Por: Ana Marisa Vieira
1. Regressar a 2023
PME Magazine – A PME Magazine já entrevistou a CIP no passado, ainda antes da sua presidência. Que nova visão e prioridades estratégicas quis imprimir à Confederação desde que assumiu funções em 2023?
Armindo Monteiro – A nossa visão para a CIP é a de ser a principal voz das empresas portuguesas, o interlocutor de referência do setor empresarial e um parceiro estratégico da afirmação do país.
As prioridades foram definidas no Plano Estratégico para o mandato:
- Estimular o aumento da produtividade para uma nova ambição de crescimento;
- Defender um Estado eficiente ao serviço do desenvolvimento económico e social;
- Reforçar e federar o movimento associativo;
- Assegurar que a CIP é uma organização ágil, aberta e eficaz.
Assumimos, desde logo, com o Pacto Social, a responsabilidade de defender uma efetiva agenda de ambição e mudança para quem produz, transforma e inova.
Iniciamos um novo ciclo, com a ambição de alargar e aprofundar a nossa missão, não só na representação e mobilização das empresas, mas assumindo-nos também como parceiro do Governo em políticas públicas que aumentem a produtividade e a competitividade da economia portuguesa.
2. O que mudou no tecido empresarial na última década
Se tivesse de identificar a maior transformação nas empresas portuguesas nos últimos dez anos, qual destacaria?
Olhando para a última década, destacaria a digitalização e a adoção tecnológica. Muitas empresas fizeram investimentos significativos na automação de processos, no comércio eletrónico, no recurso à análise de dados, no marketing digital.
Esta transformação, infelizmente, não foi suficiente para impulsionar significativamente a produtividade. O crescimento que alcançamos foi suportado mais pelo aumento do emprego do que pela produtividade, que, na última década, aumentou apenas 0,5% em média anual. Esta evolução deve-se, em parte, ao facto de muitos dos setores que conseguiram obter maiores ganhos de produtividade terem diminuído o seu peso na economia.
Isto remete-nos para a necessidade de uma estratégia consistente de aceleração da transformação estrutural da nossa economia.
3. O estado atual das PME
As PME portuguesas estão hoje mais preparadas para competir num mercado global? Onde continuam a residir fragilidades estruturais?
Competir no mercado global exige empresas mais produtivas, capazes de sustentar a sua força mais no valor percebido pelo cliente e menos no preço. Exige capacidade de inovação, nomeadamente pela introdução de novas tecnologias, por forma a garantir, de forma duradoura, uma posição sustentável no mercado. Aqueles que não inovarem correm o risco de ficar para trás.
Isto é válido para qualquer empresa, de qualquer dimensão.
Diria que as PME estão a mover-se na direção certa, mas o ritmo e a profundidade desse movimento variam muito. Persistem fortes assimetrias, sobretudo entre empresas com maior dimensão, as que podemos classificar como médias empresas, e as pequenas e microempresas, limitadas precisamente pela sua pequena dimensão e pela baixa capacidade de investimento.
Temos um grande peso de microempresas na economia (Portugal é o quinto país da UE com a maior percentagem do valor acrescentado gerado por microempresas – cerca de 45%, contra 35% em média na UE) e no emprego (42,2% em Portugal contra 30,6% na UE); temos PME, em média, mais pequenas do que as europeias e, também, as (poucas) grandes empresas nacionais – pouco mais de mil – têm uma dimensão inferior: uma grande empresa portuguesa tem, em média, 835 trabalhadores, na União Europeia possui 1134.
Uma forte fragilidade estrutural é precisamente esta a grande fragmentação do tecido empresarial português, tendo em conta a dimensão crítica necessária para que uma empresa possa dispor dos recursos – humanos e financeiros – indispensáveis para se internacionalizar ou para investir fortemente em inovação. A reduzida dimensão limita também o recurso a uma maior profissionalização e qualificação da gestão, o que, por sua vez, é um obstáculo ao crescimento. Há aqui um círculo vicioso que é preciso quebrar.
4. Competitividade e contexto económico
Carga fiscal, custos de contexto, burocracia. O que mais condiciona hoje o crescimento das empresas representadas pela CIP?
Entre os fatores que travam a capacidade de investimento das empresas portuguesas e, portanto, o seu crescimento orgânico, estão a excessiva regulamentação (referida por 83% das empresas), os pesados encargos administrativos, a escassez de pessoal qualificado e a dificuldade de acesso ao financiamento para projetos de inovação e de expansão.
