Quinta-feira, Abril 3, 2025
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“Fiz o meu plano de carreira, defini o meu trajeto e lutei pelos meus objetivos” – Rita Piçarra, ex-Microsoft

Por: Ana Vieira

Rita Piçarra, ex-diretora financeira da Microsoft reformou-se aos 44 anos. Desde os 20 anos que planeou a carreira para não depender de uma empresa para sobreviver. Agora quer ganhar tempo com a família, amigos e inspirar quem a rodeia.

Em entrevista à PME Magazine conta o caminho que traçou e qual a reação do país, onde, defende que “existe a crença que falar de dinheiro é falta de educação”.


PME Magazine – Aos 44 anos decidiu reformar-se do cargo de diretora financeira da Microsoft. Quando começou a planear esta data e o que é que implicou fazer (ou deixar de fazer) na sua vida?   

Rita Piçarra – Com a morte prematura dos meus pais nos seus 50’s, o meu plano de carreira passou a estar limitado até ao momento em que atingisse os 50 anos. Sempre tive muita ambição, e sempre quis crescer muito no mundo corporativo, mas nem sempre a esperança média de vida está alinhada com a nossa realidade e tudo pode acabar muito antes do que o desejável. Acabei por me retirar aos 44, uma vez que já tinha atingido a minha independência financeira. Para tal foram necessárias varias coisas: 

Ambição – Fiz o meu plano de carreira, defini o meu trajeto e lutei pelos meus objetivos. Executei o meu trabalho, em todas as funções de forma exemplar para ser reconhecida como tal, e conseguir subir cada vez mais na organização. Ter saído de Portugal durante 12 anos (trabalhei em Espanha, França, Miami e Seattle) deu-me a possibilidade de alavancar o meu salário, e ganhar as competências necessárias para chegar ao meu trabalho de sonho, ser a CFO da Microsoft Portugal. 

Work Life Balance – Para tentar ser sempre a melhor profissional que posso ser, tento estar na minha vida pessoal. Faço regularmente o exercício das três caixinhas (eu, a minha família, e o meu trabalho) por forma a conseguir ter o equilíbrio desejado. Tem sido crucial, também, delimitar as minhas prioridades pessoais e ser intransigente com elas: fazer exercício físico e ir buscar a minha filha à escola foram sempre não negociáveis na minha agenda. 

Independência Financeira – Poupei, sempre, o máximo que consegui. Vivi uma vida minimalista, abaixo das minhas possibilidades. Quanto mais poupei, mais consegui investir de forma diversificada. Nunca recorri a créditos ao consumo e criei um orçamento pessoal para entender para onde estão a ir os meus gastos fixos e variáveis, os essenciais e os supérfluos. Este orçamento permitiu-me entender quanto dinheiro gasto por mês e por ano e quanto necessitava para manter o meu nível de vida depois de deixar de receber um salário de uma empresa. 

Higiene mental –  Muitos de nós pensamos muito em deixar de trabalhar, deixar o mundo corporativo, e trabalhamos muito a parte financeira para o conseguirmos fazer, mas há toda uma questão psicológica que muitas vezes não é falada. Temos que nos preparar mentalmente também. Depois de uma vida tão agitada, e até de um certo status que os títulos e as empresas nos dão, Quem somos nós? Qual é o nosso novo propósito na vida? Quais são os nossos novos objetivos e como vamos contribuir para a sociedade? 


PME Magazine – O que pensa ganhar mais com esta decisão? 

Rita Piçarra – Eu queria ganhar tempo, tempo para mim, para a minha família e amigos, para surfar e todos os meus hobbies. Queria dedicar-me àquilo que me deixa feliz, que gera energia positiva na minha vida e me deixa um sorriso na cara. Queria ganhar mais saúde mental e física. 

Agora posso os meus dias a fazer o que mais gosto a falar com e para pessoas, e a ajudá-las. 

  

PME Magazine – Como foi a reação da sua família e colegas mais próximos? 

Rita Piçarra – Houve dois tipos de reações muito distintas, as pessoas que me apoiaram e entenderam a minha decisão, e que inevitavelmente soltavam um comentário de “que inveja”. E as pessoas que não entendiam e que me perguntavam mas o que é que vais fazer, para onde vais trabalhar, como vais ocupar o teu tempo. E concluíam com um “vais ficar aborrecida”. 

Estar reformada, não é sinonimo de estar parada. É uma mudança de objetivos, de propósito. 

  

PME Magazine – Desde o seu anúncio que tem tido dezenas de solicitações para entrevistas ou palestras. Tinha ideia do alcance da discussão que a sua decisão teria? 

Rita Piçarra – Não fazia ideia. Aliás muitas vezes sinto que fui dormir domingo à noite e que segunda-feira quando acordei estava num mundo paralelo. Eu continuo a mesma pessoa com as minhas motivações, ideias e atitudes, mas o mundo à minha volta mudou na forma como olha para mim. Não tinha intenção de ser “famosa”, mas fico feliz por conseguir inspirar pessoas a tomarem a mesma decisão, ou começarem a olhar para o planeamento financeiro e a poupança com outro empenho. Em Portugal existe a crença que falar de dinheiro é falta de educação, mas se não falarmos de dinheiro, como vamos aprender como ganhá-lo ou investi-lo? 

Alegra-me também que se fale de temas de saúde mental mais abertamente, porque infelizmente hoje em dia a saúde mental ainda é tabu em Portugal e no Mundo. 

  

PME Magazine – Quando decidiu tornar pública a sua intenção, teve como objetivo ajudar outras pessoas a tomar uma iniciativa semelhante? 

Rita Piçarra – Eu partilhei a minha história para inspirar pessoas que planeiam fazer o mesmo. Mas sinceramente, nunca pensei que fosse ter a visibilidade que teve. Foi incrível! Na manhã de 28 de agosto, quando o podcast ficou viral, o meu relógio e o meu telefone ficaram sem bateria de tantos alertas e tantas notificações que eu recebi. 

 

PME Magazine – Agora que se reformou, como divide e gere o seu tempo? 

Rita Piçarra – O Podcast do Expresso surgiu como uma onda gigante para a qual eu não estava preparada, demorei algumas semanas até entender e ajustar-me a esta nova vida. Estou muito grata por toda a atenção, mediatismo e convites que têm surgido. 

O meu dia-a-dia agora passa sempre por fazer exercício físico na praia logo de manhã, uma palestra, podcast ou conferência, comer saudável, ir buscar a minha filha à escola, passar tempo com a família e amigos. Estou também muito dedicada a escrever o meu primeiro livro. É um sentimento de gratidão gigante que tenho por poder inspirar pessoas e ao mesmo tempo gerir os meus horários. 

  

PME Magazine – A quem tem o mesmo objetivo de antecipar e planear a sua reforma que conselhos pode deixar. 

Rita Piçarra – A minha história deve inspirá-los a questionar as expectativas convencionais, a não ter medo de tomar decisões ousadas e a abraçar a liberdade de escolher o vosso próprio caminho. Lembrem-se de que, não importa onde estejam agora, o futuro é uma tela em branco à espera para ser preenchida com a vossa própria história de sucesso e felicidade. Não vai ser fácil, requer planeamento, disciplina, foco. Mas se eu consegui, vocês também podem chegar lá. 

 

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