Por: Ana Marisa Vieira
Três anos no universo das startups tecnológicas podem representar a diferença entre uma ideia promissora e uma empresa com ambição global. Quando a PME Magazine falou com a Bhout em 2023, a missão era clara: combater o sedentarismo através da combinação entre fitness e gaming. Hoje, essa visão evoluiu para algo ainda mais ambicioso, criar tecnologia capaz de compreender o movimento humano e transformar a forma como as pessoas cuidam da sua saúde.
Nesta conversa integrada na série “10 Anos, 10 Vozes”, o CEO Mauro Frota revisita os momentos mais marcantes da trajetória da Bhout, desde a industrialização do produto e a construção da sua capacidade produtiva até aos planos de expansão internacional.
Pelo caminho, partilha as aprendizagens de quem passou de fundador de uma startup para líder de uma organização em crescimento, num setor onde a inovação tecnológica e a experiência humana caminham lado a lado.
Mas esta é também uma conversa sobre o futuro. Sobre o papel da inteligência artificial no fitness, a ascensão da chamada “inteligência física” e a forma como dados, personalização e gamificação poderão redefinir a relação das pessoas com o exercício físico.
1. Voltar a 2023
PME Magazine – Em 2023, disse-nos que a Bhout queria “eliminar o sedentarismo dos videojogos e aproximar à realidade do mundo fitness”. Quando relê essa entrevista hoje, o que mais lhe chama a atenção?
Mauro Frota, CEO da Bhout – Em 2023, acreditávamos que o futuro do fitness passava por eliminar a fronteira entre o exercício físico e a motivação que tornou os videojogos tão poderosos. Quando releio essa entrevista, o que mais me chama a atenção é que a tese continua válida.
As pessoas não abandonam o exercício porque desconhecem os seus benefícios. Abandonam porque o exercício tradicional falha muitas vezes naquilo que os videojogos fazem tão bem: criar envolvimento, progressão, feedback e emoção.
O que mudou desde então foi a profundidade da nossa compreensão. Hoje percebo que não estamos apenas a gamificar fitness. Estamos a tentar compreender como a tecnologia pode ajudar as pessoas a criar relações mais duradouras com a sua própria saúde.
No fundo, a missão continua a mesma: tornar o movimento humano mais divertido, mais motivador e mais sustentável.
2. Da garagem para a escala internacional
Na altura, a Bhout preparava a produção dos primeiros milhares de unidades e tinha acabado de fechar uma ronda histórica de 10 milhões de euros. O que aconteceu desde então? Qual foi o momento mais decisivo nesta trajetória?
Os últimos anos foram simultaneamente os mais exigentes e os mais transformadores da história da Bhout.
Em 2023 estávamos focados em provar que a tecnologia funcionava. Desde então, o foco passou para algo mais difícil: garantir que conseguimos escalar essa tecnologia globalmente.
Lançámos a versão 2.0 do BHOUT Bag, onde resolvemos alguns dos maiores desafios associados à longevidade e robustez do produto em utilização intensiva. Estamos agora a preparar o lançamento da versão 3.0, uma evolução que não se limita ao hardware. Foi desenhada para recolher dados com maior precisão e menor margem de erro, permitindo desenvolver algoritmos de inteligência artificial cada vez mais sofisticados e capazes de compreender melhor o movimento humano.
“Montámos a fábrica e criámos processos que nos permitem produzir em escala”
Ao mesmo tempo, construímos e automatizámos a nossa capacidade produtiva. Montámos a fábrica e criámos processos que nos permitem produzir em escala, removendo aquele que foi provavelmente o maior bottleneck da empresa até ao momento.
Mas talvez o mais importante seja que deixámos de ser apenas uma empresa de produto para nos tornarmos uma plataforma de crescimento.