A elevada tributação sobre as empresas é outro dos principais fatores que desencoraja o investimento. Além disso, a persistência da derrama estadual, que tributa progressivamente os lucros acima de determinados escalões, é um claro desincentivo ao aumento de dimensão das empresas.
5. Tecnologia, IA e produtividade
Que impacto real estão a ter a inteligência artificial, a automação e a digitalização na produtividade empresarial em Portugal? Estamos a acompanhar o ritmo europeu?
Um recente estudo sobre o Impacto da Economia Digital em Portugal revela que a economia digital portuguesa gera atualmente 90 mil milhões em valor acrescentado bruto (VAB) e sustenta quase 3 milhões de empregos, representando 13% do VAB e 23% do emprego. O estudo refere um impacto positivo no aumento da capacidade produtiva e efeitos de substituição — processos tradicionais substituídos por práticas digitalizadas mais eficientes.
Contudo, o estudo conclui também que o impacto não é automático. Exige políticas públicas consistentes, investimento privado contínuo e uma visão estratégica orientada para o longo prazo. Só assim será possível transformar maturidade digital em prosperidade económica e social.
Se as empresas portuguesas estão mais presentes na Internet, mais ativas no comércio eletrónico e mais abertas à inovação, há, no entanto, dados que mostram que a adoção de tecnologias mais avançadas, como cloud computing, inteligência artificial e automação inteligente, ainda é limitada, sobretudo nas PME.
Portugal apresenta uma taxa de adoção de inteligência artificial significativamente inferior à média observada nos países da União Europeia. Em 2024, no conjunto dos 27 Estados-membros da UE, cerca de 13,5% das empresas com 10 ou mais trabalhadores já integravam soluções de IA nos seus processos operacionais. Em Portugal, a percentagem era apenas de 9,3% e o crescimento face a 2023, embora positivo, revela-se modesto e abaixo do ritmo desejado para garantir uma transformação eficaz e competitiva no tecido empresarial nacional.
Entre os principais desafios está a falta de qualificação adequada dos recursos humanos e a exigência de um investimento significativo, o que é um fator limitativo para muitas empresas, especialmente as PME, que, muitas vezes, têm orçamentos mais restritos e dificuldades em alocar recursos para este tipo de investimento.
6. Talento e liderança empresarial
A escassez de talento é hoje um dos maiores entraves ao crescimento. O problema resolve-se com imigração, qualificação ou melhores salários?
A escassez de talento e a dificuldade em reter profissionais qualificados são, sem dúvida, fatores que podem cada vez mais inibir ou condicionar o crescimento. Cerca de 86% das empresas referem a falta de trabalhadores qualificados como um obstáculo ao investimento, muito acima da média da UE27 de 77%. Para muitos setores, especialmente os de base tecnológica, conhecimento intensivo ou que dependem de competências altamente especializadas, a disponibilidade de talento é tão ou mais crítica quanto o acesso ao capital.
Mesmo quando conseguem recrutar, muitas empresas enfrentam elevada rotatividade: profissionais altamente qualificados recebem múltiplas ofertas e podem sair rapidamente em busca de melhores condições.
Para responder a este problema temos, em primeiro lugar, que tornar mais eficientes os sistemas de ensino e formação, por forma a adequar a oferta de qualificações às necessidades das empresas. Podemos ter, como é já lugar-comum dizer, a geração mais qualificada de sempre. Mas serão essas as qualificações que as empresas procuram e necessitam?
O Country Report de 2025 da Comissão Europeia para Portugal afirma a este respeito que a escassez e a inadequação das competências terão um impacto negativo na economia, a menos que os sistemas de ensino e formação se tornem mais eficientes.
A emigração de jovens qualificados está também profundamente relacionada com esta situação. Na sua raiz está a dificuldade das empresas portuguesas em oferecer níveis de remunerações concorrenciais com os que são oferecidos noutros países, nomeadamente europeus. O aumento dos rendimentos é um desígnio que deve ser assumido pelas empresas – na medida em que alcancem ganhos de produtividade que sustentem níveis salariais mais elevados – mas também pelo Estado, que absorve, através da tributação sobre o trabalho, uma parcela excessiva dos rendimentos gerados e distribuídos pelas empresas. Mais uma vez falamos de dois temas em que permanentemente insistimos na CIP: produtividade e redução da carga fiscal.
