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O que aprendi com 100 reuniões de donos de PME nos últimos meses

Rita Maria Nunes TAB The Alternative Board

Rita Maria Nunes
Country Manager TAB Portugal

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Nos últimos meses sentei-me à mesa com mais de uma centena de empresários portugueses. Não foram reuniões formais, cheias de PowerPoints e discursos ensaiados. Foram conversas reais, de gente real, que luta todos os dias para manter o seu negócio vivo, pagar salários, criar algo de valor e, no meio de tudo isso, tentar não perder a sanidade.

Estar tantas horas a ouvir, perguntar e refletir com quem vive a realidade das PME é um privilégio e, ao mesmo tempo, uma lição diária de humildade. Há padrões que começam a saltar à vista. Não importa se a empresa vende viagens, faz moldes industriais ou organiza eventos: os desafios, lá no fundo, são muito parecidos. E as soluções, por vezes, estão bem mais perto do que parece.

1. Muitos donos de PME vivem em “modo bombeiro”

Ouvindo-os, percebi que grande parte começa o dia a correr e acaba o dia a apagar fogos. A prioridade é sempre resolver o problema mais urgente, seja um cliente irritado, um fornecedor atrasado ou um colaborador que se despede sem aviso. Poucos têm tempo (ou disposição) para pensar estrategicamente. E quando pergunto: “Qual é a tua visão para daqui a três anos?”, a resposta muitas vezes é um silêncio seguido de um encolher de ombros.

A lição? Quem vive só no imediato não cria futuro. E o futuro cobra caro.

 

2. O controlo financeiro ainda é tabu

Muitos empresários continuam a gerir com base no extrato bancário. “Se há dinheiro na conta, está tudo bem.” Só que, muitas vezes, não está. A ausência de indicadores claros, relatórios mensais ou sequer uma análise de margens faz com que decisões cruciais sejam tomadas às cegas. Um deles disse-me, a rir nervoso: “Eu sei mais ou menos quanto faturo, mas não sei ao certo quanto ganho.”

A lição? Sem números não há gestão. E sem gestão, o negócio vive por sorte – até ao dia em que a sorte acaba.

 

3. Sozinhos, mas não isolados

Outra coisa que se tornou evidente: ser dono de uma PME é solitário. O peso das decisões é gigante e raramente existe alguém dentro da própria empresa com quem se possa falar abertamente. Alguns tentam conversar com amigos ou familiares, mas não é a mesma coisa.

Quando estes empresários encontram um espaço seguro para partilhar – seja num grupo de empresários, num conselho consultivo ou com um mentor – a transformação é visível. Há uma libertação, um alívio, e de repente surgem ideias e soluções que antes pareciam impossíveis.

 

4. A paixão é a chama que mantém o motor ligado

No meio de tantos números, problemas e desafios, algo que me surpreendeu foi o brilho nos olhos quando falam do motivo pelo qual começaram. Uma dona de uma pequena fábrica disse-me: “Isto começou na garagem dos meus pais. Cada vez que penso nisso, lembro-me que não posso desistir.” Um empresário do setor agrícola contou-me que começou a plantar porque queria criar um produto português de qualidade mundial.

A lição? Quando a paixão se perde, o negócio perde força. É preciso revisitá-la de tempos em tempos.

 

5. Não é preciso fazer tudo sozinho

Se há um fio condutor em todas estas reuniões é a crença de que “o dono é quem tem de resolver tudo”. Mas a verdade é que as PME que mais crescem são aquelas em que o dono começa a delegar, a confiar e a estruturar processos. Não é sobre abdicar do controlo, mas sim sobre criar um sistema onde a empresa funciona mesmo quando o dono não está lá todos os dias.

E então, o que fazer com tudo isto?

Depois de ouvir estas histórias e ajudar a redesenhar caminhos, percebo que as PME portuguesas são um património de coragem e criatividade. Mas também precisam, urgentemente, de tempo para pensar, de ferramentas para medir e de gente para partilhar o caminho.

Se és dono de uma PME, fica aqui um desafio:

• Reserva uma manhã nas próximas semanas apenas para pensar no futuro do teu negócio.
• Olha para os teus números com olhos críticos ; e se não os tiveres, cria-os.
• Procura um espaço seguro para partilhar desafios, seja um mentor, um grupo de empresários ou alguém da tua confiança que perceba de negócios.

Depois destas mais de 100 reuniões, posso garantir-te uma coisa: não há problema que não possa ser resolvido quando partilhado com as pessoas certas.

 

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