InícioCarreirasPISA 2025 Portugal: um problema para a educação ou para a economia?

PISA 2025 Portugal: um problema para a educação ou para a economia?

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

Em Portugal, 35% dos alunos têm desempenhos na área da matemática abaixo do nível mínimo de proficiência e apenas 6% chegam aos níveis mais elevados, de acordo com os resultados do Programme for International Student Assessement (PISA) 2025, divulgados no passado dia 8 de setembro. O país acompanha a média da OCDE, mas perdeu terreno desde 2018. Numa economia marcada pela escassez de trabalhadores e por uma produtividade inferior à média da OCDE, os resultados levantam uma questão sobre o capital humano que chegará ao mercado de trabalho nos próximos anos.

O relatório, desenvolvido pela OCDE, avalia competências de alunos de 15 anos em três áreas: ciências, leitura e matemática. O estudo procura perceber não apenas o conhecimento adquirido, mas também a capacidade de aplicar esse conhecimento, analisar informação, raciocinar e resolver problemas em diferentes contextos.

Embora Portugal acompanhe a média da OCDE nos três domínios avaliados no PISA 2025, a evolução dos últimos anos revela uma deterioração das competências, sobretudo na matemática e na leitura. Para uma economia que precisa de aumentar a produtividade num contexto de envelhecimento da população, a questão passa a ser também económica.

O próprio relatório nacional sublinha que “as economias modernas valorizam não apenas os conhecimentos que os indivíduos possuem, mas sobretudo aquilo que conseguem aplicar, de forma eficiente e eficaz, em diferentes contextos”.

Matemática: menos competências, mais alunos abaixo do nível mínimo

É na matemática que o sinal de alerta é mais evidente. Em 2025, os alunos portugueses obtiveram uma pontuação média de 460 pontos, menos 12 pontos do que em 2022. Apesar da descida, o resultado não é estatisticamente diferente dos 463 pontos da média da OCDE.

O problema torna-se mais evidente quando se deixa de olhar apenas para a média. Desde 2018, a pontuação portuguesa em matemática caiu 33 pontos, enquanto a percentagem de alunos considerados low performers aumentou de cerca de 23% para 35%. Ao mesmo tempo, a parcela de top performers diminuiu de cerca de 7% para 6%.

Ou seja, em cada 100 jovens avaliados, cerca de 35 ficam abaixo do nível 2 de proficiência, o patamar que o PISA considera mínimo para demonstrar competências essenciais de aplicação de conhecimentos e resolução de problemas em situações familiares. Apenas cerca de seis em cada 100 atingem os níveis 5 ou 6, correspondentes aos desempenhos mais elevados.

A tendência não é exclusiva de Portugal. Na OCDE, também aumentou a percentagem de alunos com desempenhos mais baixos. Ainda assim, a evolução portuguesa significa que, face a 2018, há hoje uma fatia substancialmente maior de jovens a chegar ao fim da escolaridade obrigatória com dificuldades em competências matemáticas fundamentais.

Resultados médios e níveis de proficiência do PISA 2025 para Portugal (Gráfico PISA 2025)

 

Também a leitura e as ciências recuam

A deterioração não está limitada à matemática. Na leitura, Portugal obteve 462 pontos em 2025, menos 15 pontos do que no ciclo anterior e menos 30 pontos face a 2018. Ainda assim, o resultado permanece estatisticamente alinhado com os 461 pontos da média da OCDE.

Nas ciências, domínio principal do PISA 2025, Portugal registou 482 pontos, exatamente a média da OCDE. A descida face a 2022 foi de três pontos e, desde 2018, a quebra acumulada é de 10 pontos.

Em termos de alunos abaixo do nível 2, a situação é igualmente significativa: 24,4% dos estudantes portugueses estão abaixo desse patamar em ciências e cerca de 28% na leitura.

O problema chega ao mercado de trabalho?

É aqui que os resultados do PISA ganham uma dimensão económica. O estudo não mede diretamente a produtividade nem prevê o crescimento do PIB, pelo que não é possível afirmar que a queda das pontuações irá provocar uma determinada perda económica. Mas os resultados são um indicador das competências que uma parte da futura população ativa está a adquirir.

Portugal já enfrenta precisamente um problema relacionado com a dimensão e a qualidade da força de trabalho. No Economic Survey 2026, a OCDE alerta para a escassez de trabalhadores e para o envelhecimento da população, defendendo o reforço da educação, da formação profissional e da aprendizagem ao longo da vida para responder às necessidades do mercado de trabalho. 

Ao mesmo tempo, a produtividade do trabalho em Portugal permanece 17% abaixo da média da OCDE. A organização sublinha que, com a população em idade ativa a diminuir no longo prazo, aumentar a produtividade será essencial para sustentar o crescimento e os níveis de vida. 

A demografia torna esta questão ainda mais relevante. Segundo a OCDE, a população portuguesa em idade ativa deverá encolher 16% nas próximas duas décadas. Isso significa que Portugal terá menos pessoas em idade de trabalhar e, consequentemente, maior necessidade de retirar mais valor de cada trabalhador. 

Menos trabalhadores, maior exigência sobre as competências

A combinação dos dados é, por isso, particularmente relevante. De um lado, uma economia que precisa de responder à escassez de mão de obra e de aumentar a produtividade. Do outro, uma geração que apresenta uma quebra de desempenho em competências básicas como matemática e leitura.

A própria OCDE identifica dificuldades no recrutamento de trabalhadores com as competências adequadas em vários setores e aponta para skill mismatches, ou seja, desajustes entre as qualificações disponíveis e as necessidades das empresas. A organização defende uma maior articulação entre formação e necessidades do mercado de trabalho. 

Para as empresas, sobretudo para as PME, o impacto de um défice de competências não se resume à dificuldade de contratar. Pode também significar mais necessidade de formação interna, maior tempo de adaptação dos trabalhadores e maior dificuldade em incorporar tecnologia e processos mais sofisticados. A OCDE nota, aliás, que cerca de 40% do emprego na economia empresarial portuguesa está concentrado em microempresas e que estas tendem a apresentar limitações em competências de gestão e subinvestimento em tecnologia e inovação. 

A desigualdade socioeconómica afeta o desempenho

Há ainda outra dimensão que pode ter consequências económicas a longo prazo: a desigualdade no acesso às competências.

No PISA 2025, a matemática foi o domínio em que o estatuto socioeconómico teve maior influência sobre o desempenho. A diferença entre os alunos mais favorecidos e os mais desfavorecidos chegou a 99 pontos, contra 83 pontos na OCDE. Em Portugal, o estatuto socioeconómico explica cerca de 17% da variação dos resultados em matemática, face a 12% na OCDE.

A diferença torna-se ainda mais expressiva quando se olha para os extremos. Cerca de 53% dos alunos mais desfavorecidos são low performers em matemática, enquanto essa proporção desce para 14,4% entre os alunos mais favorecidos.

Isto significa que o problema não está distribuído de forma uniforme pela população. Uma parte dos jovens está a sair do sistema educativo com competências significativamente mais fortes do que outra, o que pode contribuir para reproduzir desigualdades também no acesso a empregos mais qualificados e produtivos.

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