Por: Ana Marisa Vieira
Startup Leiria
Associação sem fins lucrativos constituída em 2004 por iniciativa do Politécnico de Leiria, Associação Empresarial da Região de Leiria (NERLEI) e Câmara Municipal de Leiria.
180 projetos incubados, 30% internacionais
Leiria, Alcobaça, Ansião, Alcanena, Batalha, Porto de Mós e Coimbra
PME Magazine (PME Mag.) – No mais recente ranking do Financial Times, que reúne os principais hubs startups da Europa, a Startup Leiria é a sexta mais bem colocada em Portugal. Na Europa, está no lugar 67. Como é que chegámos até aqui? Que fatores e que diferenciação é que esta startup tem que explicam esta posição?
Vítor Ferreira, General Manager Head of Hapiness and Ideas Startup Leiria – Boa tarde ou bom dia a todos, conforme estiverem a ver. Eu gostaria primeiro de, se calhar, realçar que, apesar de sermos o sexto em Portugal, na verdade, em termos de região, somos a terceira. Portanto, essa parte é importante.
Por cá, à nossa frente estão várias aceleradoras e incubadoras de Lisboa, depois do Porto e, depois, nós estamos a seguir. É muito interessante a dinâmica de crescimento que nós conseguimos nos últimos anos, porque a Startup Leiria resulta de uma fusão entre duas associações. Cerca de 2020 havia a IDDnet, que era uma incubadora de empresas em Leiria, e a Startup Leiria, que era uma aceleradora.
Nós, rapidamente, percebemos que Leiria não tinha massa crítica para ter uma aceleradora e uma incubadora que fossem de cariz nacional ou internacional. Então, fizemos uma coisa, fomos audazes, fizemos uma coisa que se faz pouco em Portugal e fizemos uma fusão de associações. Isto até confundiu um bocadinho o pessoal da Conservatória, mas pronto, nós conseguimos levar a cabo essa fusão.
Então, as duas associações, sem fins lucrativos, fundiram-se e, a partir daí, nós começámos uma estratégia de crescimento, de internacionalização, que nos levou até onde estamos hoje. Temos mais de 180 projetos incubados. Estamos presentes em seis cidades, neste momento. Portanto, Leiria, Alcobaça, Ansião, Alcanena, Batalha, Porto de Mós e Coimbra. Hoje estamos também a colaborar com a Politécnico de Coimbra para ativar o ecossistema de empreendedorismo. Temos vários projetos nacionais e internacionais, muitos projetos europeus a decorrer.
Tivemos em África, no Quénia e em Angola, a dar formação a incubadoras. Estamos a fazer formação para as outras incubadoras todas do país, em conjunto com a Startup Portugal. E, um bocadinho, obviamente, temos 30% do nosso ecossistema internacional. Temos startups, muitas, é óbvio, do Brasil, mas também da Ucrânia, da Rússia, da Alemanha, dos Estados Unidos, da Índia. Temos algumas startups da Inglaterra. Portanto, isto acho que nos trouxe até aqui.
Como? Com uma estratégia de crescimento. No fundo, nós somos uma incubadora aceleradora que pensa como uma startup. No fundo, nós temos como objetivo o crescimento rápido, temos como objetivo impactar a região e o país, criando valor através do desenvolvimento de startups intensivas em conhecimento.
Somos uma associação sem fins lucrativos, que é participada por algumas das instituições importantes da região, como sejam a Politécnico de Leiria, a Câmara de Leiria e a NERLEI – a Associação Empresarial Industrial, mas não temos qualquer aporte financeiro. Nós somos como uma startup em bootstrapping. Portanto, nós vivemos das receitas que geramos.
PME Mag. – E são sustentáveis?
E somos sustentáveis, temos resultados positivos ao longo dos anos, temos crescido mais de 100%. E talvez isso nos tenha feito ser um bocadinho diferentes da maioria das incubadoras aceleradoras e nos ter levado a essa trajetória de crescimento. Por exemplo, pelo ranking Startup Blink, nós somos o 3º melhor ecossistema do país. Para uma cidade com 130 mil habitantes, não é mau.
PME Mag. – Quais são as principais áreas das empresas que estão aqui incubadas?
