Sexta-feira, Julho 17, 2026
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Sismos na Venezuela agravam economia já fragilizada 

Por: Daniela Felício com Ana Marisa Vieira

Os dois sismos que atingiram a Venezuela a 24 de junho, de magnitude 7,2 e 7,5, provocaram cerca de 1.450 mortos e mais de 3.100 feridos. Para além da tragédia humana, o país enfrenta agora um dos maiores desafios económicos das últimas décadas: reconstruir infraestruturas, garantir financiamento internacional e recuperar a atividade económica. 

Os dois sismos, registados com apenas 39 segundos de intervalo, provocaram uma das maiores tragédias naturais da história recente da Venezuela. Entre as vítimas estão também portugueses e lusodescendentes. De acordo com a RTP Notícias, estão confirmadas 56 vítimas mortais portuguesas ou lusodescendentes, incluindo oito crianças. A Organização da Nações Unidas estima que cerca de 50 mil pessoas continuem por localizar. 

 

Reconstrução será o maior desafio 

Para Pedro Cerqueira, professor da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra e especialista em macroeconomia, em declarações à PME Magazine o impacto económico será sobretudo sentido na destruição de infraestruturas e na quebra da atividade produtiva. 

“Toda economia, em termos de abastecimento elétrico, infraestruturas produtivas, habitação e infraestruturas, foi muito afetada. As zonas atingidas estarão completamente destruídas e, portanto, é óbvio que a economia venezuelana vai sofrer um retrocesso em termos produtivos.” 

Segundo o economista, a reconstrução deverá absorver uma parte significativa dos recursos da Venezuela nos próximos anos. 

“Em termos humanos, a urgência agora é salvar vidas. Em termos económicos, reconstruir as infraestruturas será o principal objetivo da Venezuela nos próximos dois ou três anos.” 

No entanto, o economista considera que o país dificilmente conseguirá suportar sozinho o esforço financeiro necessário. 

“Sem ajuda de fundos internacionais, vindos da Europa, da Ásia ou da América do Norte, não será possível reconstruir. Aqui a questão é perceber de que forma essa ajuda à Venezuela, em termos de reconstrução, será concretizada”, salienta o economista.  

Pedro Cerqueira explica que há duas hipóteses possíveis: “Através de donativos e transferências a fundo perdido, como aconteceu em outros países, ou através de uma lógica mais transacional, em que os financiamentos são concedidos mediante reembolso ou até através do controlo de certas áreas produtivas, como parece estar a acontecer na abordagem mais recente da administração norte-americana”, refere. 

“A forma como essa ajuda for concedida também vai influenciar a dependência externa da Venezuela no futuro”, acrescenta ainda. 

 

Comunidade internacional mobiliza ajuda 

A resposta internacional começou a ser mobilizada logo após os sismos. Oito Estados-Membros da União Europeia -Chéquia, Espanha, Itália, França, Luxemburgo, Alemanha, Portugal e Países Baixos – ativaram o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia, mobilizando mais de 520 operacionais para apoiar as operações de emergência. 

Portugal enviou uma missão composta por cerca de 50 elementos, incluindo especialistas em busca e salvamento, profissionais do INEM e elementos da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR. Dois aviões da Força Aérea Portuguesa chegaram ao país no dia 27 de junho para apoiar as operações humanitárias. 

Além da resposta institucional, a comunidade luso-venezuelana em Portugal também se mobilizou. 

Segundo Jhonny Gamez, diretor do escritório da Câmara Venezuelana Portuguesa de Comércio, Indústria, Turismo e Afins (Cavenport) em Portugal, em declarações à PME Magazine, associações e empresas têm reunido esforços para enviar ajuda ao país. 

“A comunidade luso-venezuelana está toda unida para enviar ajuda humanitária e apoiar o povo venezuelano neste momento tão difícil. A resposta da sociedade civil portuguesa e venezuelana tem sido brutal, com muitas empresas, instituições e apoio do Governo. Estamos muito agradecidos por toda a solidariedade.” 

Jhonny Gamez alerta, contudo, que a resposta terá de se prolongar muito para além da fase de emergência. 

“Não estamos a falar de uma semana ou de um mês. Vamos precisar de muito mais ajuda durante bastante tempo. Há muitas pessoas que perderam tudo, que vivem na rua, que estão hospitalizadas ou continuam desaparecidas. Precisamos de toda a ajuda possível para chegar às pessoas que realmente necessitam.” 

 

Indústria petrolífera sofreu pouco impacto 

Apesar da dimensão da tragédia, o setor petrolífero – principal fonte histórica de receitas da Venezuela – não deverá sofrer consequências significativas. Pedro Cerqueira explica que as principais zonas de exploração não foram afetadas pelos sismos. 

“O sismo não afetou muito a zona exploradora de petróleo. O impacto aí não será muito grande. Poderá atrasar alguns meses a recuperação da indústria, mas não será aí que a Venezuela terá os maiores problemas.” 

O economista recorda ainda que a produção petrolífera venezuelana já se encontrava bastante limitada devido aos anos de sanções internacionais e à degradação da capacidade produtiva. 

“A Venezuela estava isolada e só recentemente é que estava a tentar recuperar a sua capacidade exportadora. O peso do país no mercado petrolífero mundial é hoje muito reduzido e, por isso, o sismo praticamente não teve impacto nos preços internacionais do petróleo.” 

 

Reconstrução poderá abrir oportunidades 

Embora reconheça o impacto económico do desastre, Jhonny Gamez acredita que a fase de reconstrução poderá criar condições para novos investimentos internacionais. 

“A Venezuela já enfrentava uma situação muito difícil e um sismo desta magnitude afeta a economia brutalmente. Mas agora inicia-se um processo de reconstrução e de investimento. A economia está mal, mas daqui para a frente só pode melhorar.” 

O responsável considera ainda que Portugal poderá desempenhar um papel relevante nesse processo. “Portugal sempre apoiou a Venezuela, mesmo nos momentos mais difíceis. Tenho quase a certeza de que vai aproveitar para investir e apoiar a reconstrução do país.” 

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