“O turista quer sobretudo perceber o que vai viver quando chegar ao destino” – SEE Countries

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Renato Calvão, fundador e CEO da SEE Countries
Renato Calvão, fundador e CEO da SEE Countries (Foto Divulgação)

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

O turismo já não se resume à compra da viagem e à escolha do alojamento. Cada vez mais, as pessoas procuram experiências autênticas, ligadas à cultura, à gastronomia e às tradições locais. No entanto, por vezes as ofertas estão dispersas e para muitos pequenos operadores turísticos, a falta de ferramentas tecnológicas e de canais de distribuição continua também a limitar o acesso a novos clientes.

Foi para responder a este desafio que nasceu a SEE Countries, uma plataforma portuguesa que reúne experiências, atividades e serviços turísticos de diferentes regiões do país, facilitando a sua descoberta e reserva.

Atualmente, a empresa trabalha com cerca de 170 parceiros e disponibiliza mais de 350 experiências, apostando não só na venda direta ao consumidor, mas também em soluções tecnológicas para hotéis, alojamentos e outros parceiros que pretendam integrar esta oferta nos seus próprios canais.

Em entrevista à PME Magazine, Renato Calvão, fundador e CEO da SEE Countries, explica como surgiu a SEE Countries, de que forma a digitalização pode tornar o turismo mais acessível e competitivo e quais são as estratégias da empresa para combater a sazonalidade e apoiar os operadores locais. O responsável revela ainda os planos para consolidar a operação em Portugal e preparar uma expansão internacional sustentada.

O problema nunca foi a falta de experiências em Portugal. O problema era muitas delas continuarem invisíveis ou serem difíceis de reservar.

 

“(…)O PROBLEMA NUNCA FOI A FALTA DE EXPERIÊNCIAS EM PORTUGAL. (…) ERA MUITAS DELAS CONTINUAREM INVISÍVEIS OU DIFÍCIES DE RESERVAR.”

 

PME Magazine (PME Mag.) – A SEE Countries nasceu com o objetivo de aproximar os visitantes de experiências e atividades locais. Como surgiu a ideia de criar a empresa e que necessidade identificaram no mercado turístico português que procuraram responder?

Renato Calvão, fundador e CEO da SEE CountriesA ideia surgiu da experiência que já tínhamos no setor do turismo e do contacto direto com viajantes, empresas e operadores turísticos. Percebemos que Portugal tinha uma oferta extraordinária de experiências, mas que uma parte significativa dessa oferta continuava fragmentada e com pouca visibilidade digital.

Existem pequenos operadores que conhecem profundamente os seus territórios e proporcionam experiências de grande qualidade, mas que nem sempre dispõem dos recursos tecnológicos, comerciais ou de marketing necessários para chegar a um público mais amplo. Ao mesmo tempo, o turista encontra informação dispersa por websites, redes sociais, plataformas diferentes e contactos informais, o que torna a descoberta e a reserva mais complexas do que deveriam ser.

Foi a partir desta necessidade que criámos a SEE Countries: uma plataforma portuguesa que centraliza experiências, atividades e serviços turísticos de diferentes regiões, do continente às ilhas, tornando-os mais fáceis de descobrir, comparar e reservar.

Costumo dizer que o problema nunca foi a falta de experiências em Portugal. O problema era muitas delas continuarem invisíveis ou serem difíceis de reservar. A SEE Countries nasceu para transformar essa oferta local em inventário digital e criar novos canais para a sua distribuição.

“O TURISTA CONTINUA A PRECISAR DE SABER ONDE VAI DORMIR, MAS QUER SOBRETUDO PERCEBER O QUE VAI VIVER QUANDO CHEGAR AO DESTINO.”

 

PME Magazine (PME Mag.) – O turismo tem vindo a evoluir de uma lógica centrada apenas no alojamento. Que mudanças têm sentido no comportamento dos turistas e como é que a SEE Countries tem acompanhado esta evolução?

Durante muitos anos, a organização de uma viagem esteve muito centrada no voo e no alojamento. Atualmente, isso já não é suficiente. O turista continua a precisar de saber onde vai dormir, mas quer sobretudo perceber o que vai viver quando chegar ao destino.

Existe uma procura crescente por experiências mais personalizadas, autênticas e ligadas à cultura local. As pessoas querem descobrir lugares, gastronomia, tradições e atividades que lhes permitam conhecer o destino para além dos circuitos turísticos mais óbvios. Em simultâneo, esperam encontrar essa oferta com a mesma facilidade com que reservam um hotel ou compram uma viagem.

A SEE Countries acompanha esta evolução através de uma oferta diversificada, que inclui experiências, transfers, atividades de bem-estar, eventos e outros serviços associados à viagem. Procuramos centralizar diferentes componentes da experiência turística numa única plataforma e apresentar opções adequadas a diferentes perfis, interesses, localizações e momentos da viagem.

O objetivo não é substituir o contacto humano que torna uma experiência especial. É utilizar a tecnologia para retirar fricção ao processo de descoberta e reserva, permitindo que o viajante passe menos tempo à procura e mais tempo a viver o destino.

 

PME Mag. – A plataforma reúne diferentes experiências e atividades e coloca em contacto quem visita um destino com os operadores que proporcionam essas experiências. Que papel poderá ter a tecnologia e a digitalização na evolução do turismo?

A tecnologia terá um papel determinante, sobretudo na forma como a oferta turística local é organizada, apresentada e distribuída.

Para muitos pequenos operadores, a digitalização ainda representa uma barreira. Podem ter uma excelente experiência, mas não conseguem apresentá-la online de forma eficaz, gerir reservas ou chegar aos canais onde os turistas tomam as suas decisões. Uma plataforma como a SEE Countries permite transformar essa oferta num produto digital acessível e distribuí-lo através de diferentes canais.