Nós somos não verticalizados. Portanto, não estamos, para quem não sabe o jargão do empreendedorismo, não estamos concentrados num só setor. Portanto, somos mais ou menos agnósticos em termos de setor. Para as empresas entrarem no nosso ecossistema, elas têm que ser intensivas em conhecimento. Nós temos um regulamento que define os CAEs e as áreas que nós consideramos serem intensivas em conhecimento.
Mas é óbvio, sendo uma região de cariz industrial, como é a região de Leiria, onde temos a maior parte dos projetos que estão incubados, nós temos muitas startups de indústria. Eu diria 4.0, mas hoje está mais na moda dizer 5.0. Temos muitas startups ligadas a novos materiais, à parte de desenvolvimento e fabricação, aditiva, robôs e essas coisas todas. Depois, é óbvio, temos Sports Tech.
Começámos com a Bhout, que é o saco de boxe inteligente, e depois acabámos por ter outras que vieram atrás. Temos muita cibersegurança, porque já tínhamos algumas, mas nós somos um Digital Innovation Hub, em conjunto com o Centro Nacional de Cibersegurança, com a PRICE e mais outros associados, que eu certamente me estarei a esquecer, mas que levou a que nós conseguíssemos atrair muitas empresas na área de cibersegurança, que é uma área muito importante para a área industrial. A área da defesa, porque fizemos o primeiro programa de aceleração em defesa em Portugal, que não estava afiliado com a NATO, portanto, era só nosso, também é muito importante para nós.
Nas regiões onde estamos, tentamos ser mais especializados, mais verticalizados, por exemplo, em Alcobaça tentamos ter mais Agri Tech, que é uma área onde temos algumas também, porque tivemos um testbed na área de agro, com a Lusiaves, e Food Tech também. Por exemplo, em Ansião temos mais Clean Tech, em Alcanena temos mais logística e também um bocadinho de Food Tech e Agri Tech. Portanto, são estas as principais áreas.
O que é que nós não temos? Não temos startups de espaço. Ainda não. Não é um foco para nós, ou seja, mesmo na área da defesa nós procuramos defesa e produto, defesa e cibersegurança, defesa e desenvolvimento, porque temos, por exemplo, sei lá, o IPN faz melhor que nós, mas, portanto, a parte do espaço, e nós nem sequer temos esse curso aqui no Politécnico de Leiria, e em Coimbra há. Portanto, nós tentamos focar naquilo que… Não se fazem omeletes sem ovos, então tem que haver uma ligação ao core da região.
PME Mag. – E não vale a pena haver tanta concorrência? Até porque, nos últimos anos, o número de startups aumentou imenso, os espaços incubadores, vocês sentem isso? Que, ao mesmo tempo, também, se calhar, há um desafio maior? Esta concorrência pode também ser positiva entre startups e incubadoras?
Sem dúvida. Há uma espécie de competição. Nós estamos todos juntos na Startup Portugal, que, para quem não sabe, é a entidade que agrega todas as incubadoras e aceleradoras em Portugal. Depois há uma entidade, que é a RNi, que é a Rede Nacional de Incubadoras que certifica, faz parte da Startup Portugal, e nós cooperamos muito, temos muitos projetos em conjunto, mas também é importante perceber que diferentes startups têm diferentes focos, diferentes regiões, e isso faz com que haja mais uma espécie de competição.
“(…) a Microsoft foi criada numa garagem, a Dell foi criada numa garagem, a Apple foi criada numa garagem, a OutSystems, curiosamente, foi criada numa garagem, então o que é que nós precisamos? Mais garagens”.
E depois há incubadoras de base regional, cujo objectivo é fomentar o empreendedorismo básico local, o microempreendedorismo. Nós não somos isso, ok? Eu poderia dizer que Portugal sofre do sintoma das garagens. Quem nunca ouviu falar nas minhas palestras, eu costumo dizer essa piada, que é os nossos políticos ouviram dizer que a Microsoft foi criada numa garagem, a Dell foi criada numa garagem, a Apple foi criada numa garagem, a OutSystems, curiosamente, foi criada numa garagem, então o que é que nós precisamos? Mais garagens.
