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Setor espacial português gera 191 M€ mas enfrenta desafios

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Veira

O setor espacial português gerou 191 milhões de euros em receitas operacionais e empregou 1.466 pessoas em 2024, mas continua a enfrentar o desafio de transformar as competências científicas e tecnológicas desenvolvidas nos últimos anos em atividade comercial sustentável. A conclusão é de um novo estudo da Nova SBE, desenvolvido no âmbito do projeto New Space Portugal, em parceria com a Agência Espacial Portuguesa.

O relatório, intitulado From Capacity Builder to Market Actor: Mapping Portugal’s Space Economy and the Commercial Sustainability Challenge, apresenta um mapeamento do ecossistema espacial nacional e compara Portugal com quatro economias espaciais europeias de pequena dimensão: Áustria, Chéquia, Irlanda e Grécia.

Segundo o estudo, o número de empresas ligadas ao setor espacial português aumentou 43% entre 2019 e 2023. O país apresenta competências técnicas, talento qualificado e uma forte integração em programas europeus. No entanto, a participação institucional e o investimento público terão avançado mais rapidamente do que a capacidade das empresas para gerar receitas comerciais e ganhar escala.

Um dos indicadores destacados pelo relatório é a receita por trabalhador, de 76 mil euros, o valor mais baixo entre os cinco países analisados. Na Áustria, por exemplo, o indicador chega aos 179 mil euros.

O estudo aponta ainda que os centros de investigação representam 33% do emprego no setor, mas são responsáveis por apenas 17,6% das receitas operacionais. Já o investimento público em investigação e desenvolvimento representa apenas 9% do investimento público espacial, contra 37% na Áustria e 38% na Grécia.

A dimensão das empresas é outro dos desafios identificados. Portugal não tem atualmente nenhuma empresa espacial com mais de 250 trabalhadores, uma realidade que, segundo o relatório, limita a capacidade nacional para liderar grandes programas europeus.

PRR representa 57% do financiamento público espacial

A necessidade de consolidar o setor ganha particular relevância com a aproximação do fim do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). De acordo com o estudo, a participação do PRR no financiamento público do setor espacial passou de 11% em 2022 para 57% em 2025.

Sendo o PRR um instrumento temporário, com conclusão prevista para dezembro de 2026, o relatório defende que Portugal deve preparar uma nova fase de desenvolvimento do setor, reduzindo a dependência de financiamento público temporário e criando condições para que os investimentos se traduzam em produtos, serviços, clientes e receitas recorrentes.

A recomendação surge num momento em que Portugal tem vindo a reforçar a sua participação em programas espaciais europeus. Em novembro de 2025, o país aprovou uma contribuição de 115 milhões de euros para a Agência Espacial Europeia (ESA) no ciclo 2026-2030, com o objetivo, entre outros, de reforçar investigação, empresas e investimento no setor.

Recomendações vão da investigaação à contratação pública 

Para ultrapassar estes desafios, o estudo apresenta sete recomendações. Entre elas está o reforço da componente de investigação e desenvolvimento no investimento público espacial, com a proposta de que esta represente 20% do investimento público no setor até 2030.

O relatório defende também que os projetos apoiados por fundos públicos apresentem um caminho claro para a atividade comercial e que a contratação pública seja utilizada para ajudar empresas a conquistar os primeiros clientes e transformar a procura institucional em receitas.

As áreas da defesa e das tecnologias de duplo uso, com aplicações civis e militares, são identificadas como oportunidades de crescimento, nomeadamente através da procura da NATO e do acesso ao instrumento europeu SAFE.

Para apoiar empresas com potencial de crescimento, o estudo propõe ainda um programa seletivo de scale-up, destinado a cinco a oito empresas por ano, e recomenda uma avaliação técnico-comercial da procura antes de novos investimentos em infraestruturas, incluindo na lha de Santa Maria, nos Açores

O relatório aponta, por fim, para oportunidades em segmentos emergentes como o fabrico no espaço, a manutenção em órbita e a computação baseada no espaço.

Constelação Atlântica é apontada como exemplo

Entre os projetos que refletem o reforço das capacidades portuguesas está a Constelação Atlântica, desenvolvida em cooperação com Espanha. Em março de 2026, foram lançados seis satélites portugueses: quatro destinados à Constelação Lusíada e dois, um satélite SAR da Força Aérea e um satélite ótico VHRLight NexGen, integrados na Constelação Atlântica.

A componente portuguesa deverá chegar aos 12 satélites em 2027, permitindo reforçar capacidades de observação da Terra e aplicações que vão da defesa e segurança à agricultura de precisão, monitorização ambiental e resposta a catástrofes.

Para Pedro Pais Penedos, Project Manager Officer da Nova SBE, o estudo pretende produzir investigação aplicada “rigorosa, baseada em dados e diretamente relevante” para as decisões que o ecossistema espacial português terá de tomar na próxima fase.

O relatório foi produzido pelas Research Fellows Olfa Ayadi e Vera Dejakum, sob supervisão dos professores Pedro Brinca, João Duarte e Pedro Penedos, no âmbito do projeto New Space Portugal, financiado pelo PRR e cofinanciado pela União Europeia através do NextGenerationEU.

Os principais resultados serão apresentados a 21 de setembro, no campus de Carcavelos da Nova SBE. O evento é gratuito, mas sujeito a inscrição prévia.

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