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“O nosso sucesso depende da continuidade do negócio e das pessoas”  – Encruzado Partners

Por: Ana Marisa Vieira e Helena Schlindwein


A Encruzado Partners foi criada por Sónia Vaz e Ricardo Cardoso, dois empreendedores que decidiram regressar a Portugal depois de carreiras internacionais para apoiar a continuidade e o crescimento de PME nacionais.

Com experiências complementares em gestão e operações, Sónia e Ricardo focam-se em transições cuidadas, procurando garantir que o legado dos fundadores é preservado e que a empresa mantém a sua cultura, identidade e equipa. O objetivo é proporcionar uma saída segura para os empresários, sem comprometer a estabilidade do negócio.

Em entrevista à PME Magazine, explicam como o modelo de Search Fund pode ser uma alternativa à venda tradicional ou ao encerramento por falta de sucessão, detalham o processo de aquisição e partilham a sua abordagem centrada nas pessoas, na continuidade e no crescimento sustentável da empresa.

 

PME Magazine (PME Mag.) – Portugal é um país de PME familiares com problemas de sucessão. Como é que um Search Fund como a Encruzado Partners pode ser uma alternativa real à venda tradicional da empresa ou ao encerramento por falta de continuidade?

Sónia Vaz e Ricardo Cardoso – Um Search Fund como a Encruzado Partners pode ser uma alternativa real porque oferece ao empresário uma sucessão com continuidade, e não apenas uma transação financeira.

Uma das grandes preocupações dos donos aquando da venda das suas empresas via os canais ditos tradicionais é o receio de que a sua empresa vai ser descaracterizada porque quem entra se foca em criar uma cultura totalmente nova de forma a integrar a empresa num grupo maior ou porque se foca em resultados a curto prazo. Por outro lado, nenhuma das opções tradicionais de compra proporciona ao dono a sua saída imediata ou quase da empresa.

O Search Fund, da forma como o vemos, traz uma resposta direta a ambas as problemáticas, porque se constrói à volta de uma visão de longo prazo, focada na história da empresa e nas suas pessoas, ao mesmo tempo permitindo ao dono, de uma forma eficaz e simple, se retirar do seu negócio, sem que tenha receio de que o seu legado venha a ser destruído. 

«Assumir a gestão no dia-a-dia, “pôr as mãos na massa”, e garantir uma transição estruturada, cuidada e respeitosa para o fundador»

No nosso caso específico, somos dois empreendedores com experiências complementares e carreiras internacionais que decidiram regressar a Portugal para adquirir, operar e desenvolver, a longo prazo, uma PME sólida, evitando o seu encerramento por falta de continuidade. O nosso compromisso é assumir a gestão no dia-a-dia, “pôr as mãos na massa”, e garantir uma transição estruturada, cuidada e respeitosa para o fundador.

Cada empresa e cada empresário são únicos e a nossa estratégia será sempre personalizada para que a nossa entrada na mesma traga benefícios a toda a linha e não disrupção de algum tipo.

Não estamos sozinhos neste percurso. Contamos com um grupo selecionado de investidores e operadores experientes, com histórico comprovado na aquisição, operação e crescimento de PME, que nos apoiam ao longo da jornada. Juntamos essa experiência a uma visão renovada, sempre com profundo respeito pelo legado já construído.

 

PME Mag. – Para um empresário que construiu a sua empresa ao longo de décadas, o que distingue vender a um Search Fund de vender a um fundo de private equity ou a um concorrente estratégico? 

Antes de mais, é importante clarificar: não somos um fundo. Somos um duo de empreendedores com a missão de dar continuidade e ajudar a crescer uma PME sólida que já criou valor ao longo do tempo.

A grande diferença está no tipo de comprador e no horizonte de decisão. Num Search Fund, os compradores são os futuros gestores, com envolvimento direto na operação e uma visão de longo prazo. O objetivo não é construir um portfólio, é simplesmente comprar uma só empresa e não existe pressão para vender rapidamente, integrar a empresa num grupo maior ou fazer mudanças abruptas que coloquem em risco a cultura, a equipa ou a identidade do negócio.

De forma resumida:

Dimensão

Search Fund

Private Equity

Concorrente Estratégico

Posição do proprietário

Flexibilidade para acomodar as necessidades do fundador

Decisão frequentemente imposta de permanecer ou sair

Decisão frequentemente imposta de permanecer ou sair

Foco na empresa

Foco exclusivo numa única empresa

Uma de várias empresas no portfólio do fundo

Uma divisão dentro de um grupo maior

Futuro dos colaboradores

Continuidade e papel central

Risco de downsizing e externalização

Risco de downsizing e externalização

Criação de valor

Crescimento sustentável

Engenharia financeira e melhoria de margens

Captura de sinergias e eficiência operacional

Número de aquisições

Apenas uma empresa

Múltiplas, dependendo do tamanho e estratégia do fundo

Múltiplas, conforme estratégia e orçamento

Envolvimento de quem adquire

Envolvimento total e gestão diária

Envolvimento ao nível do conselho

Uma entre várias divisões do grupo

Horizonte temporal

Longo prazo, sem prazo rígido de saída

Limitado à duração do fundo

Indefinido / incerto

Origem do capital

Grupo próximo de investidores ativos e diversificados

Grandes investidores institucionais com envolvimento limitado

Acionistas do grupo

 

PME Mag. – O modelo de empreendedorismo por aquisição ainda é pouco conhecido em Portugal. Que mitos ou receios têm encontrado junto dos empresários quando explicam este modelo pela primeira vez?