Mas garagens não vão fazer com que nasçam empresas novas que criam valor. Garagens são, no fundo, eu acho que as incubadoras são os novos gimnodesportivos dos municípios, e nós podemos criar uma incubadora, que até pode ter um trabalho louvável a apoiar o microempreendedorismo, o empreendedorismo tradicional, mas não temos um ecossistema de inovação. Um ecossistema de inovação é feito de pessoas, investidores, ligações à academia, ligações internacionais, ligações a corporates, ligações a PME, e é isso que nós tentámos fazer aqui, criar um ecossistema.
“(…) nós somos uma incubadora de base tecnológica e uma das melhores do país”.
Um ecossistema são pessoas a conversar com pessoas, e essa é a parte importante, que nós não somos uma incubadora de base local, de microempreendedores, nós somos uma incubadora de base tecnológica e uma das melhores do país.
PME Mag. – O Vítor Ferreira costuma dizer que a Leiria já era empreendedora antes do empreendedorismo ser cool, o que é que isto significa? E ainda é cool ser empreendedor ou não?
Então, disclosure, eu tenho mais de 45 anos, e eu cresci numa altura em que, sobretudo numa cidade onde ser empreendedor não era uma coisa muito fixe, eu cresci em Coimbra, então as profissões de relevo eram médico, professora, advogado, portanto estas eram as grandes profissões. Um empresário, o meu pai era empresário, tinha um pequeno negócio, agora já está reformado, não era uma coisa bem vista, uma pessoa que tivesse muito sucesso era um pato bravo, estava ligada à construção, se tivesse muito dinheiro era porque tinha enganado alguém, portanto nunca era porque tinha tido a coragem ou tinha arriscado.
“(…) nasceu toda uma indústria de pessoas que, sem falar inglês, iam para os Estados Unidos vender moldes, iam engariar clientes para a Alemanha, apanhavam um avião, nunca tinham saído de Leiria e estas pessoas fizeram impérios e não tiveram medo de arriscar (…)”
Leiria sempre foi uma espécie de ilha no contexto nacional, porque sempre foi uma terra de empreendedores, ou seja, isto vem um bocadinho da parte dos moldes que nasceram da indústria de vidro, primeiro eram moldes de madeira para vidro, depois, nos anos 30, converteram-se em moldes para plástico e depois nasceu toda uma indústria de pessoas que, sem falar inglês, iam para os Estados Unidos vender moldes, iam engariar clientes para a Alemanha, apanhavam um avião, nunca tinham saído de Leiria e estas pessoas fizeram impérios e não tiveram medo de arriscar e depois houve outra vaga nos anos 60, depois houve outra vaga nos anos 80 e estas pessoas fizeram. Então, sempre foi uma cidade que viu bem e tratou bem os empreendedores e, portanto, antes de falar de startups, incubadoras, nós tínhamos pessoas aqui em Leiria que faziam isso, criavam negócios intensivos em conhecimento, que era fazer um molde, que é uma ferramenta complexa, e iam à luta. E, portanto, antes de ser cool, esta terra era uma terra de empreendedores que ainda hoje tem, temos no fundo, o resultado desse empreendedorismo.
Isso é bom e é mau, porquê? Vou-te dizer, porque quando eles veem esta coisa das startups, eles pensam eu fiz sozinho, porquê é que eles precisaram de ajuda? Ou seja, aqui é muita a ideia do self-made man, ou seja, não há aqui um apoio propriamente direto ao ecossistema, indireto há, nós colaboramos com a NERLEI e com a Câmara de Comércio e Indústria, colaboramos com corporates e com PME industriais, mas dar dinheiro diretamente ninguém dá, porque as pessoas acham que tens que fazer, tens que lutar, tens que chegar. Se ainda é cool ser empreendedor? É. Nós, aqui na minha equipa, há bocado disseste na minha apresentação Head of Happiness, não é?
Nós acreditamos muito nesta, eu sei que já não está na moda, até porque há vários livros a criticar a cultura da felicidade nas organizações, portanto já demos a volta, primeiro começou-se a falar da felicidade nas organizações, mas a felicidade não é objetivo, é basicamente as pessoas tão felizes quanto estão a fazer aquilo que gostam e se sentem valorizadas. Isto é a ideia principal. E se os meus colaboradores estiverem valorizados e se sentirem bem, os nossos empreendedores também se vão sentir bem e, por sua vez, os nossos fundadores também se vão sentir bem.
