Terça-feira, Julho 21, 2026
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“Temos produtos de grande qualidade que continuam a ser vendidos quase como se fossem indiferenciados” – IAPMEI

Por: Ana Marisa Vieira


Num contexto marcado pela aceleração tecnológica, pela instabilidade geopolítica e por uma concorrência cada vez mais global, as PME – Pequenas e Médias Empresas portuguesas enfrentam mais um período de exigência. Ganhar dimensão, inovar, internacionalizar-se e integrar a inteligência artificial deixaram de ser opções para se tornarem fatores determinantes de competitividade.

A propósito do Dia Internacional das Micro, Pequenas e Médias Empresas, assinalado no dia 27 de junho, instituído pelas Nações Unidas para reconhecer o papel das PME na economia mundial, importa refletir sobre os desafios que definirão a próxima geração de empresas portuguesas. Apesar dos progressos, Portugal continua confrontado com baixos níveis de produtividade, reduzida dimensão empresarial e dificuldades em criar mais valor acrescentado.

Nesta entrevista à PME Magazine, intitulada “PME Portuguesas 2026: crescer num mercado mais competitivo, digital e global”, o vice-presidente do IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação, Nuno Gonçalves, analisa os principais desafios que as empresas enfrentam em 2026 e aponta caminhos para reforçar a competitividade do tecido empresarial nacional.

Da inovação à internacionalização, da inteligência artificial à cooperação entre empresas e entidades do sistema científico, defende que o futuro das PME dependerá, acima de tudo, da qualidade da gestão e da capacidade de transformar conhecimento em valor.

 

PME Magazine (PME Mag.) – Portugal continua a surgir nos rankings europeus com níveis de produtividade inferiores aos das economias mais avançadas. No entanto, vários empresários defendem que o problema não está na produtividade dos trabalhadores ou das empresas, mas no facto de continuarmos demasiado concentrados em setores e produtos de baixo valor acrescentado. Concorda com esta análise? O que falta para que mais PME portuguesas consigam vender valor em vez de competir sobretudo pelo preço?

Nuno Gonçalves, vice-presidente do IAPMEI – Portugal tem um problema estrutural de empresas muito pequenas, ainda com pouca propensão para cooperar – embora tenhamos feito grande progresso nesta matéria – e com insuficiente músculo financeiro. Não obstante os muito bons exemplos, em termos médios falta-nos mais inovação nas empresas e inovação a todos os níveis.

“(…) temos produtos de grande qualidade que continuam a ser vendidos quase como se fossem indiferenciados”.

É verdade que tem havido um foco em setores ditos de menor valor acrescentado, a par de uma desindustrialização progressiva que se verificou um pouco por toda a Europa, sendo que o problema não está nos setores mas nos modelos de negócio. E, às vezes, está no produto, com muitos produtos portugueses que mereciam ser mais bem reposicionados na cadeia de valor. Eu explico: temos produtos de grande qualidade que continuam a ser vendidos quase como se fossem indiferenciados. Ou conseguimos colocá-los nas grandes marcas, mas a maior parte do valor acrescentado é para elas.

Atualmente, a gestão é cada vez mais complexa, porque a competição é global. E não basta produto, é necessário modelo de negócio, isto é, produto, processo, marca, embalagem, canais de distribuição, logística… não é fácil para as empresas muito pequenas. Mas está provado, pelos bons exemplos, que a dimensão não é obstáculo, se a gestão tiver uma visão clara do que quer e como se posicionar para lá chegar.



PME Mag. – A Inteligência Artificial é vista como fator de competitividade. No entanto, a maioria das PME ainda está numa fase inicial de adoção. Que riscos correm as empresas que decidirem esperar mais alguns anos antes de investir em IA e transformação digital?

Praticamente todas as empresas precisam de não adiar estas questões. Todas as empresas têm de estar a olhar para esta revolução, que já aí está, com muita atenção, perceber as oportunidades que vão existir para o seu negócio e o que são os pontos críticos. Mas não precisam todas de internalizar conhecimento específico, até porque ninguém vai ficar especialista em IA do dia para a noite. A maior parte das empresas terá de recorrer a serviços de suporte. De resto, esta é também a abordagem certa para as empresas mais pequenas em qualquer área de inovação.

Precisam de procurar encontrar no Sistema Científico e Tecnológico Nacional, nos centros tecnológicos e noutras entidades híbridas, bem como nas suas associações empresariais, conhecimento que lhes permita aumentar a sua capacidade competitiva. Isto para toda a Inovação e, por maioria de razão, para a IA, deve ser o que norteia a atuação das empresas e a mudança cultural que precisamos de fazer para elevar a nossa produtividade.

 

PME Mag. – Nos últimos anos, as empresas tiveram acesso a diversos programas de apoio públicos e europeus. Ainda assim, muitos empresários continuam a considerar os processos burocráticos e complexos. O que diria a quem defende que Portugal continua a dificultar o crescimento das empresas com excesso de procedimentos e lentidão administrativa? Que soluções existem?

Eu diria que sempre que estão em causa recursos públicos tem de haver um quadro de grande rigor na sua alocação. Mas a isso acresce uma nova forma de trabalhar a que as empresas precisam de se habituar: mais foco nos resultados em vez da execução financeira e muitos projetos em parceria, para alavancar a mudança do perfil de especialização das empresas.

