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PME na defesa europeia: confiança, escala e co-desenvolvimento marcam passagem de startup a parceiro estratégico

Por: Ana Marisa Vieira


As pequenas e médias empresas (PME) estão a assumir um papel cada vez mais crítico na indústria europeia de defesa, mas a transição de startup para parceiro estratégico exige mais do que inovação e vontade. Mindset, confiança, capacidade de escala e envolvimento no desenvolvimento conjunto foram apontados como fatores determinantes, esta terça-feira, na ASD Convention 2026, o encontro europeu do setor Aeroespacial, Defesa e Segurança, organizado em parceria pelo AED Cluster Portugal com a ASD, na região de Lisboa.

A evolução de startup para parceiro estratégico na indústria de defesa depende menos da dimensão e mais da capacidade de criar confiança, integrar-se no ecossistema e escalar operações. Esta foi a principal conclusão do painel dedicado às PME, na ASD Convention 2026, que juntou cerca de 300 líderes de grandes empresas, associações e tecnológicas europeias.

O ponto de partida foi claro. “Cerca de 70% da produção das grandes empresas é subcontratada à cadeia de fornecimento” e “aproximadamente 50% dessa cadeia é composta por PME”, destacou o moderador Andrea Barbagelata, Conselheiro para as PME na ASD, sublinhando que estas empresas são “uma parte substancial do ecossistema”.

A partir daí, os oradores convergiram num conjunto de fatores críticos. Katarina Björklund, vice-Presidente de Inovação para a União Europeia e NATO, Saab, apontou a agilidade como principal vantagem competitiva: “as PME são ágeis, são rápidas na sua capacidade de desenvolver soluções”. Essa velocidade tem permitido às grandes empresas testar e integrar novas tecnologias em ciclos cada vez mais curtos.

Mas só a agilidade não chega. Pablo González, diretor de Programas de Defesa da NATO e Europeus, Indra, destacou que o verdadeiro salto está na confiança e na gestão de risco. “A principal diferença está na forma como se gere e se percebe o risco”, afirmou. E explicou que um parceiro estratégico “é alguém com quem desenvolvemos em conjunto”, o que implica transparência técnica e partilha de informação crítica.

Do lado das PME, Dimitrios Nodaros, diretor da AKMON S.A., reforçou que “a diferença não está no tamanho, mas na mentalidade, na visão, na fiabilidade e na integração”. Segundo o responsável, uma PME estratégica “tem de ser proativa, não reativa” e investir em integração e co-desenvolvimento.

A experiência de empresas que já fizeram esse percurso trouxe nuances adicionais. Steen Hommel, vice-Presidente Executivo de Assuntos Públicos, Comunicação e Parcerias na Terma, destacou que a relação é hoje de interdependência.

“Não é apenas uma questão do que as PME querem; as grandes empresas também precisam destas parcerias”, considerou. A complementaridade de capacidades, o entendimento do contexto operacional e a capacidade de escalar foram apontados como determinantes.

Já a experiência portuguesa, pela voz de Pedro Petiz, diretor de Desenvolvimento Estratégico na Tekever, trouxe uma visão prática do terreno. “É uma questão de mentalidade e de agilidade”, afirmou, acrescentando que o alinhamento cultural é decisivo: “por vezes é como um casamento: há casos em que resulta e outros em que não”.

O responsável da empresa de drones alertou ainda que “se crescerem sozinhas, enfrentam muito mais riscos”, defendendo a criação de parcerias como base para escalar.


Novos entrantes: oportunidade com risco

O debate avançou para a entrada de empresas civis no setor da defesa. Aqui, a posição foi mais cautelosa. Pablo González reconheceu que não há resistência estrutural, mas alertou para desafios concretos: “o principal problema das empresas que vêm do setor civil é não estarem familiarizadas com o ecossistema de defesa”, nomeadamente em matéria de segurança e prazos de desenvolvimento, significativamente mais longos.

Também Katarina Björklund admitiu abertura, mas com limites: “temos de ter cuidado nas áreas onde integramos empresas civis”, defendendo uma abordagem seletiva. Programas como o NATO DIANA foram apontados como uma ponte positiva entre os dois mundos.

Do lado das PME tradicionais, a preocupação é outra: garantir compromisso. Dimitrios Nodaros foi direto: os novos entrantes “têm de provar que são parceiros de longo prazo”, evitando modelos oportunistas focados apenas em financiamento.

Erros que travam o crescimento

Os oradores identificaram também falhas recorrentes nas PME. Uma delas é o desalinhamento com o cliente. “Estão tão entusiasmadas com o produto que muitas vezes não conhecem o cliente”, alertou Pablo González.

Outra é a fragilidade financeira. “Não somos bancos, somos parceiros”, afirmou o responsável da Indra, sublinhando que as PME precisam de planos financeiros robustos para suportar ciclos de desenvolvimento longos.

Pedro Petiz acrescentou ainda a falta de validação de mercado e o crescimento isolado como riscos críticos, defendendo maior proximidade ao utilizador final e integração em ecossistemas colaborativos.

Financiamento europeu: catalisador com limites

O papel dos programas europeus esteve também em destaque. Para Dimitrios Nodaros, o Fundo Europeu de Defesa foi determinante para aproximar empresas: “a Comissão Europeia juntou todas as empresas (…) trabalhamos em conjunto”.

Ainda assim, há desafios. A participação das PME em programas de maior escala continua pouco clara e os modelos de financiamento nem sempre garantem continuidade até à industrialização.

Sobre novos instrumentos, como iniciativas mais ágeis de financiamento direto a PME, as opiniões dividiram-se. Enquanto alguns veem oportunidade para acelerar inovação, outros alertam que o impacto depende da ligação efetiva às necessidades do mercado e dos grandes integradores.


Oportunidade para Portugal

O painel deixou um sinal positivo para as PME portuguesas. O reforço do investimento europeu em defesa, a pressão para acelerar inovação e a necessidade de diversificar cadeias de fornecimento criam espaço para novos players.

Mas a exigência é elevada. Como resumiu Pablo González, “é preciso ter capacidade para sobreviver durante esses anos”. E Pedro Petiz reforçou a prioridade: foco, parcerias e adaptação contínua.

A conclusão é clara: as PME são hoje essenciais para a indústria europeia de defesa, mas só se tornam parceiros estratégicos quando combinam inovação com escala, confiança e compromisso de longo prazo.

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