E se os nossos fundadores se sentem bem e felizes, os colaboradores deles também e os investidores deles também e a região der valor. E há um bocadinho nesta cadeia de fazer aquilo que acreditamos, saber que estamos a fazer, que estamos a ter um impacto positivo e que estamos a mudar o país. E estas startups, e era isso que eu dizia, nós acreditamos sinceramente que através deste mantra, isto não é espiritual nem nada, portanto não tem nada de espiritual, mas é uma realidade, nós estamos a criar valor.
E estas novas startups estão a transformar o país e nós esperamos que haja mais Talkdesk, que haja mais Feedzai, que haja mais Bhout, que haja mais Tekever, que haja mais Soundparticles, porque são elas que vão mudar o país. A gente não vai lá por decreto, arrisco-me a dizer isto, provavelmente é muito difícil, porque existem soluções políticas, mas não são fáceis. Nós vamos lá se criamos um tecido que realmente cria valor diferenciado. E aí, até para quem não está a ouvir, eu diria uma coisa, que há uma coisa que eu, que eu para além de, por exemplo, sou também professor de empreendedorismo e inovação, que é o mito da produtividade. Diz-se que Portugal é um país com uma produtividade baixa.
PME Mag. – E não é?
Não. Como é que se mede produtividade? É o VAV ou a produção ou dividir pelo número de horas ou pessoas. Ora, se eu produzir garrafas de água, não interessa a marca, a um valor extremamente baixo, tiver uma margem baixa, vou dividir isto pelo número de horas que foram necessárias para produzir e isto ao número de pessoas, tenho o VAV, a produtividade vai ser extremamente baixa. Se eu trabalhar na ASML, na Holanda, a produzir as máquinas de litografia que fazem os semicondutores de todo o mundo, máquinas essas que se vendem a 40, 60 milhões de euros, eu divido pelo número de horas e de colaboradores, a produtividade vai ser extremamente alta. Ok? Se aquilo que eu faço é super intensivo em valor, a produtividade é alta.
“Se eu estou no fim da cadeia de valor, a produtividade vai ser baixa”.
Se eu estou no fim da cadeia de valor, a produtividade vai ser baixa. Não é valorizado. Nem sequer a inovação e contra a nossa região eu falo, porque, por exemplo, se uma empresa de moldes tivesse entrado… O molde é uma coisa fantástica, para quem não sabe.
Portanto, é uma peça de aço que é maquinada para depois ter canais, para depois… Este, por acaso, é soprado, mas depois para ter o plástico todo que temos na nossa vida. Mas, ok, eu posso inovar imenso, mas o meu cliente pode ser um OEM, trabalha depois para uma BMW ou para uma outra empresa in-between e todas as inovações que eu faça, o valor vai ser capturado no final da cadeia de valor. Não é para mim.
E muitas das empresas que nós temos aqui estão na final da cadeia de valor ou estão numa parte da cadeia de valor que já não há mais valor.
PME Mag. – Há pouco falavas também do espírito que se calhar a geração dos nossos pais teve ao abrir empresas, muitos deles com a quarta classe, por exemplo, com pouquíssimos estudos. E hoje? Temos uma geração altamente preparada e o risco é avesso?
Isso tem a ver com a cultura que falávamos há um bocado. Podemos tentar transformar, mas demora muito tempo para transformar a cultura de um país. Para quem não está ouvindo ou sabe, Portugal é um dos países mais avesso ao risco.
“Portugal é um dos países com maior aversão à incerteza”.
Há uma coisa que são as dimensões de Hofstede, que foram estudadas por um pesquisador holandês e uma delas tem a ver com a pressão à incerteza. Aquilo que são as dimensões culturais de um país. Existem várias, distância ao poder, etc., mas ok. Portugal é um dos países com maior aversão à incerteza. E isto, as pessoas não gostam de arriscar, não gostam de se colocar em situações que não controlam. É um bocadinho isso.
