“Pagar impostos é bom. Uma empresa nasceu e foi fundada para ser lucrativa” – Rita Maria Nunes

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Rita Maria Nunes, consultora e estratega, especializada em otimização operacional e gestão financeira em entrevista
Rita Maria Nunes, consultora e estratega, especializada em otimização operacional e gestão financeira (Foto DR)

Por: Ana Marisa Vieira


A profissionalização da gestão continua a ser um dos maiores desafios das pequenas e médias empresas, apesar de representar uma das principais alavancas de crescimento sustentável e competitividade. Rita Maria Nunes, consultora e estratega, especializada em otimização operacional e gestão financeira, analisa erros de gestão, falta de literacia financeira e os desafios da liderança nas pequenas empresas.


Num contexto em que as PME representam mais de 99% do tecido empresarial, a especialista defende que estruturar processos, clarificar indicadores e reforçar a literacia financeira são passos críticos para garantir escala e resiliência.

Segundo Rita Maria Nunes, em entrevista à PME Magazine, a fiscalidade continua a ser um dos temas mais sensíveis na gestão das pequenas e médias empresas, muitas vezes associado a penalização e não a crescimento. A consultora e estratega defende que é necessário alterar este paradigma.

“Era importante que em Portugal, de uma vez por todas, se desmistificasse um tema: pagar impostos é bom. Uma empresa nasceu e foi fundada para ser lucrativa, senão seria uma organização sem fins lucrativos”, afirma.

Segundo a especialista, existe ainda um bloqueio cultural significativo na forma como empresários encaram o pagamento de impostos, frequentemente associado a perda e não a criação de valor.

A consultora sublinha que o IRC, por exemplo, só existe quando há resultados positivos, pelo que deve ser interpretado como consequência natural de um negócio saudável. Ainda assim, reconhece que a carga fiscal continua a ser particularmente exigente para micro e pequenas empresas, defendendo maior equilíbrio no sistema.


Os empresários e o “desenrascanço” português

Segundo Rita Maria Nunes, a resistência das empresas à profissionalização tem uma forte componente cultural, assente numa lógica de resolução imediata de problemas sem criação de estrutura.

“Temos uma cultura muito forte do desenrasca. Vamos resolvendo sem criar bases que permitam crescer sem estrangular o negócio”, explica.

A este fator, junta-se o mito de que estruturar processos é caro ou excessivamente burocrático, quando muitas vezes passa apenas por definir rotinas, responsabilidades e métodos de trabalho.


Liderança é o primeiro ponto de mudança

Para a consultora, a profissionalização começa no líder. Se o dono não for organizado na gestão do tempo, prioridades e decisões, dificilmente a empresa o será.

“O primeiro passo da organização de uma empresa é o seu líder”, sublinha, defendendo que a mudança de dono operacional para gestor estratégico é determinante para libertar tempo, ganhar escala e evitar bloqueios ao crescimento.


Faturação não é liquidez

Entre os erros mais recorrentes nas PME, destaca-se a confusão entre faturação e liquidez, muitas vezes associada à falta de literacia financeira.

“Celebramos faturação quando devíamos celebrar margens e dinheiro em conta”, afirma.

A consultora e estratega alerta que empresas com vendas elevadas podem enfrentar dificuldades de tesouraria se os ciclos de recebimento forem longos, agravando riscos no pagamento de salários ou impostos.

Assim, para garantir controlo, defende que qualquer empresário deve acompanhar regularmente indicadores-chave, como liquidez, margens e fluxo de caixa.

“Ter indicadores já é, por si só, um sinal de profissionalização”, refere, acrescentando que muitos empresários não analisam dados sequer mensalmente.


Delegação, confiança e novos modelos de trabalho

A entrevista abordou ainda temas de liderança, como delegação, confiança nas equipas e modelos híbridos de trabalho.

Segundo Rita Maria Nunes, muitos empresários delegam tarefas mas não confiam verdadeiramente, mantendo um controlo excessivo que limita a autonomia e o crescimento da organização. 

“O problema não é delegar, é confiar”, resume.


Automação e IA no futuro das PME

Olhando para os próximos anos, Rita Maria Nunes, especializada em otimização operacional e gestão financeira antecipa que a automação de processos repetitivos e a integração de inteligência artificial terão impacto direto na eficiência das PME, libertando equipas para tarefas de maior valor.