estão cada vez mais focados em atributos funcionais e nutricionais específicos, variando ligeiramente conforme a categoria. Na panificação, destacam-se o equilíbrio nutricional, a saúde intestinal e a preferência por ingredientes naturais. Já na pastelaria, os consumidores valorizam sobretudo o equilíbrio nutricional, ingredientes naturais e o equilíbrio energético. No caso do chocolate, além do equilíbrio nutricional e energético, ganha relevância a associação a benefícios para a saúde do coração.

“(…) estamos perante um consumidor mais informado, exigente e consciente, que procura um equilíbrio entre indulgência e bem-estar”

Estas expectativas estão já a traduzir-se em mudanças concretas nos hábitos de consumo. Por exemplo, 81% dos consumidores acredita que a incorporação de grãos e sementes contribui para tornar o pão mais saudável, o que explica o crescimento da oferta de pães com estes ingredientes. Ao mesmo tempo, observamos uma procura crescente por produtos com benefícios funcionais, nomeadamente ao nível da saúde intestinal, sendo que 84% dos consumidores reconhece o impacto positivo desta no sistema imunitário. Neste contexto, soluções como pães funcionais ou enriquecidos, área onde a Puratos tem sido pioneira, ganham cada vez mais relevância, assim como os pães proteicos. Outro exemplo claro desta evolução é a valorização da massa mãe. Tradicionalmente associada ao sabor, é hoje percecionada como um elemento-chave para a saúde: 55% dos consumidores considera que torna o pão mais saudável, sobretudo pela sua digestibilidade. Na pastelaria e no chocolate, a tendência segue a mesma lógica de equilíbrio entre prazer e saúde. Verifica-se uma aposta crescente na utilização de ingredientes como grãos, sementes e recheios de fruta, bem como no desenvolvimento de produtos com menor teor de açúcar. Aliás, 37% dos consumidores afirma adquirir produtos com baixo teor de açúcar semanalmente, evidenciando que esta não é apenas uma tendência, mas já um hábito consolidado. Em suma, estamos perante um consumidor mais informado, exigente e consciente, que procura um equilíbrio entre indulgência e bem-estar, o que coloca às marcas e produtores o desafio e simultâneamente a oportunidade de inovar continuamente para dar resposta a estas novas necessidades.

PME Mag. – Portugal mantém uma forte ligação à tradição na alimentação, mas os consumidores estão também mais expostos a tendências internacionais e a novos conceitos. Como é que a Puratos vê o equilíbrio entre inovação e autenticidade no mercado português? Há espaço para reinventar produtos tradicionais sem perder identidade?

Portugal mantém, de facto, uma forte ligação à tradição alimentar, e isso continua a ser um pilar essencial na forma como os consumidores se relacionam com os produtos de panificação, pastelaria e chocolate. Os dados do Taste Tomorrow mostram claramente esta realidade: 86% dos consumidores portugueses afirmam gostar de sabores tradicionais, colocando Portugal no top 5 europeu, e 71% valorizam a presença de um elemento familiar quando experimentam novos produtos, o que demonstra a importância da autenticidade e da memória gustativa. No entanto, esta valorização da tradição não impede, antes complementa, uma crescente abertura à inovação.

“75% dos consumidores indicam que gostam de descobrir sabores exóticos de outras partes do mundo”

