Quinta-feira, Agosto 13, 2026
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Portugal trava investimento de 60 mil milhões de euros em energias renováveis 

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

Portugal é o único da Europa a manter uma contribuição permanente sobre os ativos das energias renováveis, segundo o estudo “Carga Fiscal das Energias Renováveis em Portugal”, desenvolvido pela (Nova SBE) e pela Lobo Carmona para a APREN. O setor entregou 1,11 mil milhões de euros ao Estado só em 2024, de acordo com o estudo divulgado hoje, 15 de julho, que ainda identifica o bloqueio de cerca de 60 mil milhões de euros em intenções de investimento devido a entraves regulatórios. 

O setor entregou ao Estado 1,11 mil milhões de euros em impostos e contribuições em 2024, o equivalente a 1,16% da receita fiscal nacional. Ainda assim, as energias renováveis continuam sujeitas a uma carga tributária considerada “sem paralelo conhecido na Europa”, aponta a APREN em comunicado. A principal razão é a manutenção da Contribuição Extraordinária sobre o Setor Energético (CESE), que incide sobre o valor dos ativos, independentemente da rentabilidade dos projetos. 

De acordo com o estudo, as empresas do setor suportam uma carga fiscal correspondente a cerca de 35% dos lucros, além de uma carga parafiscal que, em 2024, representou 135 milhões de euros. Entre 2020 e 2024, foram pagos 312 milhões de euros apenas em CESE e mecanismos de clawback. 

Para a APREN, este enquadramento coloca Portugal numa posição desfavorável face aos restantes mercados europeus. “As energias renováveis já são um dos setores que mais contribuem para a economia e para as receitas públicas, mas continuam sujeitas a uma carga fiscal e parafiscal que não encontra paralelo conhecido noutros países europeus”, afirma Susana Serôdio, coordenadora de Políticas e Inteligência de Mercado da APREN. 

 

Reforço da atividade pode gerar até 17 mil milhões de euros  

O estudo identifica cerca de 60 mil milhões de euros em intenções de investimento atualmente bloqueadas, sobretudo devido aos longos prazos de licenciamento, à capacidade limitada da rede elétrica e à ausência de novos leilões de capacidade desde 2022.  

Isto acontece porque Portugal demora entre cinco e sete anos a licenciar projetos, muito acima dos cerca de 18 meses registados, por exemplo, na Alemanha. O relatório estima que cada ano de atraso representa uma perda de aproximadamente 1,7 mil milhões de euros em receita fiscal potencial para o Estado. 

“O estudo demonstra que remover os atuais bloqueios ao investimento gera um retorno económico e fiscal muito superior ao que resultaria do agravamento da tributação sobre um setor que já contribui de forma tão significativa para as contas públicas”, refere Pedro Brinca, economista e professor da Nova SBE. 

Caso estes bloqueios sejam eliminados, a contribuição fiscal anual do setor poderá ultrapassar 2,8 mil milhões de euros, mais do dobro do valor atual, diz o estudo. Entre 2025 e 2034, o reforço da atividade poderá traduzir-se em 12 a 17 mil milhões de euros de receita fiscal adicional. 

 

É recomendada a eliminação do CESE 

Além da contribuição fiscal, o estudo destaca o impacto económico das energias renováveis. Em 2024, o setor gerou 5,34 mil milhões de euros para o PIB, sustentou 62.434 postos de trabalho, evitou 2,1 mil milhões de euros em importações de combustíveis fósseis e reduziu as emissões em 11,7 milhões de toneladas de CO₂.  

O relatório estima ainda uma poupança média anual de 636 euros por agregado familiar e superior a 63 mil euros por empresa nos custos da eletricidade. 

Entre as recomendações, os autores do estudo defendem a eliminação da CESE, a redução dos prazos de licenciamento para menos de três anos, o reforço da capacidade da rede elétrica e um modelo de redistribuição da receita fiscal que beneficie os territórios onde se localizam os projetos, sem agravar a tributação sobre os equipamentos produtivos. 

“O instrumento adequado não passa por agravar o IMI sobre equipamentos produtivos, mas por distribuir de forma mais equilibrada a riqueza que as energias renováveis já geram para o país e para os territórios que acolhem os projetos”, defende Carlos Lobo, partner da Lobo Carmona. 

Os autores do relatório recordam ainda que para cumprir as metas previstas no Plano Nacional Energia e Clima (PNEC) 2030, Portugal necessita de instalar mais 22,2 gigawatts (GW) de capacidade renovável.

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