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“Respeito pelos materiais e pelas suas qualidades naturais, a recusa do supérfluo” – BOAH NOVA

Por: Ana Marisa Vieira


A partir de um pequeno atelier em Leça da Palmeira, Matosinhos, a BOAH NOVA desafia a produção em massa com uma combinação de design de autor, tecnologia de precisão e respeito pelos materiais. A marca de iluminação distingue-se pela criação de candeeiros em madeira, numa produção artesanal onde cada peça é concebida para durar e contar uma história.

Fundada em 2021 por Fernando Pinto Santos, a BOAH NOVA cresceu de forma gradual, recusando atalhos. Em 2025 faturou 20 mil euros e há apenas um colaborador a tempo inteiro. Depois de centenas de protótipos e anos de desenvolvimento técnico, a empresa construiu um portefólio único, sem coleções, que já chega a oito mercados internacionais, incluindo os Países Baixos, Reino Unido e Austrália.

Num contexto que valoriza a autenticidade, a produção local e o design com identidade própria, a marca acredita que o futuro passa pela colaboração e pela construção de comunidades em torno da criatividade. Essa visão ganhou agora uma nova expressão através da parceria com a SCAR-ID, no Porto, que representa a primeira presença física estruturada da BOAH NOVA e uma oportunidade para aproximar as suas peças do público.

Em entrevista à PME Magazine, Fernando Pinto Santos, fundador e gestor, fala sobre a origem da linguagem estética da marca, os desafios de equilibrar exclusividade e crescimento internacional, a importância da inovação tecnológica na produção artesanal e a ambição de afirmar o design português nos mercados globais, sem nunca comprometer os princípios da génese da BOAH NOVA.

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Produto Kora (Foto Divulgação)


PME Magazine (PME Mag.) – A BOAH NOVA aposta numa abordagem artesanal combinada com tecnologia de precisão. Como conseguem equilibrar design autoral, produção manual e escalabilidade internacional sem perder exclusividade?

Fernando Pinto Santos, fundador e gestor da BOAH NOVA – Este é realmente um dos aspetos fundacionais do que fazemos: recorremos a ferramentas de produção digital para criar objetos melhores, não para fazer mais objetos. Usamos as ferramentas digitais mais avançadas do mercado, tanto na conceção dos produtos, como na produção. A tecnologia de corte que usamos permite-nos trabalhar com placas e folhas de madeira extremamente finas com uma exatidão perfeita. E é sobretudo a partir daí que o trabalho manual começa, sendo também uma dimensão essencial no nosso processo de produção, ao permitir incorporar técnicas que asseguram a qualidade e singularidade de cada um dos produtos. Portanto, o uso da tecnologia e o trabalho manual são duas dimensões que se completam.

“Não temos coleções. Não seguimos tendências. Não produzimos em quantidade”.

Quanto à exclusividade, esta é uma consequência natural da escala em que decidimos trabalhar e da atenção que cada peça exige. Não temos coleções. Não seguimos tendências. Não produzimos em quantidade. Isso significa que crescer internacionalmente é estar presente nos contextos certos, com os parceiros certos, para as pessoas certas. A exclusividade mantém-se precisamente porque nunca a sacrificamos em nome da escala ou massificação.

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Produto Exasf (Foto Divulgação)


PME Mag. – A parceria com a SCAR-ID representa a primeira presença física estruturada da marca no Porto. Que importância estratégica tem esta aproximação ao público através de um espaço curatorial e não apenas do canal online?

Já andávamos há algum tempo à procura de um espaço físico onde os nossos candeeiros pudessem ser verdadeiramente apreciados. Surgiram algumas possibilidades ao longo do caminho e chegámos, inclusivamente, a considerar abrir o nosso próprio espaço. Mas percebemos que isso não faria sentido. A sustentabilidade, para nós, implica – quase sempre – resistir à ideia de fazer mais. Mais um espaço físico significa mais recursos, mais impacto material, mais gestão – e isso contradiz diretamente a forma como vemos o mundo.

“Um candeeiro BOAH NOVA precisa de ser visto no espaço para ser compreendido.

Por isso decidimos esperar. E na SCAR-ID encontrámos, finalmente, o contexto que procurávamos. Não é apenas uma loja. É um espaço com uma filosofia curatorial clara e com uma visão partilhada sobre a valorização do design e da produção local. A importância estratégica é real e não se mede apenas em visibilidade. Um candeeiro BOAH NOVA precisa de ser visto no espaço para ser compreendido. A forma como a madeira reflete a luz, as sombras que projeta, a escala das peças em relação ao ambiente – tudo isso só se percebe de verdade quando se está presente.