Finalmente, o envelhecimento demográfico e a escassez de quadros especializados exigem uma política migratória ativa, orientada para atrair talento com competências críticas. Esta política permitirá colmatar falhas no mercado de trabalho e apoiar setores em crescimento, nomeadamente setores tecnológicos emergentes.
Em suma, concluiria que a solução para o problema não está numa única via, mas na articulação das três: adequação da oferta de qualificações às necessidades (presentes e futuras) das empresas, melhores salários suportados em ganhos de produtividade e uma política migratória orientada para atrair competências críticas.
7. Portugal na Europa: posicionamento estratégico
Que oportunidades económicas Portugal deve aproveitar melhor na próxima década no contexto europeu e global?
Destacaria o facto de Portugal reunir uma combinação de fatores que abre oportunidades no quadro das estratégias empresarias de nearshoring na Europa, tanto ao nível comercial como de investimento.
Existe uma nova perceção dos riscos associados a dependências excessivas e da rigidez que estava a caracterizar muitas cadeias de valor. Estes desenvolvimentos estão a levar ao encurtamento das cadeias de valor e ao regresso de muitas empresas, nomeadamente europeias, ao recurso a fornecedores de mercados mais próximos e, sobretudo, de mercados que apresentem menores riscos.
As oportunidades oferecidas por esta reorganização das cadeias de valor ao nível internacional (e especialmente europeu) estão presentes na generalidade dos setores abertos à concorrência externa. Mas não basta às empresas portuguesas aumentar a sua integração nas cadeias de valor globais. É necessário que, dessa integração, resulte mais valor acrescentado retido na nossa economia.
Para beneficiar plenamente das oportunidades acima referidas, é fundamental que as empresas portuguesas sejam competitivas em relação às suas concorrentes:
- Em primeiro lugar, em termos da relação entre o valor produzido e os custos incorridos nessa produção. Daí o imperativo de alcançar ganhos de produtividade cada vez mais fortes e de não desconectar aumentos de custos (nomeadamente laborais) desses ganhos de produtividade.
- Em segundo lugar, a adaptabilidade e flexibilidade são vantagens competitivas cada vez mais relevantes no quadro da referida reorganização das cadeias de valor. Para potenciar esses trunfos, é necessário um enquadramento laboral adequado às respostas que as empresas são chamadas a dar a mercados exigentes e em constante mutação, bem como à adoção de novos processos de aprovisionamento, de produção e de comercialização.
8. Internacionalização e escala
Portugal continua a ser um país de micro e pequenas empresas. Crescer para fora é ainda a principal via de escala? Que apoios ou políticas públicas são críticos?
A reduzida dimensão do mercado nacional faz com que o caminho do crescimento empresarial tenha de passar por uma maior e melhor afirmação nos mercados internacionais. Daí a importância de uma maior internacionalização das empresas portuguesas. Por outro lado, como afirmei, a grande fragmentação do tecido empresarial português é ela própria um obstáculo à internacionalização. Daí a importância de políticas públicas que favoreçam quer o crescimento orgânico das empresas – estimulando a internacionalização e quebrando os bloqueios que impedem as empresas de investir e de inovar – quer, também, o crescimento por via de fusões e aquisições, através de mecanismos financeiros e fiscais que incentivem a concentração empresarial.
9. O que distingue as empresas que vão liderar até 2035
Que características terão as organizações mais competitivas nos próximos dez anos?
Três características fundamentais: visão estratégica, capacidade de liderança, adaptabilidade.
10. Parabéns, PME Magazine!
A PME Magazine celebra uma década a dar voz às pequenas e médias empresas. Que mensagem deixa aos empresários que nos acompanham e ao papel do jornalismo económico dedicado às PME?
Aos empresários, deixo uma mensagem de confiança: contra toda a adversidade, não desistam e mantenham sempre vivo o espírito empreendedor.
À PME Magazine, deixo uma palavra de encorajamento para continuar a ser uma referência do jornalismo económico dedicado às PME: informando com rigor e independência, descodificando a realidade económica numa linguagem acessível, estimulando o debate, dando visibilidade às PME e mostrando o seu valor.












