Terça-feira, Julho 21, 2026
InícioOpiniãoTenho 20 anos e já não quero crescer

Tenho 20 anos e já não quero crescer

Por: Rita Tacão Graça, estudante na NOVA IMS e responsável pelos projetos SARA e Ritual

 

Quero crescer. Só não quero crescer sem eles.

Quando somos pequenos, o que queremos é crescer.

Eu, aos 20, continuo a querer. Quero ver até onde isto vai, quero ver o que esta vida que escolhi tem para me dar, quero chegar a sítios onde nunca achei que conseguia chegar. O que eu não quero é ver a minha família a crescer sem mim.

Ninguém me avisou de que crescer é começar a deixar a família para trás. Não no sentido literal, vinte e quatro horas sem ligar à minha mãe continuam a ser impensáveis, mas no sentido em que a vida deixa de ser em conjunto. Ao menos é a trabalhar no que escolhi: empreender. Que é, convenhamos, a profissão da moda. No meu caso, eu já estou na moda só por me vestir bem. Para mim, isto não é tendência, é um sonho.

Há cerca de duas semanas, sentei-me com a minha avó. Estávamos cá em casa, sentadas à mesa de jantar, a beber café e a comer bolachas. A certa altura, percebi que estávamos a falar a partir de planetas diferentes.

Para ela, trabalhar é receber ao fim do mês. Ponto. Foi assim que ela construiu uma vida. E sei que há aqui uma dualidade difícil de ignorar. Muitas vezes, as pessoas não fazem o que gostam, fazem o que têm de fazer para ganhar dinheiro. Foi isso que fez com que a minha mãe se tornasse no que é hoje. E foi também isso que me deu a base para hoje poder sonhar com outra coisa.

Para mim, receber ao fim do mês não chega. Eu quero receber, claro, não vivo do ar, mas quero receber a fazer algo que me dê gosto. Quero receber a construir algo que é meu.

Se calhar é porque tenho 20 anos, sou ingénua, e ainda não tenho uma família para sustentar. Posso correr riscos. E é precisamente por isso que escolhi empreender: porque o pior que me pode acontecer agora é correr mal e aprender muito.

A minha avó nasceu numa altura em que correr riscos era um luxo que ninguém se podia dar. A minha geração nasceu noutra coisa qualquer.

Há quem diga que empreender é um caminho solitário. Antes achava que isso era mito, agora sei que é literal.

Os amigos convidam-me para sair, e eu digo que não. Convidam outra vez, e eu digo que não. À terceira ou à quarta vez, deixam de convidar e eu não os culpo. O problema é que eles acham que o problema é com eles. Que se calhar disseram alguma coisa, que se calhar já não gosto deles, que se calhar mudei. Não mudei, ou pelo menos não nessa parte. É só que, se eu sair duas noites seguidas, a produtividade da semana cai a pique, e ninguém vai resolver os meus problemas mais depressa só porque eu fui beber um copo.

A parte difícil é saber como explicar isto sem soar arrogante, sem soar a desculpa, sem soar a alguém que se acha mais importante do que é. Como é que se explica que o problema não é com eles?

Depois há a parte que custa admitir: talvez eu pudesse fazer mais vezes da amizade uma prioridade. Talvez pudesse ir só jantar, aparecer só um bocadinho, desligar por umas horas. Mas depois penso no ritmo em que estou agora e no quanto ainda tenho para aprender.

Não há work-life balance em empreendedorismo. Ou, pelo menos, não há para mim, neste momento. Sei que vai haver quem leia isto e me diga que é a receita perfeita para um burnout. E talvez tenham razão. Mas também sei que não quero olhar para trás daqui a dez anos e perguntar-me o que teria acontecido se tivesse escolhido o caminho seguro, quando ainda podia arriscar.

Ter pessoas que te apoiam é o que torna isto possível. E eu tenho. Tenho a minha família, o meu namorado, e algumas amizades que me percebem. Pessoas que estão nas conquistas, nas derrotas, e em todo o caminho do meio.

Mais do que ter um negócio, mais do que ter liberdade, o que eu quero mesmo é poder um dia retribuir aos meus pais aquilo que eles fizeram por mim. E quero fazê-lo enquanto eles ainda cá estão, enquanto somos todos jovens, enquanto há tempo.

A verdade é que ainda não sei como isto acaba. Só sei que estou a tentar construir alguma coisa que faça sentido. Para mim, para os meus pais e para a pessoa que quero ser quando for grande.

Quero crescer. Só não quero crescer sem eles.

PODE GOSTAR DE LER
Continue to the category
PUB

ÚLTIMAS NOTÍCIAS

NEWSLETTER

PUB
PUB

SUSTENTABILIDADE

Continue to the category