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“O nosso principal investimento está a ser feito na construção modular e off-site” – Garcia Garcia

Por: Ana Vieira e Catarina Sargento

 

Com sede em Santo Tirso, a Garcia Garcia, construtora nacional especializada no design and build de edifícios residenciais, comerciais, industriais, logísticos e de serviços, iniciou a sua atividade no final do século XIX com a construção de chaminés para a indústria têxtil, que são hoje parte do património histórico português.

Atualmente, o serviço prestado pela Garcia Garcia vai desde a seleção da localização até à execução, e ainda pelos projetos de arquitetura e de engenharia mas a grande aposta está nos sistemas construtivos modulares, industrializados e pré-fabricados, que reduzem prazos, desperdício e custos. 

Em entrevista à PME Magazine, Miguel Garcia, administrador da Garcia Garcia afirma que a empresa está “a desenvolver um sistema modular tridimensional, para construção em altura. Estamos na fase final dos protótipos e esperamos arrancar com o primeiro edifício em breve.”.

 

PME Magazine (PME Mag.) – Quais foram os fatores que contribuíram para um crescimento de 12% na faturação da empresa em 2024?
Miguel Garcia (M.G.) – O crescimento foi suportado num aumento do número de obras face a 2023, reflexo do trabalho comercial desenvolvido e na consolidação da notoriedade da Garcia Garcia no mercado. E, ainda que a alguma distância, será expectável que o anterior se reflita em novo crescimento a dois dígitos em 2025. 

 

PME Mag. – A aposta em promoção imobiliária própria, com projetos residenciais em Guimarães e Santo Tirso, marcam uma nova etapa. Que importância estratégica tem esta diversificação no vosso portefólio?
M.G. – O design & build para os setores industrial e logístico é o core business da Garcia Garcia. Contudo, temos vindo a trabalhar na promoção de alguns projetos residenciais, bem como nos segmentos de escritórios e no retalho, aproveitando oportunidades estratégicas de investimento, estes últimos no âmbito do build to rent.

“O nosso setor é conhecido por funcionar por ciclos, com períodos de crescimento e declínio, sempre muito dependente da macroeconomia”.

A diversificação do negócio representa um passo consciente na preparação para o futuro, fortalecendo competências e capacidade de adaptação. Esta estratégia está alinhada com uma visão de sustentabilidade a longo prazo, de forma a reforçar a resiliência da empresa e a reduzir a sua exposição a flutuações dos ciclos económicos. O nosso setor é conhecido por funcionar por ciclos, com períodos de crescimento e declínio, sempre muito dependente da macroeconomia. Diversificar ajuda a minimizar riscos em períodos de maior turbulência, e a diminuir a exposição da empresa à volatilidade do setor.

A nossa estratégia de diversificação permite-nos ampliar portefólio de produtos, alcançando novos clientes e novas fontes de receita. Estamos a responder a necessidades imediatas do mercado, enquanto preparamos a empresa para os próximos anos.

 

PME Mag. – Com 75% do volume de negócios centrado em projetos industriais e logísticos, que tendências identificam neste setor e como se posiciona a Garcia Garcia para responder às novas exigências do mercado?
M.G. – O alinhamento com temáticas ESG está no topo da agenda e das prioridades. Há uma crescente procura por construções sustentáveis, com práticas que visam a neutralidade carbónica e/ou a minimização da pegada na construção ou operação do edifício.

“Nos edifícios observa-se também a procura por flexibilidade e escalabilidade”.

Os edifícios começam assim a ser pensados de forma mais global, com foco em preocupações ambientais e sociais. E isto é observável no aumento da procura por edifícios com certificações de sustentabilidade (ex: LEED / BREEAM), uma vez que estas são percecionadas como uma vantagem diferenciadora que ajuda a cumprir as metas ESG das empresas. Nos edifícios observa-se também a procura por flexibilidade e escalabilidade. Ou seja, edifícios desenhados com modularidade para se adaptarem a diferentes ocupações (armazenagem, indústria leve, logística urbana), de forma rápida e com o menor custo possível. Ou seja, estruturas de grande vão livre, que permitem reorganizar o espaço interno com facilidade.