Estamos a assinar os contratos que nos permitirão acelerar a expansão internacional da rede de clubes Bhout através de franchising, enquanto inauguramos simultaneamente um novo vertical B2B dirigido a grandes cadeias de ginásios, hotéis e escritórios. Os primeiros contratos internacionais encontram-se em fase final de negociação e acreditamos que este poderá ser um dos principais motores de crescimento da empresa nos próximos anos.
Se tivesse de identificar um momento decisivo, diria que foi quando percebemos que a Bhout já não dependia apenas da visão dos seus fundadores. Passou a existir procura real de mercado, em múltiplos países e múltiplos segmentos. É nesse momento que uma startup começa verdadeiramente a transformar-se numa empresa global.
3. O estado da visão original
A Bhout nasceu para cruzar fitness, gaming e inteligência artificial. Considera que essa visão está hoje mais próxima da sua concretização? O que acabou por evoluir de forma diferente do que imaginava em 2023?
A visão está hoje mais próxima do que nunca.
Quando começámos, muitas pessoas viam fitness, gaming e inteligência artificial como áreas separadas. Hoje já é evidente que estas disciplinas estão a convergir.
O que evoluiu de forma diferente foi a importância dos dados.
Em 2023 falávamos muito sobre hardware e experiência. Hoje percebemos que estamos também a construir uma infraestrutura capaz de compreender o movimento humano em tempo real.
Cada treino gera milhares de interações físicas, decisões motoras e padrões comportamentais. Isso abriu portas que não imaginávamos na mesma escala há três anos.
Continuamos a construir uma experiência de fitness, mas estamos também a construir algo maior: uma plataforma capaz de entender e melhorar a forma como os seres humanos se movem.
4. O mercado FitTech mudou?
Quando falámos, a tecnologia aplicada ao fitness vivia um período de forte crescimento. Como avalia a evolução do setor nos últimos anos? Que tendências acabaram por ganhar relevância e quais ficaram pelo caminho?
O mercado FitTech amadureceu bastante nos últimos anos.
Em 2023 existia um enorme entusiasmo em torno de aplicações de fitness, wearables e experiências digitais. Muitas dessas tendências consolidaram-se, mas também percebemos que a tecnologia, por si só, não resolve o problema fundamental: ajudar as pessoas a manter hábitos de exercício de forma consistente ao longo do tempo.
Acredito que a maior mudança foi a passagem de uma lógica de monitorização para uma lógica de interação. Durante anos, a tecnologia limitou-se a medir passos, frequência cardíaca, calorias ou tempo de treino. Hoje estamos a entrar numa nova fase, em que os sistemas começam a compreender o que estamos a fazer e a adaptar-se em tempo real ao utilizador.
A inteligência artificial está a acelerar essa transformação. Pela primeira vez, conseguimos criar experiências capazes de analisar movimento, técnica, esforço e comportamento, oferecendo feedback personalizado de forma praticamente instantânea.
“As soluções mais interessantes são aquelas que conseguem combinar ambos os mundos de forma fluida”.
Ao mesmo tempo, tornou-se evidente que o futuro não pertence apenas ao digital nem apenas ao físico. As soluções mais interessantes são aquelas que conseguem combinar ambos os mundos de forma fluida. As pessoas continuam a valorizar comunidade, competição, emoção e contacto humano, mas esperam também personalização, dados e inteligência digital.
Algumas tendências acabaram por perder relevância porque se focavam demasiado na tecnologia e pouco na experiência humana. Outras ganharam força precisamente porque perceberam que a tecnologia deve ser invisível e servir um propósito maior: ajudar as pessoas a sentirem-se melhor, a evoluírem e a manterem-se motivadas.
Se tivesse de resumir a evolução do setor numa frase, diria que passámos de “quantificar o exercício” para começar finalmente a “compreender o movimento humano”.
5. Inteligência artificial e experiência do utilizador
O Bhout Bag já utilizava inteligência artificial para analisar desempenho e melhorar a técnica dos utilizadores. Como evoluiu o papel da IA no produto e na experiência dos clientes? Estamos apenas no início desta transformação?