E é estranho, não é? Porque nós partimos para fora, mas eu tenho uma teoria sobre isso, não temos tempo hoje, dava uma hora de conversa. Isso é empreendedorismo por necessidade. Nós tínhamos que tentar nos safar e procurar riqueza, porque não havia em Portugal, porque lá eram os países mais pobres da Europa no século XV e teve que procurar recursos.
PME Mag. – Foi por necessidade…
“(…) há uma matriz católica que não tem nada a ver com o aspeto religioso ou espiritual, mas tem a ver com a forma como encaramos a riqueza e o sucesso (…)”
Exatamente, foi procurar recursos ao outro lado. E durante muito tempo também estigmatizámos, como te dizia há bocado, a riqueza e essas profissões ligadas à criação de negócios, ou seja, vulgo burguesia, não é? Portanto, no século XVII, XVIII, ao contrário dos holandeses, não é? Portanto, e toda a Europa protestante. Então, isso ficou mais ou menos num ADN da cultura nacional, ou seja, nós temos, há uma matriz católica que não tem nada a ver com o aspeto religioso ou espiritual, mas tem a ver com a forma como encaramos a riqueza e o sucesso, que nos faz não querer sair da norma, ok? Portanto, há um ditado na Bíblia que diz que mais depressa um camelo passa por um buraco de uma agulha que um rico entra nas portas do céu. E nós sempre tivemos essa visão.
Ninguém enriquece a trabalhar. Então, isso faz com que haja um estigma, que as pessoas não queiram ser empresários, que tenham medo. E esse estigma é exatamente o oposto daquele que existe na Europa e nos Estados Unidos, que são países protestantes. E para os protestantes, o sucesso, mais do que a riqueza, é uma espécie de sinal que Deus está a recompensar o teu esforço e criatividade. E isso explica porque é que os países do mundo com índices maiores de empreendedorismo são protestantes e não de matriz católica.
PME Mag. – E também há uma grande tolerância ao insucesso?
Exatamente. E essa parte também é muito importante. Nós sempre fomos uma cultura… Nós somos lixados como portugueses. Nós estigmatizamos o sucesso, como eu acabei de dizer, e o insucesso. Portanto, é aquela coisa do… Olha, o gajo é rico, enganou alguém. Mas depois o gajo espeta-se. Ah, bem feito. Olha, agora… a Farfetch, não é? Para mim a Farfetch é um dos melhores exemplos de sucesso. Daquilo que é criar um ecossistema. Eles seguiram os passos todos.
“Eles [Farfetch] foram um marketplace em si, depois série A, B, C, chegaram à bolsa, fizeram IPO, depois faliram”.
Eles foram um marketplace em si, depois série A, B, C, chegaram à bolsa, fizeram IPO, depois faliram. Mas eles fizeram. Ok, falhou, é normal. Só que nós estigmatizamos muito o falhanço. Então, isso faz com que, sobretudo, por exemplo, nos empreendedores mais jovens, nos meus alunos, quando dou aulas, também há muita aversão ao risco. E nós notamos isso. E isso demora muito tempo a mudar, não é?
PME Mag. – Também tens defendido a ideia de transformar a região num full stack valley. O que é que significa este conceito? E, principalmente, aqui numa área local?
Então, eu acho que a melhor forma de ilustrar isso é falar da Bhout. Para quem não conhece, passo a publicidade, a Bhout é uma startup de Lisboa, que está incubada connosco, que faz um saco de boxe inteligente com computer vision, é um saco que está cheio de sensores, ele mede a força, a rapidez, a técnica e, em conjunto com a câmera, ele vai nos ajudar a melhorar a técnica, perder peso, aumentar a destreza, qualquer que seja o objetivo. Depois tem um lado também de gamificação. Então, é um negócio muito interessante, porque eles têm ginásios próprios ou franchizados, o que faz com que, no fundo, o negócio não venha da venda dos sacos, mas sim da rentabilidade que é gerada nos ginásios.
“A IA é feita em Leiria. Computer vision é feita em Leiria. A pele dos sacos é feita em Leiria. A espuma dos sacos é feita em Leiria. Os moldes para o plástico dos sacos são feitos em Leiria, os plásticos são feitos em Leiria, os sensores são feitos em Leiria e o metal é maquinado em Leiria”.
