Domingo, Julho 19, 2026
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“Os Portugueses não abdicam do bacalhau de cura portuguesa” – Riberalves

Por: Ana Marisa Vieira


O Natal continua a ser o período de maior procura por bacalhau em Portugal, concentrando cerca de 30% das vendas anuais do setor. Para responder a este pico de consumo, a Riberalves aposta numa preparação de longo prazo, que começa ainda na pesca da matéria-prima e se estende por processos de cura tradicional, maturação prolongada e inovação tecnológica.

Com cerca de 500 colaboradores e uma faturação próxima dos 200 milhões de euros em 2024, a Riberalves está presente em mais de 20 países, exporta cerca de 30% das suas vendas, com o Brasil a assumir-se como o principal mercado internacional.

Nesta entrevista à PME Magazine, Ricardo Alves, CEO da Riberalves, analisa a evolução dos hábitos de consumo, o impacto da volatilidade dos preços internacionais do bacalhau, os desafios da fileira e a estratégia de inovação da empresa, que passa pelo reforço do bacalhau pronto a cozinhar, pelas refeições preparadas e pela consolidação da presença internacional.

Unidade de transformação de bacalhau da Riberalves
Unidade de transformação de bacalhau da Riberalves (Foto Divulgação)


PME Magazine (PME Mag.) – O Natal continua a ser o período de maior procura por bacalhau. Como é que a Riberalves se prepara para este pico anual? 

Ricardo Alves (R. A.) – Os últimos três meses do ano, que são já muito marcados pela distribuição para a época natalícia, correspondem a um pico de consumo que, no mercado português, vale cerca de 30% das vendas anuais.

Este é um período que a Riberalves prepara com grande antecipação, já que parte significativa do Bacalhau que chega ao mercado é pescado com mais de um ano de antecedência, para ser submetido ao processo de cura portugesa – a maturação no sal, processo tradicional que confere toda a qualidade e sabor ao Bacalhau; maturação essa que, no caso da Riberalves, nas principais referências, pode demorar 9 meses ou 1 ano. Esse bacalhau é submetido a todo um processo, incluindo secagem, demolha e ultracongelação, desenvolvido de forma pioneira pela Riberalves, com tecnologia e métodos que asseguram a dimensão tradicional – garantido que o bacalhau de cura poortuguesa chega ao mercado com toda a qualidade e sabor, pronto a cozinhar, e preparado para a melhor experiência de consumo.


PME Mag. – Que alterações nos padrões de consumo conseguem identificar nos últimos anos?

R. A. – Os últimos anos confirmaram a tendência antecipada pela Riberalves há mais de 20 anos, que foi a transição do consumo do bacalhau seco para o Bacalhau pronto a cozinhar, em particular, para toda uma nova gama de produtos de bacalhau de cura portuguesa, já demolhados, que garantem aos consumidores uma nova facilidade de preparação e de sabor à mesa. Ao ponto de o Bacalhau poder assim chegar a novas famílias e novos mercados, reinventando também toda a sua centralidade na cultura e na gastronomia portuguesa.

“(…) o mercado de bacalhau seco continua a cair (6%), enquanto o mercado do Bacalhau pronto a cozinhar voltou a crescer 3%”

Mais recentemente, esta conveniência foi complementada também por uma aposta no lançamento dos pré-cozinhados de bacalhau, com a Riberalves, mais uma vez, a dar resposta à necessidade do mercado e dos novos consumidores, propondo uma nova gama de refeições tradicionais de bacalhau, já preparadas. A par desta realidade, os últimos dados Nielsen, de setembro de 2025, mostram que o mercado de bacalhau seco continua a cair (6%), enquanto o mercado do Bacalhau pronto a cozinhar voltou a crescer 3%. Aliás, para a Riberalves, o Bacalhau pronto a cozinhar vale já perto de 80% das vendas e é, absolutamente, o principal dínamo da atividade, do sucesso e da liderança da empresa. Em 2025, a marca Riberalves voltou a crescer.