O consumidor português está hoje mais exposto a tendências globais, muito impulsionado pelas redes sociais e pelo fácil acesso à informação, o que se traduz numa maior curiosidade e vontade de experimentar. De facto, 75% dos consumidores indicam que gostam de descobrir sabores exóticos de outras partes do mundo, com particular interesse por influências asiáticas, e 68% mostram apetência para experimentar combinações de sabores que, à partida, podem parecer invulgares. Para a Puratos, o equilíbrio entre inovação e autenticidade passa precisamente por conciliar estas duas dimensões. Não se trata de escolher entre tradição ou inovação, mas sim de encontrar formas de as integrar. Uma das abordagens mais relevantes é a reinvenção dos clássicos, seja através da valorização de produtos típicos da pastelaria e panificação portuguesa com pequenas inovações em ingredientes, formatos ou perfis nutricionais, seja através da introdução de elementos diferenciadores que criem novas experiências sem descaracterizar a essência do produto. Ao mesmo tempo, existe também uma oportunidade clara em trazer para o mercado português especialidades internacionais, reinterpretadas ou adaptadas ao gosto local, tendo em conta que o consumidor está cada vez mais informado e recetivo a tendências globais. Esta dinâmica é ainda reforçada por um contexto de crescente diversidade demográfica e pelo aumento significativo do turismo em Portugal, que contribuem para uma maior mistura de referências culturais e gastronómicas. Há claramente espaço para reinventar produtos tradicionais sem perder identidade. O futuro passa por criar pontes entre o familiar e o inesperado, garantindo que a inovação respeita e valoriza a autenticidade que os consumidores tanto apreciam, enquanto responde à sua crescente curiosidade e abertura ao mundo.


PME Mag. – O setor enfrenta desafios relevantes ligados ao aumento dos custos de produção, matérias-primas e energia. Como é que as empresas do setor podem proteger a rentabilidade sem comprometer qualidade e sustentabilidade?

O setor atravessa atualmente um contexto particularmente desafiante, marcado por uma elevada volatilidade e por fatores externos difíceis de controlar. Conflitos geopolíticos como a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, bem como tensões noutras regiões estratégicas como o estreito de Ormuz, têm tido um impacto direto nos custos logísticos e energéticos, mas também no preço de várias matérias-primas essenciais para a nossa indústria, como os laticínios ou o açúcar. A estes fatores junta-se ainda um aumento muito significativo nos custos de embalagem. Perante este cenário, a inflação tornou-se uma realidade incontornável que as empresas procuram gerir com grande responsabilidade, tentando minimizar o impacto ao longo da cadeia de valor, desde os clientes até ao consumidor final.

“É importante sublinhar que o aumento dos custos das matérias-primas não se deve apenas a fatores geopolíticos, mas também ao impacto crescente das alterações climáticas (…)”

O desafio passa por encontrar um equilíbrio entre a proteção da rentabilidade e a manutenção dos elevados padrões de qualidade que caracterizam o setor. No entanto, há um fator que não pode ser colocado em segundo plano: a sustentabilidade. Este é um caminho irreversível. É importante sublinhar que o aumento dos custos das matérias-primas não se deve apenas a fatores geopolíticos, mas também ao impacto crescente das alterações climáticas, que têm vindo a afetar significativamente a produtividade agrícola. Exemplos recentes, como as dificuldades nas colheitas de cacau no último ano, demonstram como os fenómenos climáticos extremos estão a tornar-se uma variável crítica. Neste contexto, torna-se essencial apostar numa cadeia de valor mais resiliente e responsável, privilegiando matérias-primas produzidas de forma sustentável, que respeitem os ciclos naturais e evitem práticas como a desflorestação ou a exploração intensiva dos recursos.

Na Puratos, esta visão traduz-se em iniciativas concretas, como o programa Cacao-Trace, que reforça o compromisso com práticas agroflorestais responsáveis. Este programa visa garantir a qualidade do cacau, proteger o ambiente e melhorar as condições das comunidades produtoras, assegurando uma cadeia de abastecimento mais sustentável e transparente. A resposta aos desafios atuais passa por uma abordagem integrada: gestão eficiente de custos, inovação contínua e um compromisso firme com a sustentabilidade. Só desta forma será possível garantir a rentabilidade do negócio a longo prazo, sem comprometer a qualidade dos produtos nem a responsabilidade ambiental que o setor exige.

