Quando a dor veste fato e gravata

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Nicole Farinha, Hipnoterapeuta Clínica e Transpessoal numa praia
Nicole Farinha, Hipnoterapeuta Clínica e Transpessoal (Foto Divulgação)

Por: Nicole Farinha, Hipnoterapeuta Clínica e Transpessoal


Ela nunca falha. Nunca atrasa. Nunca pede ajuda. Ainda assim, sente que não chega. Não sabe quando começou. Só sabe que não sabe parar.

Estas frases não vêm da arrogância. Vêm da defesa. Do medo. De uma parte que aprendeu, cedo, que só estaria segura se estivesse sempre alerta.

No mundo empresarial, a dor raramente grita. Disfarça-se de competência. Mas continua ali — sentada à mesa da reunião. Vestida de controlo, hiper-responsabilidade, ou silêncio.


Máscaras que se enfrentam na sala de reuniões

Muito do que bloqueia a confiança ou a comunicação… não nasceu ali. Vem de feridas antigas. Invisíveis. Ativas. Que moldam como nos protegemos.

Traição? Controle.
Humilhação? Anulação.
Rejeição? Fuga.
Injustiça? Rigor.

Controlador. Não delega. Fiscaliza tudo. Evita surpresas — mesmo que isso lhe custe a leveza.
Masoquista. Diz sempre que sim. Tolera o intolerável. Trabalha sem parar. Nunca contesta.
Fugitivo. Isola-se. Evita conflitos. Esconde-se atrás das tarefas. Tem medo de não pertencer.
Rígido. Impecável. Exigente. Reprime o que sente. Não permite erros — nem a si, nem aos outros.

Estas máscaras chocam. O controlador não confia no masoquista. O rígido colide com o fugitivo.

O conflito emerge… disfarçado de “ineficiência”. Falta de comunicação. Burnout silencioso.
São partes que aprenderam a proteger-se — e moldam o comportamento adulto, sobretudo no trabalho.

O modelo das 5 feridas emocionais, introduzido pela psicoterapeuta Lise Bourbeau no livro “As 5 feridas que impedem de sermos nós mesmos”, propõe que experiências precoces moldam os comportamentos de defesa na vida adulta.

O corpo é o primeiro a acusar — mesmo com gravata

Essas memórias não se apagam com um contrato. Continuam inscritas no sistema nervoso — e podem emergir como:

• tensão no maxilar ou ombros
• ansiedade silenciosa
• medo de falhar (tensão abdominal, batimentos acelerados, bloqueio mental)
• exaustão sem causa visível

O profissional entrega, mas não descansa. Decide, mas duvida de si.


A hipnoterapia como espaço de reintegração

A hipnoterapia clínica acede a estas memórias com segurança e profundidade. Em estado hipnótico, o corpo relaxa. A mente torna-se recetiva a novas interpretações. A parte ferida é escutada — e libertada da proteção constante.

O adulto fortalece-se. Deixa de reagir com filtros antigos — e começa a escolher com presença.


Exercício de reflexão
• Que padrão profissional meu pode ser proteção?
• Se eu soubesse que não preciso de me provar, o que mudava?
• Que parte de mim ainda espera reconhecimento?


Conclusão

Por fora, competência. Por dentro, vigilância.
Quando curamos o que nos faz reagir, deixamos de liderar por medo — e passamos a liderar com presença. Com clareza. Com liberdade.


Evidência científica

Estudos conduzidos pelo Dr. David Spiegel, professor de psiquiatria em Stanford, mostram que durante a hipnose ocorrem mudanças nos circuitos cerebrais ligados ao controlo emocional, autorregulação e foco.

Ao entrar em estado hipnótico, o cérebro reduz a atividade da crítica interna — e fortalece a ligação entre corpo e mente.