InícioOpiniãoRestauração: O desperdício invisível e a ilusão da faturação

Restauração: O desperdício invisível e a ilusão da faturação

Por: Sérgio Araújo, consultor de restaurantes


Um restaurante com um ticket médio de 17,50 € e uma margem de lucro de 15% parece, à primeira vista, um negócio equilibrado. Mas quando se faz a conta que quase ninguém faz, a realidade muda rapidamente. Quinze por cento de 17,50 € são apenas 2,63 €. Este é o lucro médio real por cliente. Não é faturação, não é movimento de casa cheia, não é sensação de sucesso. É o que sobra depois de tudo pago.

E é aqui que muitos restaurantes começam a perder dinheiro sem se aperceberem.


Faturar mais não é o mesmo que ganhar mais

Ainda são poucos os restaurantes que conhecem realmente os seus números. Olhar para a faturação e esperar que, no fim do mês, sobre dinheiro para pagar tudo é uma ilusão comum. Uma ilusão perigosa.

Perante margens apertadas, a reação mais frequente é procurar mais clientes, mais vendas, mais volume. Mais mesas, mais turnos, mais pressão. O problema é que, muitas vezes, a solução não passa por vender mais, mas por gerir melhor o que já se vende.

Há restaurantes que poderiam ganhar mais dinheiro com os mesmos clientes. Alguns, até com menos vendas. Porque quando cada erro custa mais do que o lucro de um cliente inteiro, o volume deixa de ser solução e passa a ser risco.


Casa cheia não é sinónimo de lucro

Se casa cheia fosse sinónimo de lucro, não veríamos tantos restaurantes a fechar portas apesar de terem clientes, filas e reservas constantes. E depois vem sempre a mesma pergunta: “Eles trabalhavam tão bem, porque será que fecharam?”

Trabalhavam bem no serviço. Não necessariamente na gestão.

Um restaurante pode ter movimento, reputação e clientes fiéis e, ainda assim, estar a perder dinheiro todos os dias. Porque o lucro não se constrói com aplausos nem com casas cheias. Constrói-se no detalhe.

O desperdício não é só o que sobra no prato

Quando se fala em desperdício, pensa-se quase sempre no resto do prato que voltou da mesa para o lixo. E ouve-se logo o argumento: “Isso o cliente já pagou”.

O problema é que esse é apenas o desperdício visível. O mais caro é o invisível.

Está nos erros de pedido por falta de formação, de padrões e de rotinas de serviço. Está nos pratos refeitos. Está nos acompanhamentos errados que vão diretamente para o lixo. Está nas correções constantes que ninguém regista.

Acontece todos os dias. Várias vezes por serviço. Muitas vezes sem ninguém reparar.


Cozinhar “a olho” custa dinheiro

Outro clássico: receitas feitas a olho. Dependendo de quem está a executar, leva sempre mais “um bocadinho”. Um bocadinho de carne, um bocadinho de molho, um bocadinho de queijo.

Esse “bocadinho” repetido dezenas ou centenas de vezes por dia destrói a rentabilidade do prato. Sem fichas técnicas, sem pesos definidos, sem controlo, não há margem que aguente.

O mesmo acontece quando não se usam doseadores volumétricos. São vistos como um detalhe, quando na verdade são uma ferramenta de velocidade, consistência e rentabilidade. Aceleram a execução, mantêm a medida certa e protegem a margem.


Cada pessoa corta de forma diferente. O custo também

Nas preparações, o João corta de uma forma, a Joana de outra. O resultado é simples: a rentabilidade da carne e do peixe nunca é a mesma.

Sem critérios definidos, sem padrões de corte e sem formação, o custo do prato muda conforme quem está de turno. E quando o custo muda todos os dias, o controlo deixa de existir.


O barato sai caro (quase sempre)

A procura constante pelo fornecedor mais barato é outra armadilha comum. O preço por quilo parece melhor, mas a quebra é maior, a qualidade é instável, o aproveitamento é menor.

No final, compra-se mais vezes, desperdiça-se mais produto e perde-se dinheiro. O barato sai caro, não é um ditado antigo. É uma realidade diária na restauração.

O mercado não está fácil. A gestão também não pode ser frouxa

É verdade: o mercado não está fácil. O custo da matéria-prima subiu, os salários aumentaram, os impostos são pesados, as rendas estão mais altas. Tudo isso é real. E nada disso se consegue mudar.

Se já era difícil antes, agora está pior. Sem dúvida.

Mas focar apenas no que não se controla é um erro estratégico. O que se controla é a gestão de pessoas e do produto. E é aí que está o dinheiro.

Uma gestão mais rigorosa, com processos, fichas técnicas, padrões, formação e controlo, não resolve o mercado. Mas garante uma coisa essencial: ficar com mais dinheiro no bolso no final do mês.

E numa atividade de margens curtas, isso não é um detalhe. É a diferença entre sobreviver e fechar a porta.

 

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