Produto Obbut
Produto Obbut (Foto Divulgação)


PME Mag. – Os candeeiros da BOAH NOVA utilizam folhas extremamente finas de madeira para moldar a luz de forma orgânica. Como nasceu esta linguagem estética e que desafios técnicos existiram no desenvolvimento das peças?

A linguagem estética nasceu de uma convicção sobre o que um objeto de iluminação deve ser e evoluiu, de forma natural, desde a génese da BOAH NOVA, em 2021. Há uma perspetiva modernista subjacente a tudo o que fazemos: o respeito pelos materiais e pelas suas qualidades naturais, a recusa do supérfluo. Escolhemos a madeira porque é o material certo para trabalhar a luz: densifica-a e reflete-a de uma forma que nenhum material artificial consegue replicar. E como usamos apenas acabamentos à base de água, sem derivados de petróleo, a madeira dos nossos candeeiros é biodegradável, permitindo-nos assegurar todo o ciclo de vida dos produtos. Estes e outros princípios implicaram, naturalmente, desenvolver soluções técnicas próprias de produção.

“(…) não existem produtos como os nossos em nenhum outro lugar do mundo”.

Tivemos cerca de três anos de desenvolvimento técnico com, seguramente, mais de 200 protótipos, antes de chegarmos aos cerca de 50 produtos que temos hoje no nosso portfolio. Foi um processo de tentativa, erro e aprendizagem. Um processo exigente, mas essencial: desenvolvemos as competências e processos que nos permitem ter, atualmente, autonomia e verdadeira singularidade: não existem produtos como os nossos em nenhum outro lugar do mundo. Isto não é apenas uma busca por vantagens competitivas em torno da originalidade, mas foi antes o resultado natural da nossa ambição em sermos coerentes com os nossos princípios e com a responsabilidade com que encaramos a nossa atividade e o impacto desta no mundo.


PME Mag. – Num mercado global dominado por produção massificada e ciclos rápidos de consumo, acreditam que existe hoje uma valorização crescente do design português, da produção local e das peças com identidade própria?

Não tenho a mínima dúvida sobre a valorização da produção local e de peças com identidade única. O design português e a produção no nosso país, em particular, continuam a ter – genericamente – uma boa perceção em diferentes mercados internacionais. A grande questão, para mim, é a sustentabilidade dos negócios. Um criador, um pequeno estúdio de experimentação e produção, ou até mesmo uma pequena oficina que tenha competências de produção, enfrentam desafios imensos, mesmo havendo uma valorização do que fazem e uma apreciação por parte do mercado. Esta parceria entre a BOAH NOVA e a SCAR-ID é um exemplo concreto de como ultrapassar esses desafios. Considero que colaboração e comunidade são decisivas para ultrapassar limitações e encontrar complementaridade, sinergias e apoio.


PME Mag. – Até ao momento, quais foram os principais marcos e desafios da BOAH NOVA?

O percurso da BOAH NOVA tem essencialmente três fases. A primeira foi de desenvolvimento do conceito de negócio e de abordagem ao mercado. Esta fase incluiu o desenvolvimento de colaborações com diferentes designers e progrediu, naturalmente, com os desafios da criação material dos produtos e de tudo o que está envolvido, incluindo materiais, fornecedores destes, ferramentas e técnicas de produção. Chegar às peças que temos hoje demorou bastante tempo… e, confesso, mais tempo do que inicialmente antecipávamos.

“Desenvolver um processo que combina tecnologia de precisão e trabalho manual, a uma escala pequena, mas consistente, não é fácil”.

A segunda fase, que começou ao mesmo tempo que a anterior e ainda continua, foi a de produção em si, para além da produção dos protótipos. Desenvolver um processo que combina tecnologia de precisão e trabalho manual, a uma escala pequena, mas consistente, não é fácil. Implica decisões constantes sobre o que se faz internamente e o que se externaliza – e implica saber recusar o que não é necessário fazer. A parceria com fabricantes de componentes elétricos, como a Philips, é um exemplo dessa lógica: não faz sentido duplicar o que já existe com qualidade. É mais responsável, e mais inteligente, trabalhar com quem já o faz bem.

A fase atual é a de mercado. O desafio que temos hoje é tornar as vendas mais regulares, construir presença nos contextos certos – tanto online como físico – e comunicar de forma clara aquilo que somos. A presença na SCAR-ID é um marco nesse sentido. É o primeiro espaço físico onde as peças podem ser verdadeiramente vividas.

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