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PME mostram resiliência, mas falta investimento para sustentar o crescimento – Economista João Duque

Por: Ana Marisa Vieira


O economista João Duque considera que os resultados da primeira vaga do Barómetro PME Magazine 2026 estão em linha com o desempenho da economia portuguesa, mas deixa um sinal de alerta: o crescimento continua demasiado dependente do consumo, enquanto o investimento permanece insuficiente. O professor catedrático do ISEG aponta ainda dificuldades no financiamento, na atração de talento e na produtividade como alguns dos principais desafios para as PME.

 

Os resultados da primeira vaga do Barómetro PME Magazine 2026 revelam um tecido empresarial relativamente resiliente. Quase 70% das empresas inquiridas aumentaram as vendas, o emprego mantém um saldo positivo e 40% classificam a sua situação financeira como boa ou muito boa. Para João Duque, economista e professor catedrático do ISEG, este retrato está globalmente alinhado com a evolução da economia portuguesa.

“De um modo geral nós temos, enfim, crescido razoavelmente bem”, afirma o economista, sublinhando que o desempenho ganha relevância tendo em conta o contexto internacional. “Perante um ano tão devastador em termos de aparentes condições, nós estamos a ter algum sucesso.”

Ainda assim, considera que há margem para um crescimento mais forte. O principal problema está na composição desse crescimento. “Há aqui um fator que preocupa quem se preocupa com a economia portuguesa, que é o investimento”, alerta.

Na sua leitura, a economia está demasiado apoiada no consumo, enquanto o investimento e o contributo externo continuam a não ter o peso desejável. “Preferia fazer crescimentos mais à custa de investimento, mais à custa de saldos líquidos positivos da balança comercial. E isso é aquilo que nos falha um bocadinho.”


PME dependentes das grandes empresas

A análise dos resultados das PME deve também ter em conta a posição que estas empresas ocupam nas cadeias de valor. João Duque lembra que muitas micro e pequenas empresas dependem diretamente da atividade de empresas de maior dimensão.

“Estas pequenas e médias acabam por estar dependentes daquilo que é o sucesso ou insucesso dessas grandes empresas”, explica. São, na sua definição, “constelações de pequenas empresas que vivem à volta de outras maiores que lhes pedem serviços ou bens”.

Esta dependência ajuda a explicar por que razão o desempenho das PME acompanha, em muitos casos, a evolução dos setores e das grandes empresas a que estão ligadas.


Menos recurso a financiamento pode significar menos investimento

Um dos sinais que mais preocupa o economista surge na área do financiamento. Apenas 21,9% das empresas inquiridas pelo Barómetro preveem recorrer a financiamento nos próximos seis meses, contra 28,7% em 2025. Um resultado que não deve ser interpretado automaticamente como positivo. “Quando o recurso não é muito elevado a financiamento, normalmente estamos associados a não haver investimento.”

João Duque admite que o investimento pode ser realizado através de capitais próprios, nomeadamente através de lucros retidos. No entanto, considera que também esse mecanismo não está a assumir uma expressão suficiente.

O economista destaca ainda um dado que considera particularmente significativo: “Nós em dezembro passado tínhamos mais depósitos de empresas do que crédito obtido pelas empresas, o que é um sintoma muito negativo.”

Na sua perspetiva, uma empresa deve recorrer ao financiamento para suportar ativos, stocks ou investimento produtivo. Quando acumula depósitos em vez de investir, pode estar a revelar uma atitude de prudência perante a incerteza.

“Não se sentem confiantes. É um bocadinho estar à espera e a ver o que é que isto dá”, afirma.


Incerteza pode estar a adiar decisões de investimento

João Duque identifica vários fatores que podem estar a contribuir para esta prudência empresarial. Entre eles está a transformação tecnológica, nomeadamente a introdução da robótica e da inteligência artificial, bem como a incerteza em setores relevantes para a economia portuguesa.

“Temos em cima disto muitos setores afetados por uma alteração muito profunda, que é que está à espera da introdução da robótica e da inteligência artificial. Isso pode alterar significativamente tudo.”