Porquê é que eu estou a falar da Bhout? O que é que é muito interessante na Bhout? A IA é feita em Leiria. Computer vision é feita em Leiria. A pele dos sacos é feita em Leiria. A espuma dos sacos é feita em Leiria. Os moldes para o plástico dos sacos são feitos em Leiria, os plásticos são feitos em Leiria, os sensores são feitos em Leiria e o metal é maquinado em Leiria. E mais, as máquinas que equipam a nova fábrica da Bhout, são feitas por outra startup nossa, que é a Dommify, em Leiria.
Nesta região alargada, vamos imaginar que corresponde ao antigo distrito de Leiria. Portanto, que vai mais ou menos do norte de Lisboa até Pombal. E esta região é única, porque é possível fazer isto em qualquer setor. Pode ser no setor primário. Nós vamos, por exemplo, pensar numa Sugal que faz a maior cultura de polpa de tomate da Europa. Ok? Há drones por todo lado. Há nanotecnologia. Há robôs a apanhar tomate. Vamos às pescas, ok? Há a Nigel congelados em Peniche. Temos o maior porto de pesca. Mas depois, toda a indústria. Temos muito IOT na fábrica. Um piloto que eles têm agora, neste momento, é com uma empresa nossa, que faz um bioplástico a partir de algas que evita a queimadura do gelo. Vamos, por exemplo, pensar uma coisa que não parece nada tecnológica. Transformação de carne, não é? Das aves e dos porcos, que é muito forte aqui na região, porque temos não só a Lusiaves, temos muitas empresas de ovos e de porcos.
“É um software de IOT para fábricas de transformação, não é abate, mas a parte de desmanchar a carne, tratar a carne, embalar e enviar. E, de repente, tudo isto tem inteligência artificial”.
Bom, temos uma startup nossa, que é a Brainr, que fez a maior seed series em Portugal. Levantaram 11 milhões. O que é que eles fazem? É um software de IOT para fábricas de transformação, não é abate, mas a parte de desmanchar a carne, tratar a carne, embalar e enviar. E, de repente, tudo isto tem inteligência artificial. E este cruzamento entre o novo, a nova tecnologia e as antigas indústrias existe, quer no setor primário, quer na indústria de cerâmica, metal ou mecânica, moldes, plásticos, etc., quer depois na própria construção do setor terciário. E nós acreditamos que esta região é única em Portugal e no contexto europeu.
Isto é full stack valley. Peço desculpas às pessoas de informática porque roubámos o conceito, porque o full stack valley é outra coisa, tem a ver com o desenvolvimento de software e com as linguagens de A a Z.
PME Mag. – Muitas startups incubadas estão a trabalhar diretamente com grandes empresas industriais. Que tipo de inovação está a surgir desta colaboração?
Muita. Por acaso, antes da nossa entrevista, tive uma reunião, não vou dizer, com uma empresa corporate, PME, não é mais PME, já é uma grande empresa aqui da região e estávamos a falar um bocadinho disso e vamos lançar um programa de inovação aberta, em breve, ligado a essa empresa. Porquê? Porque, por exemplo, temos uma startup nossa, que está ali ao fundo, que é Twevo, que trabalham com computer vision aplicado à indústria. Pode ser coisas como, por exemplo, eles começaram no vidro, aqui, para quem não sabe, há várias fábricas de vidro, algumas das maiores da Península Ibérica e da Europa, que produzem, cerca de cada fábrica, 11 milhões de garrafas por dia.
É muita garrafa, não é? Portanto, é muita cerveja, como eu costumo dizer, porque algumas dessas garrafas vão para marcas de cerveja. Então, quando temos uma linha de produção, produzir garrafas a uma velocidade tão grande, é muito difícil identificar defeitos, sobretudo no ambiente super agressivo para os seres humanos e, mesmo nesses ambientes, é muito difícil aquelas técnicas, como o laser funcionarem relativamente bem. Aqui entra Twevo, que é uma startup do nosso ecossistema, que tem computer vision, que é aplicada a vários desafios da área da produção.