PME Mag. – A inteligência artificial foi um dos temas centrais do evento Taste Tomorrow. De que forma a IA poderá transformar os setores da panificação, pastelaria e chocolate nos próximos anos, desde o desenvolvimento de produto até previsão de consumo, personalização e eficiência operacional?

A inteligência artificial representa uma das transformações mais relevantes para o setor nos próximos anos, com impacto transversal em toda a cadeia de valor, desde o desenvolvimento de produto até à relação com o consumidor e à eficiência operacional. Ao nível da inovação e desenvolvimento de produto, a IA permite analisar grandes volumes de dados de consumo, como os que recolhemos através do Taste Tomorrow, identificando tendências emergentes de forma muito mais rápida e precisa. Assim, temos uma maior capacidade de antecipar necessidades e desenvolver produtos mais alinhados com as expetativas dos consumidores, ao nível de perfis nutricionais, preferências de sabor ou até benefícios funcionais. Na previsão de consumo, a IA assume também um papel fundamental ao melhorar a precisão das previsões de procura, permitindo às empresas otimizar a produção, reduzir desperdícios e gerir melhor os seus stocks. Num setor como o da panificação e pastelaria, onde a frescura é crítica e o desperdício alimentar é um desafio relevante, esta capacidade é particularmente valiosa. Outro ponto-chave é a personalização. Através da análise de dados, a IA permite criar experiências mais ajustadas a diferentes perfis de consumidores, seja através de recomendações de produtos, desenvolvimento de ofertas mais direcionadas ou até conceitos de produto adaptados a necessidades específicas, como dietas ou estilos de vida.

“A inteligência artificial permite-nos ser mais rápidos, mais precisos e mais próximos do consumidor (…)”

Ao nível operacional, a inteligência artificial contribui para ganhos de eficiência significativos, nomeadamente na otimização de processos produtivos, controlo de qualidade e gestão da cadeia de abastecimento. Além disso, permite reduzir custos e aumentar a consistência e qualidade dos produtos. Na Puratos, vemos a IA como uma ferramenta complementar à criatividade humana e ao know-how do setor. O equilíbrio entre tecnologia e expertise é essencial para garantir que continuemos a inovar de forma relevante, mantendo sempre o foco naquilo que é mais importante: responder às necessidades do consumidor com produtos de elevada qualidade, sabor e valor acrescentado. A inteligência artificial permite-nos ser mais rápidos, mais precisos e mais próximos do consumidor, contribuindo para um ecossistema mais eficiente, sustentável e orientado para o futuro.

 

PME Mag. – O consumidor europeu está mais atento à origem dos ingredientes, desperdício alimentar e impacto ambiental das marcas. Que tendências de sustentabilidade estão a ganhar mais relevância em Portugal? E onde é que as empresas portuguesas ainda têm maior margem de evolução?

A sustentabilidade é agora uma exigência estrutural do consumidor. Os dados do Taste Tomorrow mostram que os consumidores portugueses, à semelhança dos restantes europeus, encaram hoje os temas ambientais como uma necessidade urgente, muito impulsionada pela evidência crescente das alterações climáticas. No setor da panificação, pastelaria e chocolate, esta preocupação traduz-se sobretudo em três grandes eixos.

“Cerca de 70% dos consumidores afirmam procurar produtos produzidos de forma mais sustentável e 69% demonstram interesse por alimentos provenientes de métodos agrícolas sustentáveis”.

