Recordes de consumo elétrico no verão: como as PME podem reduzir custos?

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central elétrica
Os novos máximos de consumo de eletricidade registados em Portugal reforçam a importância de uma gestão energética mais eficiente por parte das empresas (Foto Freepik)

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

Portugal registou no início de julho novos máximos históricos de consumo de eletricidade em meses de verão, com o consumo diário a atingir 171,1 gigawatts-hora (GWh) a 3 de julho, depois de já ter chegado aos 165,6 GWh no dia anterior, segundo dados da Redes Energéticas Nacionais (REN).  Pedro Miranda, Co-Founder e CEO da Youdera, em declarações à PME Magazine, diz que os episódios de calor extremo estão a colocar “uma pressão adicional sobre o sistema elétrico”. 

Também a ponta de consumo – ou seja, o momento do dia em que a procura de eletricidade alcança o valor mais elevado – atingiu um novo máximo de verão: às 20h00 de 2 de julho, a procura instantânea chegou aos 8.493 MW, ultrapassando os 7.918 MW registados em junho de 2025.

Apesar dos valores continuarem abaixo dos máximos históricos de inverno – 197,1 GWh de consumo diário e 10.261 megawatts (MW) de ponta -, a aproximação entre os consumos máximos das duas estações coloca uma nova pressão sobre as empresas, sobretudo as que dependem de climatização, refrigeração ou processos industriais contínuos.

No entanto, o CEO da Youdera explica que “os preços mais altos no mercado não acontecem necessariamente nos momentos de maior procura”. O que determina os picos de preço é, segundo o responsável, a combinação entre baixa produção renovável e a necessidade de recorrer a tecnologias marginais mais caras.

 

Solução passa pela monitorização dos consumos

Para Pedro Miranda, os novos máximos de consumo mostram que a energia deve deixar de ser encarada apenas como uma questão operacional pelas empresas, sendo “um fator estratégico que influencia diretamente a competitividade”, afirma.

O responsável alerta para a volatilidade dos preços. Em 2025, diz, registaram-se “variações horárias superiores a 200€ por megawatt-hora“, num mercado em que o preço médio diário ronda os 65 euros/MWh, mas pode oscilar “entre valores negativos e máximos acima dos 200€/MWh”. Neste contexto, considera, “a previsibilidade torna-se um ativo competitivo”.

A gestão da energia deve, por isso, de acordo com o CEO da Youdera, começar pela monitorização dos consumos. “Só conhecendo bem o perfil energético é possível identificar oportunidades de deslocação de carga ou de otimização”, explica Pedro Miranda. A partir daí, as empresas podem avançar para estratégias de compra de energia que permitam “analisar janelas de preço mais favoráveis e evitar a exposição desnecessária ao spot“.

A médio e longo prazo, a estratégia pode passar por contratos de compra e venda de energia renovável, contratos bilaterais ou modelos híbridos, que, segundo o responsável, funcionam como “instrumentos de mitigação de risco e estabilização de custos”.

 

Supermercados, hotéis e agricultura entre os setores mais expostos

Nem todas as empresas enfrentam o mesmo nível de exposição aos picos de consumo no verão. “Os setores mais expostos são, antes de tudo, aqueles que têm uma necessidade crítica de climatização, refrigeração ou funcionamento contínuo”, explica Pedro Miranda.

O responsável aponta como exemplos “supermercados, hotéis, unidades de logística com armazéns refrigerados, edifícios de serviços e até operações agrícolas com sistemas de rega intensiva”. Na indústria, destaca os setores alimentar, farmacêutico, químico e dos plásticos, que dependem de “processos térmicos sensíveis, que exigem controlo rigoroso da temperatura”.

De acordo com Pedro Miranda, os centros de dados e infraestruturas tecnológicas também estão entre os mais expostos, uma vez que o arrefecimento é essencial para evitar falhas. Já nas unidades industriais com motores, compressores ou linhas de produção contínua, “qualquer paragem representa perdas significativas”.

Para o responsável, contudo, a exposição não depende apenas da quantidade de eletricidade consumida. “A exposição começa sempre na impossibilidade de flexibilizar carga nos momentos de maior stress térmico”. Quando essa dificuldade se combina com uma elevada escala de consumo, “torna estes setores particularmente sensíveis aos picos de consumo durante o verão”.

 

O que podem fazer as PME?

Para uma empresa que queira começar a reduzir a fatura energética, a primeira medida apontada por Pedro Miranda passa por perceber melhor como e quando se consome eletricidade.

“A melhor estratégia começa sempre por compreender o consumo ao detalhe”, afirma Pedro Miranda. “Antes de pensar em soluções, é fundamental saber exatamente quando, onde e porque é que a energia está a ser usada.” Este diagnóstico pode revelar “equipamentos a funcionar fora de horário, picos de carga sem justificação ou sistemas de climatização mal ajustados”, permitindo reduzir custos sem investimento.

Depois, a empresa pode avançar para medidas estruturais. O responsável destaca o autoconsumo fotovoltaico. “Para setores expostos ao calor, como supermercados, hotéis ou logística refrigerada, produzir energia localmente nas horas críticas reduz a dependência da rede e a exposição à volatilidade”.

 “As empresas mais resilientes são as que complementam estas soluções com uma estratégia ativa de compra de energia: monitorizam consumos de forma contínua, antecipam necessidades e estruturam contratos de médio e longo prazo que estabilizam custos e reduzem o risco“, acrescenta Pedro Miranda.

 

“A gestão da energia deixou de ser um tema sazonal”

Para a Youdera, os recordes registados neste verão não devem ser vistos apenas como um episódio associado a temperaturas extremas. “Estes recordes mostram que a gestão da energia deixou de ser um tema sazonal”, afirma Pedro Miranda.

O responsável considera que existe atualmente “uma pressão estrutural sobre o sistema elétrico, que não vai desaparecer; pelo contrário, tende a intensificar-se com temperaturas mais extremas e maior dependência da eletricidade”.

Neste cenário, defende, as empresas não podem continuar a gerir a energia apenas através de “medidas pontuais ou negociações de preço a curto prazo”. A competitividade deverá depender de “uma estratégia concertada, que reduza a exposição ao risco de mercado, ao mesmo tempo que responde às exigências de sustentabilidade”.

No fundo, conclui Pedro Miranda, “os recordes de consumo não são apenas um sinal de pressão sobre o sistema; são um aviso claro de que a gestão de energia tem de evoluir para uma abordagem estratégica, integrada e de longo prazo”.