Pode ser este, que é a produção em sério, identificando as garrafas que têm defeito, isolando-as e tentando, basicamente, travar a linha de produção e retirá-las e identificar quais é que têm que sair no fim. Mas isso pode ser aplicado a plásticos, por exemplo, eles estavam a trabalhar aqui na região para identificar micro fissuras em faróis que eram injetados para uma série muito grande. Também há aqui empresas trabalham para fábricas automóveis, para construtoras automóveis e é possível, através da tecnologia dele, quando os faróis estão a sair da linha de produção, identificar, porque aquilo até é transparente, é muito difícil, as micro fissuras e dizer, ok, isto não está bem, isto não está bem. E isso fez com que eles fossem trabalhar na indústria automóvel, com a Stellantis, com a Altrics, com uma série de empresas em que, basicamente, eles estão a melhorar toda esta deteção de defeitos. Temos também a Dommify, que trabalha na área de robótica, novas soluções. A ideia pode ser uma coisa deste, como eu dizia há bocado, eles estão a fazer as máquinas da Bhout, que não existiam.
“(…) Rei dos Frangos, uma churrasqueira, e eles têm que temperar não sei quantos milhares de frangos por dia, então eles desenvolveram uma pistola para temperar frangos (…)”
Iniciam máquinas para ensacar sacos tecnológicos, ou, por exemplo, desafios que parecem absurdos, mas a Dommify trabalhando num desafio com uma empresa aqui da região, que é o Rei dos Frangos, uma churrasqueira, e eles têm que temperar não sei quantos milhares de frangos por dia, então eles desenvolveram uma pistola para temperar frangos, ou seja, nós temos coisas loucas.
PME Mag. – Como se fosse para pintar um carro?
Ou, por exemplo, a Dimera, que é outra startup do nosso ecossistema, que está a desenvolver novos materiais para diversas áreas, portanto, o que eles fazem, eles têm um laboratório virtual em machine learning, que permite desenvolver novas moléculas, novos materiais, testar antes de chegarmos ao laboratório. Isto é uma rapidez do ponto de vista da aprendizagem.
Ora, para quem necessita de materiais mais sustentáveis, mais recicláveis, mais circulares, como é a parte da região, este tipo de tecnologia é fantástico. Temos muitos outros exemplos de empresas que estão agora nesse caminho, mas um dos grandes nossos objetivos, sobretudo agora, depois da tempestade Kristin, é esta coisa do casamento do novo com o antigo, para melhorar estas empresas que vão ter que recuperar, já que vão ter que recuperar, que o façam com nova tecnologia, que lhes permite ser bastante mais eficiente.
PME Mag. – Já agora, que falamos na crise e na tempestade, que apoio é que vocês têm dado às empresas na região e também que oportunidades é que vocês vêem, tal e qual como estavas a referir, a possibilidade de começar do zero?
Primeiro fizemos um apoio de curto prazo e agora temos um apoio de médio prazo e depois vai haver uma coisa mais dedicada ao longo prazo.
O curto prazo que nós fizemos foi, tivemos sorte, portanto, este edifício onde estamos hoje foi pouco afetado, apenas por fora, se calhar deves ter visto, portanto, tínhamos uma inundação, porque as claraboias abriram, mas, de qualquer forma, fomos pouco afetados. Na segunda-feira, se calhar a tempestade, já tínhamos energia, ao contrário da maior parte da cidade, e água, então decidimos acolher, neste edifício e no outro, todas as empresas que tinham ficado sem teto e que queriam vir para aqui trabalhar, portanto, obviamente, não podia ser uma empresa industrial, mas tivemos muitas empresas de serviços, desde a La Redoute, a Incentia, a Arentia, que colocaram aqui vinte, trinta, quarenta pessoas a trabalhar, empreendedores individuais, profissionais liberais, tivemos nos nossos edifícios, durante essas duas, três semanas, mais de cento e oitenta pessoas que nós apoiámos a curto prazo.
A médio prazo, fizemos uma parceria com três das nossas empresas do ecossistema, que são também nossos associados, com a Mazars, com a AIMING e com a EFI Group, que são empresas dos grandes de consultadoria, e pedimos para eles disponibilizarem horas para apoiar as pessoas nas candidaturas, nas oportunidades, portanto, há uma espécie de office hours que as pessoas podem usar para saberem como é que é onde tirar proveito dos novos programas.