A esse propósito, ainda recentemente apresentámos no dia 25 de junho, no Norte os resultados das Agendas Mobilizadores até à data. Este será o caminho. Foram 51 projetos, envolvendo quase 900 empresas e mais de 200 entidades do Sistema Científico e Tecnológico Nacional, com 3,2 mil milhões de incentivos contratados que preveem um acréscimo de mais de 8 mil milhões no volume de negócios até 2026, a criação de mais de 11 mil novos postos de trabalho qualificados e com um contributo estimado para o PIB entre 2,5% e 3%.

“Sobre a desburocratização e a modernização administrativa, este governo tem um ministério inteiramente dedicado a racionalizar o sistema (…)”

Sobre a desburocratização e a modernização administrativa, este governo tem um ministério inteiramente dedicado a racionalizar o sistema, com particular enfoque na centralização de bases de dados na área pública e na interoperabilidade de dados entre serviços e ministérios, por forma a racionalizar o sistema e evitar duplicação de pedidos de informação.



PME Mag. – Muitas PME portuguesas continuam excessivamente dependentes do mercado interno. Que características distinguem hoje uma empresa preparada para internacionalizar-se de outra que ainda não está pronta para dar esse salto?

Bem, há empresas que pela sua natureza nunca se internacionalizarão e isso é normal e desejável, precisamos de empresas locais e precisamos das outras. Para quem tem oferta suscetível de ser colocada fora, a preparação inclui grande organização do negócio cá dentro, por vezes originando investimento.

Os sistemas de incentivo geridos pelo IAPMEI têm na sua esmagadora maioria o objetivo de apoiar os processos de exportação e internacionalização das nossas empresas. Para além disso, a AICEP pode ajudar nos primeiros passos, facilitar o contacto com empresas que já estão nesses mercados e assistir na entrada com prudência, eventualmente num mercado que não seja crítico e em que se assuma o risco e eventual custo de aprendizagem. O que por vezes sucede é que, não correndo bem à empresa, ela desiste do processo quando já estaria muito mais bem preparada para ir de novo à luta.

“(…) as associações empresariais, as universidades e entidades híbridas ajudam e essa é a forma mais segura de começar”.

Para além disso, as associações empresariais, as universidades e entidades híbridas ajudam e essa é a forma mais segura de começar. As empresas precisam de apostar em balanços sólidos e procurar mitigar risco nas operações, contando para isso com seguros de crédito, instrumentos fundamentais para ajudar a navegar um mundo de incertezas e de riscos geopolíticos.



PME Mag. – Se tivesse de aconselhar um empresário português a fazer apenas três investimentos estratégicos nos próximos 12 meses para aumentar a competitividade da sua empresa, quais seriam?

Recomendava um diagnóstico de competitividade da empresa que contemplasse tendências e benchmark entre pares. O IAPMEI tem uma ferramenta potente, o Mecanismo de Alerta Precoce, que permite a comparação económico-financeira com o setor e é um bom começo. A seguir, o investimento nas duas áreas identificadas como tendo mais potencial de impacto no negócio e, em simultâneo, um trabalho muito sério na mitigação dos principais riscos encontrados no relatório. Penso que a questão da IA acabará sempre por aparecer no meio, mas as empresas precisam de a ver como um meio, integrado no seu modelo de negócio, e não como um fim em si mesmo. Por isso, é fundamental o diagnóstico estratégico prévio, para perceber qual a primeira área em que a IA poderá fazer diferença. E claro, as alterações fazem-se sempre por etapas, medindo cuidadosamente resultados.



PME Mag. – Daqui a cinco anos, quais serão as PME vencedoras em Portugal e quais correm maior risco de desaparecer? Que sinais devem os empresários observar já hoje para perceber em que grupo a sua empresa se encontra?

Em todos os momentos da história, o ensinamento tem sido o mesmo: em alturas de crise ou de mudança, procurar reforçar o músculo financeiro faz sempre sentido. Gestão apertada. O Sr. Américo Amorim falava de “tratar um tostão com o mesmo cuidado de um milhão”. Observação em permanência de tendências, por forma a ter um olho no presente e outro no futuro. E é aqui que entram as parcerias: uma empresa isolada é uma empresa mais pobre e com menor visibilidade sobre o que está a acontecer. O conhecimento é a alma de todos os negócios. Agir com base em diagnósticos, evitar a ação por intuição. Evitar fugas para a frente, muitas vezes apetecíveis quando se começa a entrar em quadros críticos. E cooperar em todas as oportunidades de cooperação suscetíveis de trazer mais valias: sim, é mais difícil e mais consumidor de tempo, mas vale mesmo a pena.

Em resumo, estamos sempre no mesmo domínio: o da boa gestão. O que as empresas PME Líder nos ensinam é que a boa gestão é o melhor garante de continuidade e de desenvolvimento dos negócios nas empresas.

 

 

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O IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação é uma entidade pública portuguesa, sob a tutela do Ministério da Economia, focada em apoiar e promover o desenvolvimento das Micro, Pequenas e Médias Empresas (PME) nos setores da indústria, comércio, serviços e construção.

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