Na vertente B2C, o viajante pode encontrar e reservar diretamente experiências e serviços. Na vertente B2B, estamos a desenvolver soluções para que hotéis, alojamentos e outros parceiros possam disponibilizar a oferta da SEE Countries aos seus próprios hóspedes, através de códigos QR, dashboards para receções e concierges ou soluções integradas e personalizadas.

Isto permite aos hotéis melhorar a experiência dos hóspedes e criar uma fonte adicional de receita, sem terem de desenvolver a tecnologia nem negociar individualmente com dezenas de operadores. Para os operadores locais, significa acesso a novos canais de distribuição.

A nossa visão é que a SEE Countries não seja apenas um local onde se fazem reservas. Estamos a construir uma infraestrutura digital que liga viajantes, hotéis e operadores locais dentro do mesmo ecossistema.

PME Mag. – O verão representa tradicionalmente um dos períodos de maior procura turística em Portugal. Como é que uma empresa deste setor gere a sazonalidade e que estratégias têm desenvolvido para manter a atividade e a procura durante os meses de menor movimento?

A sazonalidade continua a ser um dos principais desafios do turismo português e não existe uma solução única para o problema. O verão concentra uma parte significativa da procura, sobretudo em determinadas regiões e atividades, enquanto outros períodos exigem uma abordagem comercial diferente.

Uma das nossas estratégias passa pela diversificação da oferta. Existem experiências culturais, gastronómicas, urbanas, de bem-estar e outras atividades que não dependem exclusivamente do verão ou de condições meteorológicas específicas. Ao tornar essa oferta mais visível, conseguimos apresentar motivos para viajar e realizar atividades durante todo o ano.

Também procuramos trabalhar o mercado nacional. Os residentes em Portugal podem ter um papel importante durante a época baixa, através de escapadinhas, experiências em casal, atividades em família, ofertas para ocasiões especiais ou descoberta de diferentes regiões do país.

A distribuição através de hotéis, alojamentos e parceiros locais também é relevante, porque permite apresentar ao visitante sugestões adaptadas à região, à época do ano e ao contexto concreto da sua estadia.

Por outro lado, a sazonalidade não deve ser analisada apenas como um problema de procura. É igualmente uma questão de distribuição geográfica e de comunicação. Portugal tem regiões e experiências com potencial durante praticamente todo o ano, mas essa oferta precisa de chegar ao público certo no momento certo.

“QUEREMOS CONSTRUIR UMA INFRAESTRUTURA QUE DÊ VISIBILIDADE À OFERTA LOCAL.”

 

PME Mag. – O mercado das experiências turísticas conta hoje com grandes plataformas internacionais. Como é que uma plataforma portuguesa como a SEE Countries se posiciona neste mercado e qual é a sua principal diferenciação face a estes grandes operadores?

Não faria sentido tentarmos competir com as grandes plataformas internacionais apenas através de dimensão, orçamento de marketing ou quantidade de oferta. Essas empresas têm uma escala que uma plataforma portuguesa em crescimento não tem. A nossa diferenciação tem de estar no conhecimento do mercado, na proximidade com os operadores e na tecnologia de distribuição.

Atualmente, a SEE Countries reúne mais de 350 experiências e trabalha com cerca de 170 parceiros em Portugal. Isso permite-nos construir uma oferta que não fica limitada às atividades mais conhecidas ou aos destinos com maior procura internacional.

Ao contrário de um modelo exclusivamente centrado na venda direta ao consumidor, estamos também a apostar na distribuição B2B. A SEE Countries desenvolveu soluções que permitem a hotéis e outros parceiros venderem experiências da plataforma através dos seus próprios canais, websites, aplicações ou equipas de receção e concierge.

Os grandes operadores concentram-se sobretudo em trazer o turista até à sua plataforma. Nós queremos também estar presentes nos canais onde o turista já se encontra, nomeadamente no hotel, no alojamento ou noutros pontos da sua viagem.

Não queremos ser apenas uma versão portuguesa de uma plataforma internacional. Queremos construir uma infraestrutura tecnológica que dê visibilidade à oferta local, crie valor para os parceiros e permita distribuir experiências portuguesas através de diferentes canais.

PME Mag. – Olhando para o futuro, quais são os próximos passos para a SEE Countries? A expansão para novos destinos e mercados internacionais faz parte da estratégia da empresa?

A expansão internacional faz parte da visão da SEE Countries desde o início. A própria marca foi criada com essa ambição e a plataforma foi desenvolvida com uma arquitetura que permite adaptar o modelo a diferentes países e destinos.

No entanto, a prioridade atual é consolidar a operação em Portugal. Queremos continuar a melhorar a tecnologia, aumentar a capacidade de distribuição, desenvolver as parcerias com hotéis, alojamentos e agências e criar um modelo comercial sustentável antes de avançarmos para outros mercados.

A tecnologia permite-nos operar noutros países, mas uma expansão internacional não pode limitar-se a colocar novas bandeiras no website. É necessário construir uma rede local de operadores, compreender cada mercado, adaptar a oferta e investir em distribuição e comunicação. Avançar sem essa estrutura seria prematuro.

A internacionalização deverá, por isso, acontecer de forma faseada, destino a destino, através de parceiros locais e depois de validarmos completamente o modelo em Portugal.

A nossa ambição é que a tecnologia desenvolvida pela SEE Countries possa transformar experiências locais em inventário digital e permitir a sua distribuição global. Portugal é o ponto de partida, mas não é o limite do projeto.