A longo prazo temos de trabalhar com a força aqui com o NERLEI, a Associação Empresarial da Região Leiria e as outras associações, mas também com a estrutura de missão que foi constituída pelo governo para recuperar a região, num programa de aceleração ligada à ligação do novo com o antigo, como eu falava há bocado, ou seja, este lado de que nós vemos esta grande crise e esta tragédia do ponto de vista pessoal e económico, mas, obviamente, sobretudo pessoal, o económico vem depois, mas, ok, o económico depois pode ter consequências pessoais, porque há muita gente que pode ficar sem emprego, mas, apesar de tudo, podemos ver como uma oportunidade no caos, que é, vamos reconstruir melhor, vamos colocar IOT nas empresas, vamos colocar robótica, vamos aumentar a cibersegurança, vamos apostar em novos setores.
Por exemplo, muitas empresas que estavam já a tentar sair do setor automóvel, se calhar é a altura certa para irem para indústrias com maior potencial de crescimento.
PME Mag. – E já agora, essa resposta leva-nos a olhar para o futuro. Nos próximos cinco a 10 anos, 10 se calhar é demais, nos próximos cinco anos, que áreas tecnológicas é que podem gerar mais recursos na tua visão?
Do ponto de vista geral, nós temos uma noção, ou seja, Health Tech, Great Tech. Nós gostamos muito da expressão Tech e dessas palavras em inglês, peço desculpa pelos anglicismo, mas, por exemplo, tudo o que está ligado à saúde, quer seja robótica, quer seja, blockchain para controlar os nossos dados da saúde e poderem aceder ao nosso registo médico, e aplicado ao diagnóstico, robôs para ajudarem, temos cada vez menos pessoas na Europa e mais pessoas envelhecidas, robôs para ajudarem os enfermeiros, etc.
“Tudo o que estiver ligado ao envelhecimento ativo, a aumentar a qualidade de vida, vai ser uma área muito importante nos próximos anos”.
Essa é uma área, sem dúvida, muito importante. Grey Tech, o que é isto? Tudo o que estiver ligado ao envelhecimento ativo, a aumentar a qualidade de vida, vai ser uma área muito importante nos próximos anos. Defesa, como é óbvio, curto prazo, mais do que 10 anos, portanto, essa área vai ser muito relevante.
Defesa, entendemos mais como dual use, algo que pode ser de sitios técnicos, podem ser usados para uma coisa, mas podem ser usados para uniformes ou plástico, para caixas para munições, pode ser usado para outras coisas. Mas dual use vai ser uma área muito importante nos próximos 5 anos. Aquilo que nós chamamos Clean Tech, é óbvio, como é óbvio, está ligado depois à própria biotecnologia, vai ser muito importante.
“(…) sonhar os produtos e fabricá-los, quer seja 10 mil unidades, um milhão, quer seja dez”
Depois, dentro das fábricas, é verdade que vamos continuar naquilo que já estávamos que é intensificar esta ideia de automatização, sistemas inteligentes na linha de produção, customização, em vez de termos séries muito grandes vamos ter séries de produção mais customizadas, tudo tem a ver com logística, estas são áreas que nós vemos que vão crescer nos próximos anos. Sports Tech, também é uma área importante que é ligar a IA ao desporto, nós temos uma startup na área de IA que trabalha parta futebol, mas temos uma que quer trabalhar para os árbitos com sistemas inteligentes para árbitros. Coitados dos árbitros, os treinadores têm acesso a sistemas muito modernos hoje em dia que mapeiam os jogadores, com imagens, velocidade e cansaço, e os árbitros não têm nada. Estas são algumas áreas que nós achamos muito importantes. Aqui, em específico na região, nós achamos que temos capacidade para ser um cluster de engenharia avançada, quer na área da robótica, quer na área da fabricação, onde sempre fomos, um bocadinho esta ideia de sonhar os produtos e fabricá-los, quer seja 10 mil unidades, um milhão, quer seja dez, acho que essa área vai ser importante aqui.