Quando falámos em 2023, a inteligência artificial já desempenhava um papel importante na Bhout, sobretudo na análise de desempenho e na personalização da experiência de treino.
Hoje, o papel da IA é muito mais profundo.
O nosso objetivo deixou de ser apenas medir o que aconteceu. Queremos compreender como aconteceu. A diferença é enorme.
Com a evolução do hardware, da visão computacional e dos modelos de inteligência artificial, estamos a aproximar-nos de uma realidade em que o sistema consegue interpretar o movimento humano com um nível de detalhe que há poucos anos seria impensável. Não apenas quantos golpes foram executados ou quão fortes foram, mas também a qualidade técnica, a eficiência do movimento, os padrões de fadiga e a evolução individual ao longo do tempo.
Isso transforma completamente a experiência do utilizador. Em vez de treinar sozinho perante uma máquina, começa a existir uma interação contínua entre a pessoa e um sistema capaz de observar, aprender e adaptar-se às suas necessidades.
Mas acredito que estamos apenas no início desta transformação.
Durante décadas, a maioria das máquinas limitou-se a receber comandos. Agora começam a observar, interpretar e responder ao comportamento humano em tempo real. Essa mudança terá impacto não apenas no fitness, mas em praticamente todas as áreas onde existe interação entre pessoas e tecnologia.
Na Bhout, vemos a inteligência artificial não como uma funcionalidade isolada, mas como uma camada de inteligência que liga o mundo físico ao digital. O verdadeiro potencial surge quando a tecnologia deixa de ser apenas uma ferramenta e começa a compreender o contexto humano.
É por isso que acredito que os próximos anos serão menos sobre inteligência artificial generativa e mais sobre inteligência física: sistemas capazes de compreender movimento, intenção, desempenho e comportamento no mundo real. E estamos apenas a dar os primeiros passos nessa direção.
6. Crescimento, talento e liderança
Passar de startup para empresa global exige novas competências. Qual foi o maior desafio na construção da equipa e da cultura da Bhout? É mais difícil desenvolver tecnologia ou atrair talento capaz de acompanhar a ambição da empresa?
Durante muito tempo pensei que o maior desafio seria desenvolver a tecnologia.
Hoje diria que o maior desafio é construir uma organização capaz de transformar uma visão ambiciosa em realidade, de forma consistente e sustentável.
A tecnologia tem uma característica interessante: por mais difícil que seja, acaba por obedecer às leis da física, da engenharia e da ciência. As pessoas são muito mais complexas. Têm motivações diferentes, ritmos diferentes, ambições diferentes e formas diferentes de lidar com a incerteza.
E as startups vivem precisamente de incerteza.
Nos últimos anos aprendemos que construir uma empresa global exige muito mais do que talento técnico. Exige alinhamento, capacidade de adaptação e, sobretudo, uma cultura forte o suficiente para sobreviver às fases mais difíceis.
“Uma das maiores aprendizagens para mim enquanto líder foi perceber que o papel do fundador muda constantemente”.
Uma das maiores aprendizagens para mim enquanto líder foi perceber que o papel do fundador muda constantemente. No início, somos obrigados a fazer um pouco de tudo. Mais tarde, o desafio passa a ser criar condições para que outras pessoas consigam fazer melhor do que nós.
Também aprendi que liderança não é apenas definir uma visão inspiradora. É tomar decisões difíceis quando não existem respostas perfeitas. É manter a equipa focada quando o caminho não é evidente. E é continuar a transmitir confiança mesmo nos momentos em que a pressão é maior.
Acredito que as empresas mais ambiciosas não são construídas apenas por pessoas talentosas. São construídas por equipas que partilham um propósito comum e que conseguem manter-se alinhadas durante anos, mesmo quando enfrentam obstáculos significativos.
“Construir uma equipa extraordinária é um desafio humano. E os desafios humanos são quase sempre os mais complexos”.