Por outro lado, o crescimento da logística urbana e de last mile, potenciada pelo e-commerce, impulsionam centros logísticos mais próximos dos centros urbanos. Assim, surge a necessidade de edifícios mais compactos, com foco na rapidez e agilidade de distribuição. Em termos técnicos, uma tendência em forte crescimento é a incorporação de soluções de gestão técnica centralizada e de IoT (Internet das Coisas). Ou seja, sistemas que permitem monitorizar, controlar e otimizar todos os sistemas técnicos de um edifício, promovendo a redução de custos com eficiência energética, conforto, segurança e manutenção preventiva.

 

PME Mag. – Como avalia a evolução do setor da construção em Portugal e que tendências acredita que vão marcar os próximos anos?
M.G. – A construção em Portugal tem registado um crescimento contínuo e não será de esperar um abrandamento no curto prazo. Contudo, o setor enfrenta sérios desafios ao nível da sua capacidade de resposta/entrega e na adaptação às exigências que a emergência climática coloca. O setor terá de caminhar para um futuro mais sustentável e tecnológico, de forma a fazer face ao seu impacto ambiental, à escassez de mão-de-obra e à pressão para diminuição dos prazos de entrega.

“(…) é expectável um foco na rapidez da construção, com adoção crescente de sistemas construtivos modulares, industrializados e pré-fabricados, que reduzem prazos, desperdício e custos”.

De forma sucinta, é expectável um foco na rapidez da construção, com adoção crescente de sistemas construtivos modulares, industrializados e pré-fabricados, que reduzem prazos, desperdício e custos. A construção off-site deverá crescer exponencialmente. Estes sistemas deverão ganhar destaque devido à sua eficiência, economia de custos e menor impacto ambiental, permitindo construções mais rápidas e sustentáveis, com menor necessidade de mão-de-obra. Paralelamente, ainda que a alguma distância, soluções de robótica avançada (máquinas que realizam tarefas repetitivas ou perigosas) estarão na linha da frente da evolução.

 

PME Mag. – A inovação tem sido uma aposta da Garcia Garcia. Pode partilhar alguns exemplos recentes de soluções ou tecnologias aplicadas em obra ou no escritório?
M.G. – A Garcia tem vindo a trabalhar em diferentes soluções, quer ao nível de projeto, quer ao nível de obra.

No presente momento destacamos, na área da robótica e Inteligência Artificial, as parcerias que estamos a fazer com diferentes agentes do setor e do meio científico, ao nível do desenvolvimento de plataformas digitais inteligentes para a gestão da manutenção de ativos, assim como, no desenvolvimento de soluções capazes de permitir a colaboração eficaz e segura entre máquinas autónomas de grande porte e trabalhadores humanos.

 

PME Mag. – Nos últimos anos, o setor da construção tem enfrentado desafios significativos na contratação de mão de obra qualificada. Como tem a Garcia Garcia lidado com esta realidade e que soluções considera mais eficazes para ultrapassar esta escassez de talento?
M.G. – Globalmente, a construção enfrenta uma crise sem precedentes ao nível da mão-de-obra. E para a enfrentar é necessária uma “revolução industrial”. É necessário mudar o paradigma da construção.

Esta revolução passa pela nova definição de processos e modelos construtivos, caminhando para uma verdadeira industrialização da construção. Como tal, temos investido e trabalhado para diminuir a dependência de mão-de-obra. Na fase de conceção procuramos desenvolver em soluções que permitam a utilização superior de pré-fabricação, em detrimento de soluções convencionais que necessitam de mão-de-obra intensiva. Naturalmente, todos os agentes do setor têm de esta alinhados para garantir soluções e a sua operacionalização.

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