O economista dá como exemplo a indústria automóvel, setor no qual muitas empresas portuguesas participam enquanto fornecedoras de componentes. Perante a incerteza sobre a evolução da indústria europeia, algumas PME podem optar por adiar investimentos.

“Há aqui em vários setores, não no turismo, mas em outros setores, alguma expectativa ou algum incógnita sobre […] o futuro e visão do futuro e que nos leva a indagar a possibilidade de adiar investimento.”


Talento: não falta apenas mão de obra, faltam competências

A dificuldade em atrair talento é outro dos temas que atravessa os resultados do Barómetro. Quase metade das empresas atribui níveis elevados à dificuldade em encontrar talento, percentagem que sobe para 58% entre as pequenas empresas.

Para João Duque, o problema não se resume à disponibilidade de trabalhadores. A questão está também nas qualificações e competências necessárias para acompanhar a evolução dos negócios.

“Temos tido muitos imigrantes que vêm ocupando aquilo que é o crescimento de postos de trabalho, que precisam de muita mão de obra”, reconhece. Mas, acrescenta, “se queremos alguma sofisticação, naturalmente que aí já é mais difícil”.

O economista recorre ao setor da restauração para ilustrar o problema. A disponibilidade de trabalhadores pode não ser suficiente para garantir o nível de serviço pretendido pelas empresas.

“As empresas têm tido dificuldade em fazer progredir o talento, fazer evoluir o talento”, afirma. Mas deixa também uma ressalva: “Muitas vezes o talento não quer evoluir.”

Na sua análise, existe uma tensão entre empresas que precisam de mudar processos e trabalhadores que podem resistir à mudança. “Quando as empresas querem começar a evoluir e a modificar os procedimentos, (…) precisa de uma população relativamente risk taker, portanto, que goste, tenha apetite ao risco.”


Produtividade e salários devem estar no centro das políticas para as PME

Olhando para o próximo Orçamento do Estado, João Duque identifica duas áreas que considera particularmente relevantes para as PME: produtividade e remuneração do trabalho.

Para tal, defende a criação de incentivos que premiem as empresas que aumentem a produtividade e melhorem as remunerações, sem necessariamente transformar todo o aumento num custo permanente.

Na produtividade, a lógica passa por incentivar as empresas a rever processos, métodos de gestão e organização do trabalho. João Duque defende que os incentivos devem levar os empresários a procurar ganhos de eficiência, em vez de simplesmente aumentar recursos.

Burocracia continua a pesar sobre as empresas

A simplificação administrativa surge também como uma área onde, segundo o economista, existe margem para melhorar as condições de atividade das empresas.

João Duque critica a necessidade de os cidadãos e empresas apresentarem documentos que já estão na posse da própria administração pública. “Qualquer português sente isto que é não percebe porque é que eu chego a um organismo público e me pedem um documento que é emitido por outro organismo público que o Estado já tem.”

A digitalização pode ajudar a eliminar procedimentos redundantes, mas o economista considera que é necessário encontrar um equilíbrio entre eficiência administrativa e proteção de dados.


Um crescimento positivo, mas com sinais de prudência

A leitura global de João Duque sobre a primeira vaga do Barómetro PME Magazine 2026 é, assim, marcada por dois movimentos simultâneos. Por um lado, as empresas revelam capacidade para crescer num contexto internacional complexo. Por outro, o reduzido recurso ao financiamento e o nível de investimento insuficiente apontam para uma postura mais cautelosa.

O desafio, na sua perspetiva, passa por transformar o crescimento atual num crescimento mais sustentado, assente em investimento, produtividade e capacidade empresarial.

“Se não fossem estes fatores todos tão negativos, a economia portuguesa poderia estar a crescer muito mais”, considera.

Para as PME, a questão passa por saber transformar a atual resiliência em capacidade de investimento e adaptação num contexto marcado pela transformação tecnológica, pela escassez de competências e pela incerteza sobre a evolução de vários setores da economia.

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