Por isso, se me perguntarem o que é mais difícil, desenvolver tecnologia ou atrair talento, diria que a tecnologia é um problema de engenharia. Construir uma equipa extraordinária é um desafio humano. E os desafios humanos são quase sempre os mais complexos.
7. Portugal como plataforma de inovação
A Bhout nasceu em Portugal, mas sempre pensou globalmente. O país oferece hoje melhores condições para criar empresas tecnológicas de escala mundial do que oferecia há dez anos?
Acredito que Portugal oferece hoje condições significativamente melhores do que oferecia há dez anos para criar empresas tecnológicas com ambição global.
Temos mais talento qualificado, mais experiência acumulada em startups, melhor acesso a conhecimento especializado e um ecossistema empreendedor muito mais maduro do que aquele que existia quando começámos.
“Instrumentos como o SIFIDE, a Portugal Ventures e, mais recentemente, o Banco Português de Fomento, ajudaram a criar condições para que empresas tecnológicas portuguesas conseguissem investir (…)”
Também é importante reconhecer o papel que algumas instituições e programas tiveram nesta evolução. Instrumentos como o SIFIDE, a Portugal Ventures e, mais recentemente, o Banco Português de Fomento, ajudaram a criar condições para que empresas tecnológicas portuguesas conseguissem investir em inovação e assumir riscos que de outra forma seriam muito difíceis de suportar.
No caso da Bhout, esse apoio foi particularmente relevante. Desenvolver software já é desafiante. Desenvolver hardware, inteligência artificial, sistemas industriais e propriedade intelectual em simultâneo implica níveis de investimento, tempo e risco significativamente superiores aos de uma empresa exclusivamente focada em SaaS.
Mas existe também uma vantagem importante.
“Estamos a construir tecnologia física, algoritmos, processos industriais e uma infraestrutura de dados que evoluem em conjunto e se reforçam mutuamente”.
Embora o hardware seja mais difícil de desenvolver e escalar, quando combinado com software proprietário, inteligência artificial e dados, pode criar barreiras à entrada muito mais fortes. Não estamos apenas a construir uma aplicação que pode ser replicada rapidamente. Estamos a construir tecnologia física, algoritmos, processos industriais e uma infraestrutura de dados que evoluem em conjunto e se reforçam mutuamente.
Portugal continua a ser um mercado pequeno e, para a maioria das empresas tecnológicas, a internacionalização não é uma opção — é uma necessidade. Quem quer construir uma empresa global tem de pensar para além das fronteiras nacionais desde o primeiro dia.
Mas vejo isso mais como uma vantagem competitiva do que como uma limitação. Obriga-nos a criar produtos capazes de competir globalmente e não apenas localmente.
A Bhout nasceu em Portugal, continua a desenvolver tecnologia em Portugal e acredita profundamente no talento português. Se conseguirmos continuar a apoiar a inovação, a investigação e a criação de propriedade intelectual, acredito que a próxima década poderá ser ainda mais relevante para o empreendedorismo tecnológico português do que a última.
8. Internacionalização e próximos mercados
Os EUA eram já um mercado estratégico para a Bhout quando falámos em 2023. Como evoluiu a presença internacional da empresa e quais são hoje os mercados prioritários para o crescimento?
Em 2023, os Estados Unidos já eram um mercado estratégico para a Bhout e continuam a ser uma das maiores oportunidades de longo prazo para a empresa. Mas, desde então, a nossa visão internacional tornou-se muito mais ampla.
Uma das aprendizagens mais importantes foi perceber que a necessidade que estamos a responder é global. Independentemente do país, encontramos o mesmo desafio: ajudar as pessoas a manterem-se motivadas para treinar através de experiências mais envolventes, personalizadas e orientadas por tecnologia.
Nos últimos anos, a Bhout começou a receber interesse de mercados muito distintos, desde a Europa à América Latina, Médio Oriente, Ásia e América do Norte. Isso deu-nos confiança de que não estamos a construir uma solução para uma geografia específica, mas sim uma plataforma com potencial global.
