Sexta-feira, Agosto 14, 2026
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O futuro digital não fala com sotaque europeu

Por: Marta da Costa, Chief Growth Officer no mercado da América Latina e investidora


Trabalho há mais de vinte anos entre os cinco continentes, com atuação mais intensa na América Latina e na África. Há doze anos moro em São Paulo, Brasil, o epicentro da transformação digitallatino-americana. Vivi e fiz parte da construção de algumas das maiores empresas de tecnologia do Brasil, sendo que uma levei até a abertura de capital aberto na Bolsa de Valores, e outra, após reposicionamento foi vendida por 1,2 bilhão de reais [cerca de 191 milhões de euros], com isto, assinei de forma histórica, o desenvolvimento de seis das principais companhias de e-commerce da América Latina, todas elas concorrentes.

Não é uma visão de quem observa de fora, mas de quem esteve dentro, desafiou e ajudou a moldar o mercado, sem achismos. Foi muita entrega de alma a cada projeto e a cada narrativa que tinha de construir para vender os mesmos serviços.

Virou referência do segmento referido.

Esta intro, serve não como uma ostentação, sendo que tem muito “suor” nestas conquistas mas acima de tudo falar com propriedade, tendo em conta as escalas dos diferentes países impactados.  

Muito se fala de inovação e transformação digital, mas deixo claro que ela não nasceu no velho mundo. Nasceu onde a urgência sempre foi mais forte do que a estrutura.

Enquanto a Europa discutia políticas de transição digital, regulação e frameworks de inovação, países como Brasil, México, Quénia e Nigéria criavam ecossistemas inteiros sem tempo para teorias. No Brasil, o sistema Pix (mbway pt), criado a partir da lógica das fintechs e da integração real entre banco central e mercado, movimentou mais de 180 milhões de utilizadores e transformou o comportamento financeiro e de consumo em tempo recorde. Em África, o M-Pesa, nascido no Quénia, levou o pagamento digital a quem nunca
teve conta bancária e tornou-se referência global em inclusão financeira. E enquanto a Europa debate interoperabilidade e privacidade, esses mercados já vivem a integração plena entre pagamento, consumo, atendimento e, cada vez mais, soluções baseadas em inteligência artificial, aplicadas a crédito, suporte, recomendação e experiência do cliente.

A América Latina reúne mais de 660 milhões de habitantes, com uma taxa de penetração digital acima de 78%. África ultrapassa 1,4 mil milhões de pessoas, com 70% das transações financeiras realizadas via mobile. São números que revelam mais do que adoção tecnológica: mostram a capacidade de transformar limitação em eficiência.

Esses mercados não esperaram por estabilidade para inovar. Fizeram o oposto. Inovam porque não havia alternativa. É esse tipo de cultura, adaptável, veloz e prática que as PME portuguesas precisam observar. Porque o digital não é uma ferramenta, é um modelo de negócio, e quem ainda espera o momento certo para digitalizar já está atrasado.

Portugal tem talento e reputação global, mas falta-lhe, talvez, a urgência de quem não tem escolha. Os países que foram chamados de terceiro mundo já não seguem tendências, eles definitivamente criam-nas.

O futuro digital não será definido por quem tem mais recursos, mas por quem tem mais capacidade de adaptação. E essa, convenhamos, nunca foi uma fraqueza dos mercados emergentes.

O meu desafio e dica para as PME portuguesas é que se inspirem em cases da área de negócio que estão a desenvolver, junto de países que, por algum preconceito, chamam de terceiro mundo, mas que estes são simplesmente uma uma década na frente na área digital e têm muito para ensinar, sem deixar margem de erro, a quem arriscar e se aventurar em empreender de forma agressiva e sem medo e pronto de escalar negócios.

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