Domingo, Julho 12, 2026
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Portugal destaca-se no investimento produtivo e supera média europeia

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira


O relatório “Catalyzing competitiveness: Where investment happens and why”, do McKinsey Global Institute (MGI), publicado dia 29 de junho, traça um retrato detalhado da economia mundial a partir de um indicador-chave: o investimento produtivo. A análise conclui que o panorama é dominado pela ascensão da China e pela estagnação europeia, mas há um dado que se destaca: Portugal surge como um dos países mais dinâmicos da União Europeia. O país aparece como um caso relativamente positivo dentro do sul da Europa, com uma taxa de investimento produtivo superior a 4% do PIB, acima de países como a Alemanha, França e Itália. 

A principal conclusão do relatório é que o mundo se está a dividir em três trajetórias muito distintas. A China tornou-se o maior polo de investimento global, com 3 a 5 vezes mais investimento líquido que os EUA e a Europa combinados, estima o relatório, apresentando grande força nos setores de manufatura e cadeias industriais. 

Os Estados Unidos mantêm níveis elevados, mas com uma mudança importante: estão a canalizar mais capital para tecnologia, software e inteligência artificial. Já a Europa destaca-se pela negativa: o investimento estagnou, especialmente depois da crise financeira. 

 

Europa: custos mais elevados, lentidão e menos apoios 

O MGI estima uma lacuna de investimento anual entre 750 mil milhões e 800 mil milhões de euros, essencial para recuperar a capacidade produtiva do continente. O relatório mostra que a perda de dinamismo europeu não resulta apenas de fatores macroeconómicos, mas de condições estruturais que penalizam o investimento. 

“Os custos nivelados na Europa e nos Estados Unidos são frequentemente pelo menos 50% superiores aos dos países que atraem mais investimento”, refere o relatório. Em alguns setores, a diferença pode chegar aos 300%. 

Isto deve-se a uma combinação de energia mais cara, processos de licenciamento mais lentos e custos laborais mais elevados sem ganhos equivalentes de produtividade. O resultado é uma perda gradual de posição em setores históricos como a indústria automóvel, a maquinaria ou os produtos químicos. 

A isto soma-se um fator cada vez mais determinante: a velocidade. Em setores como o automóvel elétrico ou a biotecnologia, economias como a China conseguem lançar produtos anos antes, reduzindo custos e captando mercado mais rapidamente. Essa diferença traduz-se em vantagens acumuladas: custos mais baixos, receitas antecipadas e maior quota de mercado. Em alguns casos analisados pelo relatório, a rapidez de execução pode explicar até 40% da diferença de custo total entre regiões. 

O estudo mostra ainda que os apoios públicos à indústria aumentaram significativamente nos últimos anos, com particular destaque para a China, onde as empresas beneficiam de níveis de apoio entre três e oito vezes superiores aos das empresas europeias. Este desequilíbrio contribui para reforçar a concentração de investimento em determinadas regiões e torna a concorrência internacional cada vez mais estratégica. 

 

Portugal acima da média europeia 

É neste contexto europeu que surge a referência a Portugal. O país aparece como um caso relativamente positivo dentro do sul da Europa, com uma taxa de investimento produtivo superior a 4% do PIB — um nível significativamente acima de países como a Alemanha (cerca de 0,2% do PIB) ou França e Itália (acima de 2%), sendo que a média da UE é cerca de 2%. 

A posição portuguesa reflete uma recuperação significativa após a crise da dívida soberana. O estudo coloca o país ao lado de outros casos de retoma, como a Grécia, mas com um desempenho mais robusto. 

Ainda assim, o relatório deixa implícito que essa oportunidade depende de conseguir ganhar escala, acelerar processos e integrar cadeias industriais — desafios que Portugal partilha com o resto da Europa. 

 

Península Ibérica tem vantagem energética 

Há outro dado relevante. A Península Ibérica tem uma vantagem estrutural dentro da Europa, apontada no relatório: custos energéticos mais baixos do que o núcleo industrial tradicional. 

A eletricidade nas regiões industriais clássicas pode ultrapassar os 150 dólares por megawatt/hora (cerca de 132 euros no câmbio atual), enquanto zonas como a Península Ibérica apresentam custos substancialmente mais baixos. Este fator, de acordo com o relatório, já começa a influenciar decisões empresariais e está a atrair novos investimentos em áreas como energia renovável, baterias e indústrias associadas, sugerindo um possível reposicionamento económico regional. 

Neste contexto, Portugal pode beneficiar de uma janela de oportunidade para atrair investimento industrial associado à transição energética, embora o estudo sublinhe que isso dependerá de escala e rapidez de execução.

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