“(…) levando a tecnologia BHOUT para grandes cadeias de ginásios, hotéis, empresas e outras organizações”
A estratégia de crescimento passa hoje por vários modelos complementares. Por um lado, continuamos a expandir a rede de clubes Bhout através de franchising e de parcerias estratégicas. Por outro, estamos a acelerar o desenvolvimento do canal B2B, levando a tecnologia Bhout para grandes cadeias de ginásios, hotéis, empresas e outras organizações que procuram oferecer experiências diferenciadoras aos seus clientes e colaboradores.
Os mercados prioritários são aqueles onde encontramos uma combinação de três fatores: forte cultura de fitness e bem-estar, abertura à inovação tecnológica e parceiros capazes de acelerar a implementação local. É por isso que estamos particularmente atentos a mercados como os Estados Unidos, Brasil, México, Espanha, França, Alemanha e alguns países da Ásia e do Médio Oriente.
No entanto, mais do que escolher países, o nosso foco é construir uma plataforma suficientemente forte para que a procura internacional aconteça de forma natural. A melhor estratégia de internacionalização continua a ser criar um produto que resolva um problema real e que as pessoas queiram utilizar independentemente da sua localização.
Acredito que estamos ainda numa fase muito inicial desta jornada. E acredito também que estamos apenas a começar a compreender o impacto que a inteligência artificial terá na sociedade.
Se a IA conseguir automatizar uma parte significativa das tarefas que hoje ocupam o nosso tempo, poderá devolver às pessoas algo extremamente valioso: tempo livre. E uma parte desse tempo será inevitavelmente investida em áreas que contribuem para uma melhor qualidade de vida, como saúde, bem-estar, longevidade, recuperação física e performance humana.
Por essa razão, acredito que as indústrias do fitness e do wellness poderão crescer de forma ainda mais acelerada na próxima década. As empresas que conseguirem combinar experiência física, dados, inteligência artificial e motivação humana terão uma oportunidade única para redefinir a forma como as pessoas treinam, cuidam da sua saúde e investem em si próprias.
9. O futuro da Bhout e do fitness
Como imagina o treino físico daqui a dez anos? Que papel terão a gamificação, os dados biométricos, a inteligência artificial e a realidade imersiva na forma como as pessoas praticam exercício?
Acredito que, daqui a dez anos, a maior parte das pessoas deixará de encarar o exercício físico como uma atividade isolada e passará a vivê-lo como uma experiência contínua, personalizada e integrada no seu dia a dia.
Durante décadas, o fitness foi construído à volta de equipamentos relativamente passivos. As máquinas registavam pouco, compreendiam pouco e adaptavam-se pouco ao utilizador. Estamos agora a entrar numa era completamente diferente.
Os sistemas do futuro serão capazes de compreender o movimento humano em tempo real. Conseguirão analisar técnica, esforço, fadiga, padrões de recuperação, risco de lesão e evolução física, adaptando automaticamente a experiência às necessidades de cada pessoa.
A inteligência artificial terá um papel central nesta transformação. Não apenas como uma ferramenta de análise, mas como um verdadeiro treinador digital capaz de observar, aprender e personalizar cada interação.
Os dados biométricos também se tornarão cada vez mais relevantes. Mas acredito que a verdadeira revolução não estará na quantidade de dados recolhidos. Estará na capacidade de transformar esses dados em decisões úteis, simples e acionáveis para o utilizador.
A gamificação continuará igualmente a desempenhar um papel importante. Os seres humanos são naturalmente motivados por progressão, desafio, conquista, reconhecimento e comunidade. A tecnologia permitirá criar experiências cada vez mais envolventes, capazes de transformar o exercício físico numa atividade que as pessoas querem fazer, e não apenas numa atividade que sabem que deveriam fazer.
“O futuro não será apenas virtual. Será uma fusão entre o físico e o digital.”
Quanto à realidade imersiva, acredito que terá o seu espaço, mas não necessariamente da forma como muitos imaginam hoje. O futuro não será apenas virtual. Será uma fusão entre o físico e o digital.