 

PME Mag. – Com a volatilidade dos preços internacionais do bacalhau, que impacto sentem no mercado português? 

R. A. – O bacalhau subiu consideravelmente de preço nos últimos anos. É muito curioso e significativo, contudo, que o mercado do Bacalhau continue estável no consumo, a mostrar uma enorme resiliência, apesar desta subida dos preços da matéria-prima na origem, causada sobretudo pela gestão cuidada das quotas de pesca, e pelo impacto da guerra na Ucrânia. É inevitável que parte destes custos se reflitam nos preços para o consumidor final, porque a Riberalves faz um grande esforço para absorver parte desse impacto.

“Os Portugueses não abdicam do bacalhau de cura portuguesa”.

Contudo, a tradição e o forte peso que o bacalhau tem na nossa cultura, jogam um papel muito importante naquilo que é a resiliência do consumo. Os Portugueses não abdicam do bacalhau de cura portuguesa. E a existência de novos produtos pronto a cozinhar, assim como pré-cozinhados, permite a chegada a novos consumidores. É essa realidade, no caso particular da Riberalves, que contribui para que o desempenho seja positivo face ao ano de 2024.

Equipa Riberalves
A Riberalves emprega cerca de 500 trabalhadores (Foto Divulgação)


PME Mag. – Que desafios a fileira do bacalhau enfrenta atualmente?

R. A. – A gestão das quotas de pesca é um bom desafio, porque é graças ao excelente trabalho feito nos países de origem, produtores de bacalhau, que é assegurada a sustentabilidade da espécie.

A indústria tem vindo a lidar com a variabilidade das quotas procurando adaptar-se, entrando até na produção de novas espécies. Mas existem outros desafios muito específicos que se colocam às empresas portuguesas. Por exemplo, a taxa de 12% imposta ao bacalhau russo comprado pelas empresas nacionais, que não é aplicada a países fora da União que também cá comercializam esse bacalhau; esse é um desafio enorme que está a colocar em causa a atividade das empresas nacionais.

“Trabalhamos com uma matéria-prima que está a mais de 4000 km de distância (…)”

Talvez faça mais sentido enquadrar um mix de desafios, que integra a forte concorrência internacional pelo bacalhau disponível, e a conjuntura que, sobretudo depois da pandemia e da guerra, veio aumentar todos os custos associados à atividade, nomeadamente o valor da matéria-prima, como já referimos, mas não só. Trabalhamos com uma matéria-prima que está a mais de 4000 km de distância, e somos naturalmente condicionados por isso.

 

PME Mag. – Que inovação está a ocorrer no setor, seja no processo de cura, embalagem, corte, logística ou sustentabilidade?

R. A. – Além de continuarmos muito atentos e focados no desenvolvimento de novos produtos de bacalhau pronto a cozinhar, entrámos nas refeições prontas (pré-cozinhados de receitas tradicionais de bacalhau e salgados) e estamos a desenvolver algumas possíbilidades com novas espécies, tendo sempre a qualidade e o lado tradiconal da cura portuguesa como ponto de partida.

Acreditamos que o mercado evoluirá sobretudo entre o bacalhau pronto a cozinhar e os pratos prontos. O bacalhau seco irá transformar-se, perdendo necessariamente volume, tornando-se cada vez mais um produto de nicho. É inevitável! O bacalhau manter-se-á um produto de cariz tradicional, mas totalmente enquadrado nas soluções modernas, que garantem conveniência ao consumo. A nossa inovação continuará a dar resposta a esta realidade. Em sequência, queremos consolidar os mercados onde estamos; e estamos a analisar novas oportunidades, onde temos capacidade de apresentar soluções de consumo.

A nossa visão é muito clara. Queremos continuar a crescer, defender a nossa liderança, e continuar a ser uma empresa reconhecida globalmente, pela paixão e liderança na produção de Bacalhau, e pelo desenvolvimento de novos produtos, sustentáveis e de elevada qualidade.

 

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