O primeiro é a origem responsável dos ingredientes. Existe uma expectativa clara de que as matérias-primas sejam obtidas de forma ética e sustentável, garantindo a preservação dos recursos naturais e rendimentos mais justos para os agricultores. O segundo eixo prende-se com a transparência: 72% dos consumidores querem ser informados sobre a origem dos alimentos, o que demonstra que a rastreabilidade e a comunicação clara são hoje fatores-chave na construção de confiança. Por fim, as embalagens sustentáveis assumem um papel central, com 82% dos consumidores a defenderem que todos os produtos alimentares devem ser vendidos com soluções de embalagem amigas do ambiente. Adicionalmente, verifica-se uma procura crescente por produtos mais sustentáveis de forma transversal. Cerca de 70% dos consumidores afirmam procurar produtos produzidos de forma mais sustentável e 69% demonstram interesse por alimentos provenientes de métodos agrícolas sustentáveis. A valorização do local é também uma tendência relevante: 76% dos consumidores portugueses acreditam que os alimentos confecionados com ingredientes locais têm um impacto positivo no ambiente, o que reforça a importância das cadeias de abastecimento mais curtas e da proximidade ao produtor.

Apesar destes avanços, existe ainda margem de evolução sobretudo ao nível da consistência e da escala das práticas sustentáveis, mas o desafio passa agora por integrar a sustentabilidade de forma estrutural em toda a cadeia de valor, desde a origem das matérias-primas até à produção, distribuição e comunicação com o consumidor. A transparência contínua, a inovação em embalagens e o reforço de práticas agrícolas regenerativas serão áreas críticas para o futuro.

 

PME Mag. – O mercado português de panificação e pastelaria continua muito fragmentado, com milhares de operadores e forte concorrência. Num setor que vale mais de 2 mil milhões de euros em Portugal, quais serão os fatores decisivos para as empresas crescerem nos próximos anos: inovação, escala, diferenciação artesanal, tecnologia ou internacionalização?

O mercado português é, de facto, muito competitivo e fragmentado, o que torna ainda mais relevante a capacidade das empresas se diferenciarem de forma consistente e sustentável. Neste contexto, não existe um único fator decisivo, mas sim a combinação de vários e, sobretudo, a capacidade de os integrar de forma estratégica.

“A capacidade de compreender melhor o consumidor, antecipar tendências e otimizar processos permitirá às empresas tomar decisões mais informadas, melhorar a eficiência operacional e reduzir desperdícios”.

A inovação de produto será, sem dúvida, um dos principais motores de crescimento. No entanto, esta inovação deve ser feita com base num equilíbrio claro entre tradição e modernidade, respeitando a forte ligação do consumidor português aos produtos artesanais, ao mesmo tempo que se introduzem novas propostas alinhadas com tendências globais, como a fusão de sabores ou os benefícios funcionais identificados no Taste Tomorrow. A tecnologia, e em particular a inteligência artificial, terá também um papel cada vez mais determinante. A capacidade de compreender melhor o consumidor, antecipar tendências e otimizar processos permitirá às empresas tomar decisões mais informadas, melhorar a eficiência operacional e reduzir desperdícios. Outro pilar essencial é a sustentabilidade. Como já referimos, não se trata apenas de uma tendência, mas de um requisito fundamental para garantir relevância a médio e longo prazo. As empresas que conseguirem integrar práticas sustentáveis de forma consistente, desde a origem das matérias-primas até à produção e embalagem, estarão naturalmente melhor posicionadas para responder às expectativas crescentes dos consumidores. Para além destes fatores, a diferenciação passa também pela capacidade de criar valor para o cliente.

Na Puratos, acreditamos muito numa abordagem de parceria, que vai além do produto. Através de uma estratégia 360°, procuramos apoiar os nossos clientes em áreas como a gestão de categoria, ajudando-os a otimizar o sortido, melhorar a exposição dos produtos e alinhar a sua oferta com as tendências de consumo, aumentando assim a sua competitividade e visibilidade no ponto de venda. Em suma, as empresas que conseguirem combinar inovação relevante, tecnologia, sustentabilidade e uma forte proximidade ao mercado estarão mais bem preparadas para crescer num setor exigente, mas também cheio de oportunidades.

PODE GOSTAR DE LER
Continue to the category
PUB

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

NEWSLETTER

PUB
PUB

SUSTENTABILIDADE

Continue to the category