Na minha opinião, a maior mudança da próxima década será o aparecimento de sistemas capazes de compreender e interagir com os seres humanos através do movimento. Da mesma forma que a internet conectou informação e a inteligência artificial está a transformar conhecimento, veremos surgir uma nova geração de tecnologias capazes de compreender comportamento físico em tempo real.
É precisamente aí que vejo o futuro do fitness, do wellness e até de áreas muito para além do exercício físico. Estamos a caminhar para um mundo onde as máquinas não compreenderão apenas aquilo que dizemos ou escrevemos. Compreenderão também a forma como nos movemos.
E quando isso acontecer, estaremos muito mais próximos de uma tecnologia verdadeiramente desenhada para os seres humanos.
10. Mensagem para os 10 anos da PME Magazine
A PME Magazine celebra uma década a acompanhar o tecido empresarial português. Que mensagem deixa aos nossos leitores e à importância de dar visibilidade às empresas que estão a construir o futuro da economia?
Ao longo dos últimos dez anos, a PME Magazine acompanhou histórias de empresas muito diferentes entre si. Mas acredito que existe algo que todas têm em comum: alguém decidiu tentar.
Antes de existir uma empresa, um produto ou um mercado, existe sempre uma pessoa ou uma equipa disposta a assumir risco, a desafiar o status quo e a construir algo que ainda não existe.
“São as pessoas que imaginam, criam, lideram, erram, aprendem e recomeçam”.
Vivemos numa época em que se fala muito de tecnologia, inteligência artificial e inovação. Mas, no final do dia, o verdadeiro motor da economia continua a ser profundamente humano. São as pessoas que imaginam, criam, lideram, erram, aprendem e recomeçam.
Por isso, considero extremamente importante dar visibilidade às empresas que estão a construir o futuro. Não apenas às grandes histórias de sucesso, mas também às empresas que ainda estão a percorrer o caminho, a resolver problemas difíceis e a criar valor de forma consistente.
Portugal tem hoje uma geração extraordinária de empreendedores, investigadores, engenheiros e criadores. Pessoas que estão a desenvolver tecnologia, propriedade intelectual e negócios com impacto global a partir do nosso país.
Acredito que o futuro económico de Portugal dependerá cada vez mais da nossa capacidade de transformar conhecimento em inovação e inovação em empresas capazes de competir à escala mundial.
” (…) não subestimem o poder de uma ideia executada com persistência. A inovação raramente acontece de um dia para o outro.”
Se pudesse deixar uma mensagem aos leitores da PME Magazine, seria esta: não subestimem o poder de uma ideia executada com persistência. A inovação raramente acontece de um dia para o outro. É normalmente o resultado de muitos anos de trabalho invisível, de aprendizagem contínua e da capacidade de continuar a avançar quando os resultados ainda não são evidentes.
Existe uma frase muito conhecida no mundo das startups que me acompanha há vários anos: “Just don’t die long enough.” Pode parecer simples, mas encerra uma verdade profunda. Muitas vezes, o sucesso não depende apenas de ter a melhor tecnologia, a melhor equipa ou a melhor ideia. Depende de sobreviver tempo suficiente para aprender, iterar, melhorar o produto e encontrar o verdadeiro product-market fit.
A maioria das grandes empresas atravessou momentos de dúvida, obstáculos inesperados e fases em que o futuro parecia incerto. A diferença está frequentemente na capacidade de continuar, de se adaptar e de manter a convicção necessária para dar ao mercado tempo para responder.
“Porque quando damos palco a quem constrói, estamos também a inspirar a próxima geração de pessoas que irá construir o futuro”.
Parabéns à PME Magazine por estes dez anos de acompanhamento ao tecido empresarial português. Porque quando damos palco a quem constrói, estamos também a inspirar a próxima geração de pessoas que irá construir o futuro.
