Apesar de ser um ecossistema ainda não muito maduro e em franca expansão, a verdade é que Portugal tem já vários casos de Search Fund com êxito visível. A primeira aquisição via um Search Fund aconteceu em 2020 e desde aí já ocorreram um total de seis transações.

Na verdade, todos os searchers (empreendedores) portugueses que iniciaram a sua aventura conseguiram adquirir uma empresa, ao contrário do que acontece noutras geografias, como Espanha ou Estados Unidos. Para além disso, os searchers portugueses têm vindo a ter sucesso com a gestão das suas empresas, ao ponto de nos podermos orgulhar do facto de alguns deles fazerem parte do leque de investidores que apostaram na Encruzado Partners.

Porém e naturalmente, como qualquer tipo de empreendedorismo, ainda para mais feito de uma forma menos ortodoxa, há vários receios comuns no empresário vendedor:

  • “Vão despedir pessoas ou cortar custos a todo o custo”
  • “Isto é um fundo disfarçado que vai vender rápido”
  • “Vou perder controlo e confidencialidade”

“Não somos investidores financeiros, mas sim operadores”

Quando explicamos o modelo, esclarecemos que não somos investidores financeiros, mas sim operadores, que o nosso sucesso depende da continuidade do negócio e das pessoas, e que todo o processo é conduzido com discrição e respeito. Muitas vezes, após essa explicação, o receio transforma-se em curiosidade e abertura para conversar.

O facto de nos posicionarmos como empreendedores em vez de executivos financeiros, de demonstrarmos o nosso foco em ter impacto local e de exaltarmos que o nosso regresso a Portugal acontece após carreiras enriquecedoras em vários setores e geografias, permite aos empresários entender que o nosso enquadramento é especial e tem em conta aquilo que são os seus interesses e os das suas pessoas.

 

PME Mag. – Referem que não procuram “retornos imediatos”, mas sim crescimento sustentável. Que tipo de PME são candidatas ideais e que sinais indicam que uma empresa está preparada para esta transição de liderança?

Durante a nossa preparação para este projeto desenvolvemos uma metodologia que estabelece claramente quais os nossos requisitos em termos do modelo de negócio e parâmetros financeiros da nossa empresa-alvo ideal. Porém, sabemos que num mercado competitivo como o de Portugal, temos de ser pragmáticos para que concretizamos o nosso objetivo e por essa razão, estabelecemos como prioridade uma PME que apresente:

  • EBITDA igual ou superior a 1,5 milhões de euros
  • Margens iguais ou superiores a 10%
  • Receitas recorrentes ou facilmente previsíveis
  • Histórico positivo de resultados e geração de caixa
  • Inseridas em setores B2B especializados, com know-how e posicionamento claro
  • Um claro problema de sucessão 

Mais do que números perfeitos, valorizamos empresas com bases sólidas, equipas comprometidas e fundadores que queiram preparar uma transição com tempo, cuidado e ambição.

PME Mag. – A partir do momento em que uma empresa aceita ser vendida, como decorre o processo? 

Como referimos antes, cada empresa e cada empresário são únicos e estamos dispostos a despender o tempo necessário para os conhecer e as suas especificidades.

Garantido que a empresa tem um histórico positivo e há uma ambição de venda, procuraremos adaptar o nosso processo e assegurar que corresponde às expectativas de ambos os lados. Tipicamente, o nosso processo demorará entre 4 a 6 meses e inclui as seguintes 6 etapas:

  1. primeiro contacto para entendimento preliminar de interesse mútuo
  2. primeira reunião presencial sem compromisso para conhecer melhor o fundador, a história, a visão e a motivação da empresa
  3. Troca de informação, que pode já incluir assinatura de NDA quando avançamos para informação sensível 
  4. Acordo de Exclusividade, que inclui um LOI (Letter of Interest, ou em português Carta de Interesse) onde podem ser discutidos os pontos-chave como preço, estrutura e principais condições de forma transparente
  5. Due Dilligence
  6. Assinatura e fecho

 

PME Mag. – Sendo este também um regresso a Portugal depois de carreiras internacionais, que mensagem gostariam de deixar aos empresários portugueses que hoje enfrentam o dilema da sucessão, mas ainda não sabem como garantir o futuro da sua empresa?

A primeira coisa que diríamos é que não estão sozinhos. Hoje em Portugal, cerca de 85% das empresas não têm um plano de sucessão claro e, no caso das empresas familiares, quase 70% não transita para a segunda geração.

O problema de sucessão é real, mas as boas notícias é que existe uma solução prática que não compromete a empresa. Essa é exatamente a segunda coisa que diríamos: enquanto empreendedores motivados e experientes, nós podemos ser a solução para esse dilema de sucessão e estamos aqui exatamente para cuidar do legado que foi criado pelos empresários que não têm a quem passar a sua obra de vida.

Para nós, também é importante dizer aos empresários portugueses que se sintam orgulhosos pelo caminho que traçaram e pelo contributo que deram. A nossa missão, ao atuar como operadores, passa também por demonstrar respeito por essas conquistas e ambicionar levá-las mais além. 

Reforçamos, ainda, que para nós, regressar a Portugal é um ato de propósito. Depois de carreiras internacionais, escolhemos voltar às nossas raízes para contribuir diretamente para o país, com empatia e responsabilidade. Se é um empresário a enfrentar um dilema de sucessão, convidamo-lo a uma conversa para nos conhecermos, trocar ideias e, quem sabe, darmos os próximos passos juntos.

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